Toque - Livros e Cultura
por Carlos de Souza
Esta coluna é atualizada às Quartas
História do mundo e gnosticismo
Dois livros vêm tomando o meu tempo nos últimos dias, mas juro que isso não está sendo nada penoso. O primeiro é A Grande História – Do Big Bang aos Dias de Hoje, de Cyntia Stokes Brown, Civilização Brasileira, 420 páginas R$54,90 (no site da Livraria Cultura sai 10 paus mais barato). Parece que o livro faz parte de um gênero que vem chamando muita a atenção dos leitores nos últimos tempos. Primeiro foi Marcelo Gleiser explicando a não simetria do universo. Navegando pela Web, vi um tal Do Big Bang ao Universo Eterno, de Mario Novello, Jorge Zahar, 132 páginas, R$28,00 (no site da Cultura sai por 22 pilas). Isso está virando moda, cara.
Mas vamos ao livro. A proposta, como está bem claro no título, é contar a história, não apenas da humanidade, mas a partir do nascimento do universo. A ciência chegou ao ponto de poder explicar um monte de coisas sobre o assunto, mesmo não tendo respostas definitivas para tudo. Na semana passada um satélite fotografou todo o céu visível. Sabe lá o que é isso? Eu digo. É meio assustador, e para quem não tem uma boa religião para se segurar, é vertiginoso, meu irmão. O livro de Cyntia Stokes vai ao ponto e conta o nascimento do nosso universo e avisa, pode existir mais outros universos. Marcelo Gleiser fala de multiversos. Depois ela se debruça sobre a história do planeta Terra, a vida e depois a chegada do homem.
É fascinante ler sobre isso. Estamos por aqui há pelo menos alguns 7 milhões de anos. Beleza, né? Mas as grandes religiões só surgiram, todas quase ao mesmo tempo, há uns meros dois mil anos, com o surgimento das grandes aglomerações humanas, as cidades. O livro vai percorrendo pacientemente nossa trajetória até que começamos a andar e a fazer guerra. Stokes Brown diz que civilização não é sinônimo de felicidade. Pelo contrário, é sinônimo de guerra e atrocidades e Israel, Afeganistão, Irã e Iraque, com a bênção dos EUA estão aí para provar.
Ela só escorrega um pouco na maionese quando se detém na história mais próxima. Por exemplo, acredita piamente que Cabral chegou aqui por acaso. Aliás, ela cuida muito pouco do Brasil. Sua maior preocupação é África e Eurásia. Depois pula para a América Latina de língua espanhola e América do Norte. Nós não temos história, ao que parece.
O outro livro é Um Obscuro Encanto – Gnose, Gnosticismo e Poesia, de Claudio Willer, Civilização Brasileira, 462 páginas, R$59,90 (dez reais a menos na Cultura). Este é o tipo do livro para quem gosta de poesia. Principalmente a poesia dos malditos Blake, Novalis, Baudelaire, Rimbaud, Lautréamont e dos mais bonzinhos Pessoa, Goethe e Victor Hugo. O autor defende que estes mestres da literatura tinham grande afinidade com o gnosticismo, que é um “movimento de caráter filosófico-religioso, iniciado em meados do primeiro século de nossa era. Seu nome deriva do termo grego gnôsis, que significa saber, conhecimento. Podemos compreender o gnosticismo como um conjunto de doutrinas que pretende alcançar a redenção através de um conhecimento de Deus, do universo e da finalidade da vida humana. Tal conhecimento, contudo, passa eminentemente pela via da revelação mística e extática, antes de possuir caráter especulativo. Os maiores representantes do gnosticismo são Simão Mago, Menandro, Saturnilo, Marcião, Valentim, Basílides, Carpócrates e Bandesanes”.
O capítulo que mais me prendeu à leitura deste livro foi o que fala sobre o poeta William Blake, considerado louco por seus contemporâneos, o homem estava longe de merecer um hospício. Muito pelo contrário, era lúcido demais para sua época e, realmente, muito do que ele escreve e parece obscuro na primeira leitura, pode ser bem explicado quando se conhece textos gnósticos. Blake criou uma mitologia própria e seus versos sem rima são de tirar o fôlego.
Outra coisa que me chamou bastante a atenção neste livro foi que muita coisa que a gente ouve de Raul Seixas, e talvez os livros de Paulo Coelho, estão lá nos textos gnósticos. Principalmente em músicas como Gitã ou aquela do trem. Raul Seixas, com certeza, leu essas coisas. Nunca li Paulo Coelho, mas algo me diz que ele segue o mesmo caminho e aí estaria a razão de seu sucesso estrondoso no mundo inteiro.
Para compensar essa não leitura do Mago, resolvi ler o resto do livro ao som do grande Raul e olha que isso me deu um prazer imenso, compadre. Toca Raul! O livro de Claudio Willer é fruto de um cuidadoso estudo acadêmico, e pode ter certeza, não tem aquele ranço de teses acadêmicas. É muito bem escrito e a leitura flui como a de um bom romance. De quebra, o leitor tem uma farta informação sobre religião e escritos apócrifos. Vocês sabem, né? Escritos apócrifos são aqueles que não foram aceitos pela Igreja Católica no decorrer dos tempos. Coisas que podiam ameaçar seu poder e hegemonia. O escritor argentino Jorge Luís Borges adorava ler apócrifos.