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Nem só de regionalismo viveram os 30 e 40

Enquanto uma geração de escritores nordestinos inaugurava a segunda fase do modernismo - contrapondo, ao cosmopolitismo e experimentalismo de Oswald, Mário, Bandeira e companhia, um forte tom regionalista - a explosão das letras nacionais se dava em muitas outras direções, não apenas na prosa (o que levaria o crítico Alfredo Bosi a chamar os anos 30 e 40 de "a era do romance brasileiro") como na poesia. Esta veria surgir, entre outras vozes importantes e intensamente pessoais, como Murilo Mendes, Jorge de Lima e Cecília Meireles, aquele que é reconhecido como o maior poeta de nossa história: Carlos Drummond de Andrade.

Na prosa urbana, o nome mais importante é o do gaúcho Erico Verissimo, um colega exato de geração dos regionalistas: estreou com uma coletânea de contos, "Fantoches", em 1932, e no romance dois anos depois, com "Clarissa". Voltado para os costumes da classe média, pouco teria em comum com os nordestinos, não fosse por dois detalhes: tornou-se autor de popularidade avassaladora no Brasil e bem traduzido no exterior, o que aproxima sua carreira da de Jorge Amado, e nos anos 40 deu uma guinada em sua temática para pagar um tributo à literatura regionalista e produzir os três volumes da saga "O tempo e o vento", sobre a colonização do Rio Grande do Sul.

Menos bem-sucedidas artisticamente foram as tentativas, ocorridas sobretudo em São Paulo, de se escrever um "romance proletário" destinado a fomentar a revolução às custas de sacrificar a literatura. Nesse crime de lesa-arte incorreram Patrícia Galvão, a Pagu, e seu mentor Oswald de Andrade.

Mas se o compromisso social dos anos 30 elegeu a prosa como seu meio de expressão por excelência, como afirma Wilson Martins, a poesia não perdeu o bonde da história. Pelo contrário: poucas épocas terão visto surgir vozes tão expressivas. Entre os títulos do gênero publicados no ano-marco de 1930 estavam os livros de estréia de dois poetas fundamentais: Carlos Drummond de Andrade, com "Alguma poesia", e Murilo Mendes, com "Poemas".

Drummond praticamente dispensa apresentações. É o único autor brasileiro a figurar no "Cânone ocidental" de Harold Bloom, em que o crítico americano lista os escritores fundamentais do século XX - o que, por mais questionável que seja a própria idéia de cânone e por mais que se possa deplorar a ausência de Guimarães Rosa da relação, faz justiça ao mineiro de Itabira. Trafegando por diversas fases e estilos, do social ao erótico, do metalingüístico ao metafísico, Drummond tem como marca imutável o absoluto domínio da língua, posto a serviço de uma visão de mundo em que se mesclam pessimismo, compaixão e humor.

Murilo Mendes, o poeta brasileiro que absorveu com mais personalidade a herança do surrealismo, e Jorge de Lima, que evoluiu de um início à sombra do parnasianismo para uma poesia de cunho popular e regionalista, iriam se encontrar em seguida na temática cristã que suas obras, mais e mais, incorporariam. Outra que estreou parnasiana foi Cecília Meireles, com os poemas juvenis de "Espectros" (1919). Daí, evoluiu para um misto de modernismo com simbolismo até realizar sua obra-prima, "Romanceiro da Inconfidência" (1953).


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