Jornal de WM
por Woden Madruga
Esta coluna é atualizada diariamente
Padre Cícero
“Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão”, do escritor Lira Neto (Companhia de Letras) é o tal do livro que dá gosto o sujeito ler, um prazer danado de bom. Foi o que senti nestes últimos dias do ano que passou. Nem dei conta que são 557 páginas. A profunda e rica biografia do padre é escrita no estilo de uma bem elaborada reportagem. O autor, cearense, atualmente radicado em São Paulo, é jornalista, tem 46 anos de idade e uma obra de peso na literatura brasileira, incluindo aí um Prêmio Jabuti (2007) com o livro “O inimigo do Rei: Uma biografia de José Alencar”.
Também é autor da biografia da cantora Maysa Matarazzo: “Maysa: Só numa multidão de amores” (Editora Globo, 2007). Em 2004 publicou, pela Editora Contexto, a biografia do ex-presidente Castello Branco: “Castello: A marcha para a ditadura”. Na bagagem mais uns dois ou três títulos. .
A crítica tem recebido o “Padre Cícero” com aplausos. O escritor e critico Daniel Piza (Estadão), que é autor do ensaio biográfico “Machado de Assis: Um gênio brasileiro”, também da melhor qualidade, apontou o livro de Lira Neto entre os melhores lançamentos literários do ano. O caderno “Idéias e Livros” do Jornal do Brasil destacou: “Lira Neto soube utilizar o material inédito para sintetizar, em texto fluente e bem cuidado, as múltiplas dimensões do beato sertanejo: padre rebelde e devoto caboclo, político astuto e líder gentil, persuasivo e influenciável; missionário, romeiro e santo”.
Até a revista Playboy, agora de dezembro, abre alas para o livro, dando-lhe quatro coelhinhos, nota que corresponde a “muito bom”. Está lá o nosso “Padim Ciço Romão em página vizinha à bela nudez de Flávia Alessandra e outras bundas e peitos belíssimos e consagrados: “Apoiado em extensa pesquisa, Lira Neto conta a história do padre Cícero Romão Batista, um dos mais influentes personagens da história do país. Longe do mito, mas próximo do homem, aborda seu banimento da Igreja, o engajamento político, a ligação com Lampião, a fortuna acumulada e o fanatismo que o cerca”.
Claro que o livro me encantou até porque a figura do Padre Cícero – controvertida e polêmica - é fascinante. E o Lira Neto soube colocar no papel história – a história do Padre Cícero e de sua gente e de sua época - que prova que o realismo fantástico existe de vera principalmente quando acontece no sertão brabo do Nordeste brasileiro.
O autor trabalhou dez anos em suas pesquisas. Juntou mais de 900 cartas e telegramas que foi encontrar em arquivos da Cúria do Crato e também documentos secretos do Vaticano e do Santo Oficio. Pesquisou em dezenas de jornais e revistas da época, editados no Nordeste e no Sul do país. Peneirou rica e preciosa bibliografia, umas 120 obras. E entre elas – olhe que beleza - aparece um livro editado em Natal e que só podia ser do Sebo Vermelho: “Juazeiro e o Padre Cícero – Depoimento para a História”, do dr. Floro Bartolomeu, exatamente o lugar tenente do Padre Cícero. O livro foi publicado em 2004. Abimael está todo ancho.
Onde aparece José da Penha
Na minha leitura descobri que um dos primeiros folhetos sobre os milagres do Padre Cícero, ainda no século 19, foi impresso numa tipografia de Caicó, que não está identificada. O título é “Os milagres do Joaseiro ou Nosso Senhor Jesus Cristo manifestado sua presença real no divino e adorável sacramento da Eucaristia”. Trata do milagre da transformação da hóstia em sangue na boca da beata Maria de Araújo. O Rio Grande do Norte ainda aparece no livro quando do testamento do Padre Cícero. Ele tinha propriedades rurais nos municípios de Ceará Mirim e Touros. Como se sabe, o padre deixou uma fortuna em imóveis.
Outra revelação importante do livro ligada ao nosso Estado: a participação do capitão José da Penha, norte-riograndense de Angicos nessa impressionante história do Padre cearense. Oficial do Exército, José da Penha, uma das figuras lendárias da história política do nosso Estado, em 1912, enfrentou o Governo de Alberto Maranhão numa acirrada disputa eleitoral. É uma dos episódios mais dramáticos daquela quadra de tempo. Daqui, frustrado no seu projeto político,e partiu para o Ceará e foi enfrentar, agora os jagunços do Padre Cícero, comandados por Floro Bartolomeu. O capitão José da Penha, “o valoroso potiguar”, ficou ao lado do Governo Franco Rabelo, que combatia o Padre. Lira Neto conta com riqueza de detalhes como foi esse enfretamento no qual José da Penha perdeu a vida.
Nem um escritor norte-rio-grandense que escreveu sobre a vida de José da Penha, entre eles Alvamar Furtado e Aluizio Alves, teve acesso a essas informações, agora reunidas nesse livro. Zé da Penha está lá ao lado de Lampião, de Antônio Conselheiro, do cardeal Joseph Ratzinger, de Pinheiro Machado, do padre Ibiapina, de Delmiro Gouveia, de Luís Carlos Prestes, do padre José Marrocos, de Cassimiro de Abreu, de Rui Barbosa, de Hermes da Fonseca, de Artur Bernardes, do Papa Leão XIII, de José Américo de Almeida, Leonardo Mota, de João Dantas, de Chiquinha Gonzaga, de Getúlio Vargas, e de outras atores principais, coadjuvantes e figurantes, milhares dessa história extraordinária.
Almoço
Terminando o ano fui almoçar na Peixada da Comadre de Ponta Negra na companhia de Kleber Bezerra, Flávio Mousinho, João Bosco Ribeiro, Eduardo Melo, Dudu, e de Luis Fernando Melo. Só amenidades, algumas saudosas, bem saudosas. Mas teve um espaço para ligeira abordagem política em torno da sucessão governamental. Tirou-se apenas um fino.
Luis Fernando foi o responsável pela grande notícia da tarde: Está chovendo no Piauí. Ele vive hoje em Teresina, dirigindo a maior usina de açúcar e álcool daquele estado.
Férias
O colunista entra de férias a partir de hoje só voltando em fevereiro. Que o ano novo seja novo e bom para todos nós. Fique com a proteção do Padre Cícero Romão Batista que está sendo reabilitado pela Igreja de Roma, vereda aberta para um futura canonização.