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a s c í c u l o 1 0 Menos do que um gênero, o choro surgiu como uma forma de tocar. Foi por volta de 1870, nas famosas reuniões musicais em casas de família, os pagodes (no sentido original). Como lembra o historiador de música José Ramos Tinhorão, até 1930 o Rio de Janeiro era uma cidade provinciana, onde as festas caseiras supriam a carência de diversão pública. Entre uma interpretação e outra, nasceu e se desenvolveu o que, em breve, era um novo estilo. O principal predecessor do choro foi o som dos barbeiros, escravos libertos que, na segunda metade do século XVIII, dedicavam-se a tocar de forma autodidata, com instrumentos considerados "bárbaros" pelos eruditos. Os barbeiros - que adotavam essa profissão para sustentar a paixão pela música - ouviam valsas e modinhas e as reproduziam à sua moda lânguida. Há diferentes explicações para o nome que batizou o novo gênero. Numa delas, aceita pelo folclorista Luís da Câmara Cascudo, a palavra choro seria uma adaptação de "xolo", festa dos escravos nas fazendas. Chegando à cidade, teria virado "xôro", para em seguida assumir a grafia atual. Tinhorão opta pela origem lacrimosa mesmo, inspirada pela melancolia do som. Outra versão é que a palavra viria de chorumeleiros, músicos do período colonial. Como ocorreu nos Estados Unidos com o jazz - primo em primeiro grau do choro - sob o guarda-chuva do gênero cabiam polcas, valsas, tangos e, a rigor, qualquer outro ritmo. Os primeiros nomes do gênero foram Calado Júnior, Luizinho Virgílio da Silveira e Viriato Figueira da Silva. Entre as obras dessa fase está a polca "Querida por todos", do flautista Calado, em homenagem a Chiquinha Gonzaga. Apesar de não ser propriamente uma "chorona", Chiquinha foi, ao lado de Ernesto Nazareth, o maior nome da música brasileira no período. Autora de polcas, valsas, tangos e modinhas, fez ainda, na virada do século, a marcha de carnaval "Ó abre alas", de grande sucesso. Ernesto Nazareth não ficou para trás. Começou com a polca "Você bem sabe", de 1877, e se consagrou com o tango "Brejeiro". Em 1921, compôs "Atlântico", um clássico do choro. O estilo contagiou a primeira-dama Nair de Teffé, que, em 1914, causou escândalo ao tocar ao violão o maxixe "Corta-jaca", de Chiquinha Gonzaga. A partir da década de 20, com a chegada do cinema e da música americana, os velhos chorões, segundo Tinhorão, meteram suas violas no saco. Fim da história? Não. Apenas uma nova fase. O choro se amoldava aos novos ritmos. Pixinguinha o aproximou da música erudita e do samba, numa brilhante fusão. Seu grupo, Oito Batutas, chegou a se apresentar com sucesso no exterior. Entre suas obras-primas, estão "Carinhoso", "Lamento" e "Rosa". Incorporando novos instrumentos, o choro viveu momentos de glória com Waldyr Azevedo (e seu cavaquinho) e Jacob do Bandolim. "Brasileirinho", de Waldyr, é um dos clássicos do gênero. |