Jornal de WM
por Woden Madruga
Esta coluna é atualizada diariamente
Novo Macunaíma
Passada a falta de emoção cívica do Desfile da Independência (Em Brasília, cidade de pouco mais de 2 milhões e 500 mil habitantes, apenas 25 mil pessoas foram ver o desfile numa daquelas esplanadas projetadas por Lúcio Costa; isso quer dizer um por cento, apenas, da população do Distrito Federal; e olhe que Lula estava no palanque...), começo o pós-feriadão lendo o artigo de Dora Kramer no Estado de São Paulo. Lá em cima, entre anjos que cercam São Pedro, Carlos Castello Branco certamente bateu palmas. Dora Kramer é a sucessora perfeita do maior cronista político que passou pela imprensa brasileira.
A propósito, sugiro ao prezado leitor que quando for à livraria do seu gosto não deixei de adquirir o livro de Dora Kramer, O poder pelo avesso, uma edição da Barcarola, saído no fim do primeiro semestre deste ano. É essencial para que se saiba o que acontece dentro e fora dos muros do Poder, como funcionam a máquina e a mágica de Brasília, em seu palco maior, em seus bastidores e nos porões também. Bom, o título do artigo publicado no Estadão é “Macunaíma”. Transcrevo-o por inteiro:
“Só porque é popular uma pessoa pode escarnecer de todos, ignorar a lei, zombar da Justiça, enaltecer notórios malfeitores, afagar violentos ditadores, tomar para si a realização alheia, mentir e nunca dar um passo que não seja em proveito próprio?
Depende. Um artista não poderia, sequer ousaria fazer isso, pois a condenação da sociedade seria o começo do seu fim. Um político tampouco ousaria abrir tanto a guarda.
A menos que tivesse respaldo. Que só revelasse sua verdadeira face lentamente e ao mesmo tempo cooptasse os que poderiam repreendê-lo, tornando-os dependentes de seus projetos dos quais aos poucos se alijarim os críticos, por intimidação ou desistência.
A base de tudo seria a condescendência dos setores pensantes e falantes, consolidada por longo tempo.
Para compor a cena, oponentes tíbios, erráticos, excessivamente confiantes, covardes diante do adversário atrevido, eivados por ambições pessoais e sem direito a contar com aquele consenso benevolente que é de uso exclusivo dos representantes dos fracos, oprimidos e ignorantes.
O ambiente em que o presidente Luiz Inácio da Silva criou o personagem sem freios que faz o que bem entende e a quem tudo é permitido – abusar do poder, usar indevidamente a máquina pública, insultar, desmoralizar – sem que ninguém se disponha ou consiga lhe pôr um paradeiro – não foi criado da noite para o dia.
Não é fruto de ato discricionário, não nasceu por geração espontânea nem se desenvolveu apenas por obra da fragilidade da oposição. É produto de uma criação coletiva.
Da tolerância de informados e bem formados que puseram atributos e instrumentos à disposição do deslumbramento, da bajulação e d opção pela indulgência. Gente que tem pudor de tudo, até de exigir que o presidente da República fale direito o idioma do País, mas não parece se importar de lidar com gente que não tem escrúpulo de nada.
Da esperteza dos arautos do atraso e dos trapaceiros da política que viram nessa aliança uma janela de oportunidade. A salvação que os tiraria do aperto no momento em que já estavam caminhando para o ostracismo. Foram todos ressuscitados e por isso são gratos.
Da ambição dos que veem suas convicções (quando as têm) em troca de verbas do Estado, sejam sindicalistas, artistas, prefeitos ou vereadores.
Da covardia dos que se calam com medo das patrulhas.
Do despeito dos ressentidos.
Do complexo de culpa dos mal resolvidos.
Da torpeza dos oportunistas.
Da pusilanimidade dos neutros.
Da superioridade estudada dos cínicos.
Da falsa isenção dos preguiçosos.
Da preguiça dos irresponsáveis.
Lula não teria ido tão longe com a construção desse personagem que hoje assombra e indigna muitos dos que lhe faziam corte, não fosse a permissividade geral.
Nada parece capaz de lhe impor limites. Se conseguir eleger a sucessora, vai distorcer a realidade e atuar como se presidente fosse. Se não conseguir, não deixará o próximo governo governar.
Agora, é sempre bom lembrar que só fará isso se o País deixar que faça, como deixou que se tornasse esse ser que extrapola.
RECIBO
O presidente Lula resolveu reagir e há três dias rebate a oposição no caso das quebras dos sigilos fiscais para negar a existência de propósitos político-eleitorais. Ocorre que faz isso usando exclusivamente argumentos político-eleitorais. Em nenhum momento até agora o presidente se mostrou preocupado com o fato de sabe-se lá quantas pessoas terem tido seus sigilos violados e seus dados cadastrais abertos por funcionários da Receita sabe-se lá por quê.
O presidente tampouco pareceu sensibilizado com a informação do ministro da Fazenda de que os vazamentos ocorrem a mancheias. Esses cidadãos não receberam do presidente Lula uma palavra de alento ou garantia de que seus direitos constitucionais serão preservados.
Lula só respondeu a Serra, só trata do assunto na dimensão eleitoral e assim confirma que o caso é de polícia, mas também é de política.”
Poesia
Hoje tem o lançamento do livro do poeta Paulo de Tarso Correia de Melo, Sabor de amar, a partir das 19 horas na Livraria Siciliano, do Miduei. A edição é da Sarau das Letras, de Mossoró, tem apresentação de Clauder Arcanjo e um texto na contra-capa assinado por David de Medeiros Leite, poetas e escritores mossoroenses. Gente do ramo. As ilustrações são de João Helder Alves Arcanjo e Augusto Paiva, que assinou o projeto gráfico. Desconfio que os dois sejam também do país de Vingt-um Rosado.
Paulo de Tarso dedica o livro a Mossoró e a sua mulher Ana Maria: “É preciso correr e escrever / um poema em louvor aos teus olhos / cor de tarde. Líquidas e enormes, / em meio ao azul, tuas pupilas ardem.”