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a s c í c u l o 1 0 A Semana de Arte Moderna foi buscar Heitor Villa-Lobos (1887-1959) em casa. Literalmente. Àquela altura, ao contrário da maioria dos participantes do evento, o músico carioca já tinha uma obra consistente para apresentar: seu singelo e emblemático "Choro n 1", para violão, fora composto dois anos antes. Ocorria que, por seu nacionalismo, seu contato com músicos populares e sua aversão ao colonialismo cultural - o que não excluiria de sua obra influências dos grandes modernos, como Stravinsky e Debussy - Villa-Lobos era mais modernista que os modernistas. Aceitando imediatamente o convite, feito em outubro de 1921, Villa-Lobos preparou três noites de música no Teatro Municipal paulista para uma platéia em convulsão, sob gritos e vaias - até a faixa que envolvia seu pé, devido a uma infecção, foi vista como "loucura futurista". Faz sentido que, mais tarde, o maestro destacasse a importância do evento tanto quanto seu ego: "Não foi a Semana de Arte Moderna que me lançou. Eu já era revolucionário antes". A verdade é que Villa-Lobos não tinha o mesmo perfil dos novos nacionalistas. Estes eram impressionados com a cultura européia e formados por ela - ainda que trocassem Ingres por Picasso e Victor Hugo por Appolinaire. Villa-Lobos já era mais radical: batia o pé e evitava modelos importados a qualquer custo, insistindo num autodidatismo puro e desviando de qualquer formalidade acadêmica. Chegou a ingressar no Instituto Nacional de Música, mas abandonou-o. Extraía da música popular carioca a matéria-prima para seu som único. Cultivou o fascínio que desde menino exerciam sobre ele os chorões, com quem chegou a tocar, e que abrasileiravam a música vinda da Europa - polcas, mazurcas e valsas - pelo modo de interpretá-la. Filho de um pai culto, que fez tudo para lhe estimular o dom, Villa-Lobos começou a estudar violoncelo aos 6 anos. Mas o pai morreu cedo e, um tanto rebelde ao jugo da mãe, o jovem Heitor logo trocou o vetusto violoncelo por instrumentos de som mais popular: violão e piano. Dedicou-se então a viajar pelo Brasil, voltando cheio de motivos folclóricas, sertanejos e africanos. Essa formação informal seria a base do autor de "Uirapuru", "Amazonas", "Choros" e das célebres "Bachianas". Ao mesmo tempo instintivo e erudito, Villa-Lobos criou uma autêntica música nacional e conquistou o mundo, regendo orquestras nos Estados Unidos e na Europa. A fama internacional rendeu-lhe tributos como o cargo de professor honorário do Conservatório Internacional de Paris e o título de doutor honoris causa da Universidade de Nova York, entre quase cem honrarias. No balanço final, terminou incluído na lista dos grandes compositores da História. Como disse Manuel Bandeira, colega modernista, foi o gênio "mais autêntico que já tivemos, se é que tivemos outro". |