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a s c í c u l o 1 1 Essa longa história, de Rachel de Queirós a Guimarães Rosa, começou com as teorizações do sociólogo Gilberto Freyre no "Manifesto regionalista", no Congresso de Recife de 1926, e se materializou primeiro no romance "A bagaceira", de José Américo de Almeida, de 1928. O livro tem estilo mais euclidiano do que modernista, mas já trazia quase todo o leque de temas que os regionalistas adotariam dali por diante. Rachel de Queirós, uma estreante cearense de 20 anos, foi a primeira a seguir o caminho apontado por José Américo. Em 1930, lançou "O quinze" (sobre a terrível seca do ano-título), que fez sucesso imediato tanto pela temática quanto pela juventude da autora. Por fim, dois anos depois, surgiria aquele que Wilson Martins, em sua "História da inteligência brasileira", considera o livro definitivo para a cristalização da sensibilidade dos anos 30 e do fenômeno regionalista: "Menino de engenho", de José Lins do Rego, mistura de memória com romance, de tom saudosista em sua prosa descuidada, mas sempre espontânea. Depois, o autor amadureceria bastante até desembocar no livro que é considerado sua síntese, "Fogo morto", de 1943. Assim como há no Brasil diversas regiões, há também diversos regionalismos. Aos engenhos de açúcar decadentes do Pernambuco de José Lins, com seus coronéis, sinhozinhos e beatos, Jorge Amado contrapôs, em 1931, com "O país do carnaval", o cenário baiano de pescadores, plantações de cacau e meninos de rua de Salvador. Militante comunista, de estilo mais político que o de seus contemporâneos, Amado se tornaria o escritor brasileiro mais conhecido no mundo (até surgir, no fim do século, o fenômeno Paulo Coelho) - menos pela política do que pelo colorido picante de obras posteriores, como "Gabriela, cravo e canela" (1958). Outro militante de carteirinha, Graciliano Ramos, o primeiro dos quinze filhos de uma família camponesa de Alagoas, contribuiria para essa diversidade estilística com a obra de maior rigor formal da década e uma das mais rigorosas da literatura brasileira - e, ao contrário do estilo de seu colega de partido, sem o menor sinal de panfletarismo. Estreou com "Caetés", em 1933, e em 1938 lançou a obra-prima "Vidas secas". Graciliano é seco como o sertão de seus livros - uma espécie de anti-José Lins em sua recusa de qualquer concessão ao sentimentalismo. José Américo, Rachel, José Lins, Jorge, Graciliano e outros menos votados transformaram o regionalismo na principal corrente literária brasileira, com uma produção tão caudalosa quanto bem recebida pelo público. O duro sertão, com seus sofridos retirantes e coronéis truculentos, tornou-se moeda tão corrente e criou uma tradição tão inescapável que, em pouco tempo, naufragava num mar de clichês. Mas foi exatamente desse miasma que surgiu a maior revolução de um homem só da literatura brasileira em todos os tempos: João Guimarães Rosa. Mineiro de Cordisburgo, nascido em 1908, Guimarães Rosa foi médico em Itaguara, também no interior de Minas, antes de se tornar diplomata e correr o mundo: França, Alemanha, Itália, Portugal. As andanças nunca lhe cortaram as raízes. Pelo contrário, ele fez questão de cultivá-las, em renovadas incursões em lombo de burro pelas regiões mais áridas de seu estado. Guimarães Rosa inspirou-se em sertanejos que conheceu, com seu modo peculiar de falar, e nos causos que ouviu para reinventar literariamente a língua "brasileira" num grau de radicalismo, rigor e sofisticação que talvez só encontre paralelo no que o irlandês James Joyce fez com o inglês. Nesse sentido, Rosa diferencia-se inteiramente de seus predecessores regionalistas: chamado por Graciliano, que o admirava, de antimodernista, se encaixa melhor no ambiente da chamada Geração de 45 - a mesma do poeta João Cabral de Melo Neto - que trocou a ênfase nos processos sociais pela elaboração exaustiva da linguagem, num plano de certa autonomia da forma. A rigor, porém, Guimarães Rosa não pertence a escola alguma, nem criou a sua própria - embora tenha tido um sem-número de imitadores. Estreou em 1946 com o livro de contos "Sagarana", que fora curiosamente rejeitado num concurso literário promovido pela editora José Olympio, anos antes. No júri do concurso estava Graciliano Ramos, que votou contra "Sagarana" mas, depois da publicação, fez um célebre mea culpa num artigo de revista. Falando anos depois sobre o livro, Rosa enunciou o que bem pode ser considerado sua profissão de fé: "Chocar, ‘estranhar’ o leitor, não deixar que ele repouse na bengala dos lugares-comuns, das expressões domesticadas e acostumadas; obrigá-lo a sentir a frase meio exótica, uma ‘novidade’ nas palavras, na sintaxe". Tudo o que, dez anos após a estréia, faria de seu único romance, "Grande sertão: veredas" - a história do chefe jagunço Riobaldo e seu amor pelo(a) colega Diadorim - um livro monumental, a um tempo clássico e revolucionário, moderno e eterno. Rosa morreu em 1967, aos 59 anos, três dias depois de tomar posse na Academia Brasileira de Letras. |