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a s c í c u l o 1 2 Com a comercialização das rádios, o público deixou de ser "sua senhoria" - passou a ser o "amigo ouvinte", elemento imprescindível a todo aquele espetáculo, "teatro dos pobres dos grandes centros urbanos", nas palavras do crítico musical José Ramos Tinhorão. Era, em grande parte, um público de baixa escolaridade, sem acesso à imprensa escrita, que se viu subitamente incorporado ao mercado. No caso da Rádio Nacional, isso ganharia as dimensões de um explosivo fenômeno de comunicação. Antes mesmo de entrar no ar, em 12 de setembro de 1936, a Nacional, propriedade do mesmo grupo que editava o vespertino "A Noite", era anunciada em campanha publicitária como a "mais poderosa e completa organização de broadcasting". Não era bravata. Da primeira emissão do prefixo famoso - "PRE-8, Rádio Nacional do Rio de Janeiro" - até o prestígio de ser "a estação das multidões", foi um passo. Ainda nos anos 30, bateu a líder de audiência no Rio, Rádio Mayrink Veiga. Para isso contribuiu a sua encampação pelo governo getulista, na onda de nacionalizações do Estado Novo. A Nacional, parte de um conglomerado estrangeiro, foi incorporada ao patrimônio da União. O dinheiro injetado na emissora propiciou aumentos de salários e novas contratações. Embora algumas entrassem na categoria de cabide, como a do "clarinetista" Gregório Fortunato, chefe de segurança do presidente, deu-se um salto de qualidade. No seu auge, nos anos 50, a Nacional chegou a ter mais de 50% da preferência do público, que formava filas de madrugada, em frente à sua sede, na Praça Mauá, para assistir a programas como o de César de Alencar. O programa, que estreou em 1945, ia ao ar no sábado à tarde e era uma coqueluche. Quando comemorou dez anos de transmissão, em 1955, 20 mil fãs encheram o Maracanãzinho para cantar parabéns. Nos primeiros anos da década de 40, a Nacional havia feito uma reforma em seus estúdios: passou a ter um auditório de mais de 600 lugares, onde era certo haver sempre mais de mil pessoas disputando uma vaga (texto adiante). Iam em busca de ídolos, ou "cartazes", como se dizia: Marlene, Emilinha Borba, Ângela Maria, Carlos Galhardo, Cauby Peixoto, elite de um elenco contratado que, no auge da rádio, tinha 52 cantores, 44 cantoras, 15 maestros e 124 músicos. Fora locutores (33), atores e atrizes (94), e uma legião de produtores, jornalistas e outros funcionários. Essa equipe produzia uma programação variada. Só de radionovelas, a Nacional chegou a ter 14 ao mesmo tempo, entre elas o dramalhão "O direito de nascer" - caso pioneiro de histeria coletiva radiofônica. O jornalismo também era uma referência, com o "Repórter Esso" na voz de Heron Domingues. E havia ainda os programas de calouros, que o apresentador Celso Guimarães criara em São Paulo, na Rádio Cruzeiro do Sul, e cuja fórmula era repetida à exaustão. Na Nacional, Renato Murce tinha o "Papel carbono"; Heber Bôscoli, "A hora do pato"; e o próprio Celso, "Em busca de talentos". Grandes nomes foram revelados assim: Ângela Maria, Cauby Peixoto, Jamelão, Luís Gonzaga, Dóris Monteiro e Baden Powell, entre outros, destacaram-se nessas competições. Atores como Mário Lago, Paulo Gracindo, Brandão Filho, Elza Gomes e Iara Amaral também se tornaram populares nos estúdios das rádios. A afirmativa vale ainda para redatores do calibre de Max Nunes e Haroldo Barbosa e maestros como Leo Peracchi, Radamés Gnatalli e Francisco Mignone. "Todo mundo que foi alguém artisticamente nesse país, antes dos anos 60, obrigatoriamente passou pela Nacional", disse Lourival Marques, produtor da rádio, nos anos 70. Estava exagerando? Talvez, mas não muito. Mais do que reveladora de talentos, a Rádio Nacional foi, muito antes da televisão, o primeiro fenômeno de comunicação de massa a atingir boa parte de um país de dimensões continentais. Para isso contribuía o fato de o Rio de Janeiro, ainda capital federal, exercer sobre as mais remotas regiões um grande fascínio. "O povo brasileiro falava a língua da Nacional", dizia o cronista Rubem Braga. A espetacular participação nos concursos e sorteios promovidos nos diversos programas comprova o longo alcance da rádio. Quando "No mundo da bola" instituiu um concurso, nos anos 40, para indicar o melhor jogador de futebol do Brasil, nada menos que 19.105.856 envelopes do analgésico Melhoral (o patrocinador do programa) foram enviados de todo o país. Ademir, do Vasco, foi o vencedor, com mais de 5,3 milhões de votos. Essa imensa participação popular chegava, em alguns casos, às mais puras manifestações de catarse, como no embate entre as cantoras Emilinha e Marlene - "o Fla x Flu dos que não gostam de futebol", na definição do jornalista Mário Filho. Durou até que, nos anos 60, esse mesmo público encontrou outros canais por onde escoar suas emoções: os canais de TV. A época de ouro do rádio tinha passado. |