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Gênero não sobreviveria à chegada da TV

A quela que é considerada a primeira "revista de ano" brasileira estreou em 1859. Chamava-se "As surpresas do senhor José da Piedade", de Figueiredo Novaes. Ficou apenas três dias em cartaz. Coube a Artur Azevedo tornar-se o principal nome da comédia de costumes na segunda metade do século passado. "O Rio de Janeiro de 1877", que escreveu com Lino de Assunção, e "O mandarim", de 1884, são marcos - que lhe valeram críticas dos que cobravam, de alguém do seu talento, trabalhos mais sérios. "Não fiz mais do que plantar e colher os únicos frutos de que era suscetível o terreno que encontrei preparado", justificou-se o dramaturgo.

A defesa de Azevedo é citada pelo jornalista Sérgio Augusto em seu livro "Este mundo é um pandeiro", sobre as chanchadas da Atlântida, das quais a revista foi a matriz estética (texto adiante). Negando que o gênero fosse frívolo, o pesquisador lembra seu caráter de arena (leve) de debates (pesados): "Abordou-se a revolta da Armada contra o presidente Floriano (em ‘Aquidabã’, de A. Pacheco, 1895), a sedição de Canudos (‘O jagunço’, de Artur Azevedo, 1898), os estertores da República Velha, as trampolinagens da República Nova, a Segunda Guerra Mundial e quase todo o périplo político de Vargas".

Nesse processo, a revista foi caminhando no sentido de uma crescente popularidade, com ingressos a preços cada vez mais baixos e uma ligação indissociável - em que os dois lados saíram lucrando - com nossa melhor música popular. Até o compositor Heitor Villa-Lobos chegou a tocar violoncelo para acompanhar dançarinos no Teatro São José. Na década de 10 do século XX, nos teatros da Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro, a revista já exibia a feição mais brejeira que a tornaria consagrada. A peça "Forrobodó", de 1912, musicada por Chiquinha Gonzaga, é considerada pela pesquisadora Neyde Veneziano um marco da linguagem popular brasileira no teatro. As casas de espetáculo começaram a se espalhar por todo o país.

A revista era chamada "de ano" por satirizar os principais acontecimentos do ano anterior, não só políticos como mundanos. Tinha sua galeria de personagens-clichês, como o malandro, o caipira, o português e a mulata - no início representada por brancas pintadas e, mais tarde, por "autênticas", como Otília Amorim e Araci Cortes.

Veio a época das estrelas. Oscarito, Grande Otelo, a dupla Jararaca & Ratinho, Colé, Ankito e Dercy Gonçalves, que era cantora antes de virar comediante, tornaram-se grandes chamarizes de público na Praça Tiradentes. O glamour era garantido por vedetes como Virgínia Lane, Mara Rúbia, Brigitte Blair, Carmen Verônica, Renata Fronzi, Dercy Gonçalves, Wanda Moreno (a primeira vedete mulata) e Wilza Carla, com seus 54 quilos - um terço do que viria a exibir décadas mais tarde.

Os anos 40 foram os das superproduções. O produtor Walter Pinto introduziu o luxo em "É disso que eu gosto", baseada na música cantada por Carmen Miranda. Foi nesse período que a infra-estrutura suplantou de vez a ingenuidade e a improvisação: luzes, escadarias, plumas e vedetes famosas tornaram-se itens obrigatórios. Carlos Machado, que chegava a trazer artistas estrangeiros para suas produções, radicalizou essa linha.

Era o auge. Logo viria a decadência. A revista sobreviveu aos trancos e barrancos até o início da década de 60. Foi assassinada pela televisão e pela censura dos governantes militares, nem de longe bem-humorados como Getúlio Vargas. Nos estertores, beldades sem o carisma das antigas vedetes rebolavam diante de gatos pingados. A pornografia tomou o lugar do humor. Travestis começaram a substituir mulheres nos números emplumados. Pano rápido.


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