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Não à academia, sim ao lirismo malcomportado e à busca de uma estética nacional

A maioria dos críticos concorda em ver a Semana de 22 como o ponto de convergência de inquietações que já estavam maduras em obras individuais. "Foram os modernistas a fazer a Semana de Arte Moderna e não a Semana de Arte Moderna a fazer o Modernismo", afirma o crítico literário Wilson Martins. De fato, quando os modernistas ocuparam o Teatro Municipal para apresentar à burguesia paulista o que de novo havia nas artes - provocando reações violentas na platéia - as manifestações isoladas de modernismo já eram flagrantes.

Em 1917, por exemplo, Anita Malfatti realizou sua primeira exposição de quadros influenciados pelo cubismo. Na literatura, Wilson Martins lembra que em 1919, com "Idéias de Jeca Tatu", Monteiro Lobato já antecipava a maior parte do ideário do movimento, com a afirmação de uma forte personalidade nacional. O crítico vai ainda mais longe, identificando num livro anterior do autor, "Urupês", de 1914, a primeira manifestação de uma estética modernista no país. A inclusão de Lobato entre os precursores da Semana é ainda mais curiosa quando se sabe que o escritor teve papel fundamental na agitação, mas por vias tortas e do outro lado da trincheira: uma violenta crítica sua à exposição de Anita Malfatti, sob o título "Paranóia ou mistificação?", levou a intelligentsia adepta das novas idéias a se aglutinar, solidária, em torno da artista, criando o núcleo do futuro movimento.

Com diferentes origens e tendências totalmente díspares, os modernistas eram coesos apenas na "unidade do contra", como definiu Sérgio Milliet, outro integrante do grupo. Não importa. O barulho que fizeram, como observou o crítico de arte Ronaldo Brito, "representou o primeiro esforço organizado para olhar o Brasil moderno. E, por isso, num certo sentido, também para construir o Brasil moderno".

A Semana constava de uma exposição de artes plásticas, com catálogo assinado por Di Cavalcanti, e de três espetáculos noturnos. Graça Aranha abriu a primeira noite com a conferência "A emoção estética na arte moderna". Seguiram-se Villa-Lobos, Menotti del Picchia e vários outros, com discursos, música e poesia incompreendidos pela platéia. Seria mesmo difícil compreender qualquer coisa: se mais tarde entraria na moda a postura não-entendi-mas-gostei - também ela um filhote do modernismo - o público da época não tinha pudor em demonstrar seu desapreço pelo que via. Os relatos descrevem uma platéia animalesca, que uivava, latia e grunhia. A carta de um leitor ao jornal "O Estado de S. Paulo" dá o tom das críticas: "São uns pândegos, filhos de famílias ricas que decidiram ser modernos porque não sabem rimar".

Sabiam, claro. Só não queriam mais fazê-lo. Bandeira pregava estar "farto do lirismo comedido/ do lirismo bem comportado/ do lirismo funcionário público". Mário de Andrade, que se iniciara nos versos como simbolista, sistematizou as diretrizes da renovação no livro "Paulicéia desvairada", publicado em 1922, tão famoso pelos poemas quanto pelo "Prefácio interessantíssimo", que acabaria por cumprir, mais do que os manifestos de Oswald, o papel de credo modernista. Um dos pontos: "Refoge à vulgaridade cheia de lazer da rima, inútil numa língua vibrante, vária e sonora como a nossa". Mário, um dos artistas mais coerentes do movimento, enveredou por um caminho único de pesquisa e criação, deixando obras emblemáticas como "Macunaíma" e estudos sobre folclore e música popular.

A Semana, se não inaugurou o modernismo, ficou como marco de um novo momento da arte brasileira, professadamente anti-acadêmico e anti-conservador. Eles eram riquinhos, sim, como dizia o leitor paulista, e tinham como mecenas um ricaço barão do café, Paulo Prado. Mas bagunçaram com a arte careta de São Paulo (na época, "uma pasmaceira, um horror...", na descrição de Yan de Almeida Prado, modernista de primeira hora) e de lá acenderam um farol que nortearia o resto do país. O Rio logo se incorporaria à nova tendência por meio de numerosas revistas - depois que "Klaxon" foi lançada em São Paulo, surgiriam no Rio "Estética" e "Festa". Em Minas, um importante foco pós-Semana, Carlos Drummond de Andrade editou em 1925 "A Revista". Depois que o movimento mostrou suas rachaduras, desembocando em vertentes tão distintas quanto o "Manifesto antropófago" de Oswald, que virou comunista, e o "verde-amarelismo" de Plínio Salgado, que virou fascista, restaram os percursos individuais - e o de Drummond seria um dos mais fulgurantes.


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