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por Tribuna do Norte
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Remorso cívico e Jânio Quadros
Ticiano Duarte [ jornalista ]
Um velho amigo que já se foi, gostava de dizer, em tempo de eleições: tenho muito medo do remorso cívico. O que era remorso cívico para ele? Votar e eleger um candidato e depois arrepender-se.
Pois bem, tive alguns remorsos cívicos na minha longa vida de eleitor, apesar de não ter votado em Collor e para ir mais distante engolir o marechal Lott com toda sua antipatia, para não cair no engodo da eleição de Jânio Quadros.
Bom, mas, essa é outra história, porque com relação a Jânio, nos seus seis meses de governo, pensei que o tinha julgado apressadamente, em razão das medidas implementadas, parecendo um ensaio para mudar a face deste país, dando uma verdadeira vassourada no lixo que se juntava por todo território nacional, nos pequenos e altos escalões da administração pública. Qual não foi a decepção logo em seguida com a sua renúncia, que nos tem custado caro até aos dias de hoje, o Brasil passando por períodos altamente traumáticos.
A sua figura carismática e polêmica, suas posturas no meio do povo, os cabelos desgrenhados, os gestos espalhafatosos, o homem do povo que aparentava ser, todo um cenário demagógico que conquistou adeptos e seguidores; uma carreira política inigualável, vereador, deputado estadual, prefeito, governador, deputado federal e presidente da República, ainda se mantém viva na lembrança de uma geração que assistiu o começo e o fim de um político campeão de votos.
As estórias folclóricas de sua passagem da vida pública brasileira ainda correm de boca em boca, sobre sua vida misteriosa, seus hábitos extravagantes, apreciador do bom uísque e de uma boa aguardente; os permanentes desequilíbrios emocionais, de calma e ira, de bom e mau humor, ainda hoje são repetidas pelos velhos militantes da imprensa que o acompanharam na oposição e no governo e mesmo após sua cassação política.
Em 1960, na campanha presidencial, esteve no Recife, hóspede de outra grande figura da política pernambucana e do folclore político daquele estado, o ex-deputado Murilo Costa Rego. Programado um café pela manhã, Murilo convidou jornalistas para a coletiva com o candidato. Sebastião Nery estava entre os entrevistadores e conta que era um banquete senhorial: queijo de todo tipo, bolo, inhame, cuscuz, frutas da estação. Jânio "desceu as escadarias, barbeado, bem penteado, todo elegante em slaque cinza, aquele de Nasser. E vai direto à mesa:
- Murilo só estou vendo leite, Murilo. Não sou bezerro. Quero um puro, Murilo".
Vejam como era Jânio. Nesse instante chega o governador Cid Sampaio com uma caravana de prefeito. O que ocorreu:
"Da cozinha, aparece o garçom com uma bandeja, um copinho e uma garrafa de uísque Old Par, abre o uísque, serve o copo:
- Presidente, seu uísque.
Jânio arregalou os olhos:
- Como uísque? Murilo eu disse lei-te, lei-te Murilo".
O garçom evidentemente voltou com a bandeja onde estava o uísque que Jânio pedira, que por sua vez engoliu imediatamente a grande quantidade de leite que estava no copo.
O governador Cid Sampaio logo em seguida saiu com os prefeitos que discutiram com o candidato os problemas graves do nordeste.
Sebastião Nery relata o final do episódio, verdadeiramente folclórico: "Jânio voltou para a mesa redonda onde nós os jornalistas, o esperava pra o café e a entrevista:
- Murilo, só estou vendo sucos e leite. Não sou bezerro, Murilo. Um puro por favor, Murilo".
O garçom apareceu com o Old Par, ele bebeu o puro de um gole, comendo do que quis, dando a entrevista.
Foi um ator inimitável, apesar de Lula vez por outra tentar reproduzir de mau gosto algumas das cenas que ele sabia dominar com perfeição artística.