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a s c í c u l o 1 0 O chefe da polícia, pelo telefone, manda me avisar/ Que na Carioca tem uma roleta para se jogar... Numa época em que bastava andar com um violão para ser preso, segundo o cronista João do Rio, a letra "oficiosa" de "Pelo telefone" jamais poderia ser divulgada além dos limites da Praça Onze - a "África em miniatura", segundo Heitor dos Prazeres. Embora houvesse algumas gravações anteriores, também intituladas samba, a música assinada por Donga e Mauro de Almeida é reconhecida por todos, nas palavras do pesquisador Sérgio Cabral, como a que deflagrou o processo pelo qual o samba "assumiria, como gênero musical, a hegemonia das músicas gravadas no Brasil". "Pelo telefone" provocou muita polêmica entre os freqüentadores dos pagodes na casa da Tia Ciata, de onde saiu. Segundo a animada turma, que reunia compositores como Pixinguinha e João da Baiana, Donga roubou a música. Para Donga, porém, valia a máxima de Sinhô, o maior divulgador do novo estilo nos salões da sociedade carioca: "Samba é que nem passarinho, é de quem pegar". A versão gravada era mais inocente: O chefe da polícia, pelo telefone, manda me avisar/Que com alegria, não se questione, para se brincar. Nesse período em que direitos autorais eram um luxo, o próprio Sinhô foi acusado por Heitor dos Prazeres de ter-lhe roubado o samba "Gosto que me enrosco". Quase levou uma surra por isso. No fim, Heitor conseguiu ser incluído nos créditos. Alguns anos depois, Francisco Alves, o "Rei da Voz", usaria sua popularidade para enfiar seu nome entre os autores das músicas que gravava - entre elas, algumas das parcerias de Noel Rosa e Ismael Silva, como "Adeus". Enquanto o rádio não assumia o seu posto de veículo de grande alcance e divulgação, o samba dos anos 20 teve como principal destaque o nascimento das escolas de samba. Originadas dos blocos e ranchos que animavam o carnaval de rua do Rio, elas iriam sair do morro e descer ao asfalto nos anos 30, ainda sob o olhar atento dos policiais, ansiosos por baixar o cassetete nos sambistas. Mangueira, Portela (ainda conhecida como Vai Como Pode) e Unidos da Tijuca surgiram nessa época, depois da pioneira Deixa Falar. Entre os fundadores havia bambas como Ismael Silva, Cartola, Carlos Cachaça e Paulo da Portela. A diferença entre o samba do morro, de Ismael e Cartola, e do asfalto - leia-se Praça Onze - de Pixinguinha e João da Baiana, acentuou-se. Em 1933, um grande sucesso de Caninha, ligado ao segundo grupo, escancarava o cisma: Samba de morro não é samba, é batucada. Mas era samba sim, claro. Dolente, intuitivo e essencialmente carioca, esse estilo afastou-se cada vez mais do modelo de partido-alto dos músicos da Praça Onze. Acabaria por se transformar no mais influente, ao ultrapassar as fronteiras do morro e contaminar artistas de classe média. Quando as ondas do rádio se expandiram e as vitrolas elétricas permitiram o aparecimento de cantores de voz mais suave, como Mário Reis, o samba viu nascer uma gama de intérpretes e compositores que iriam consolidar o estilo. O grande gênio dessa fase é Noel Rosa, letrista de primeira, autor de obras-primas como "Com que roupa", "Conversa de botequim" e "Feitio de oração". Noel, um rapaz bem-educado de Vila Isabel, era amigo de Cartola e, boêmio compulsivo, freqüentava os morros onde se respirava samba. Na outra linha evolutiva, a dos músicos profissionais, Ary Barroso criou o samba-exaltação, que tem como melhor exemplo "Aquarela do Brasil" - que correu mundo e fez tanto pela projeção do estilo no exterior quanto a mais estelar de nossas intérpretes, Carmen Miranda. Braguinha, Moreira da Silva, Lamartine Babo - autor dos belos hinos dos principais clubes de futebol do Rio - e Almirante, também radialista, são outros dos nomes importantes dos efervescentes anos 30. Na produção feita especialmente para animar o carnaval, a década foi dominada pelas marchinhas bem-humoradas, cantadas até hoje, como "Linda morena", "O teu cabelo não nega", "Mamãe eu quero", "Touradas em Madri", "Yes, nós temos bananas" e a música que virou o hino informal do Rio: "Cidade Maravilhosa". Com a profissionalização, foram-se tornando coisas do passado as brigas por direitos autorais. Mas vieram outras, motivadas por rixas pessoais. A mais famosa delas, registrada numa batalha de canções, algumas inesquecíveis, foi a que envolveu Noel e Wilson Batista, malandro talentoso. "Palpite infeliz", de Noel, lançada na voz de Aracy de Almeida, provocava: Eu já chamei você pra ver/ Você não viu porque não quis/ Quem é você que não sabe o que diz. Infelizmente, Batista derrapou no bom gosto em algumas respostas: Entre os feios/ Estás na primeira fila/ Eu te batizo Fantasma da Vila ("Frankstein da Vila"'), disparou, batendo na canela de Noel, que tivera o rosto deformado pelo fórceps ao nascer. Três anos antes de ser oficializado, em 1935, o desfile das escolas de samba tinha começado por iniciativa do jornalista Mário Filho, com organização do jornal "Mundo Sportivo" e outras publicações, como O GLOBO. O palco, claro, só podia ser a Praça Onze. O primeiro desfile foi vencido pela Mangueira. Já naquela época, a presença das baianas era obrigatória e as escolas não podiam utilizar instrumentos de sopro. A década de 40 seria a da consolidação do gênero. O samba-canção e o samba de breque, entre outros, viriam ampliar o horizonte estético da grande expressão musical brasileira. |