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a s c í c u l o 1 2 A Rádio Nacional era uma fábrica de ídolos populares que entravam nas salas de donas-de-casa de subúrbio, operárias e empregadas domésticas com suas canções e promessas de romantismo. O público que colava o ouvido no rádio era, em sua maioria, composto de mulheres pobres, de baixo nível educacional e sem perspectivas de ascensão social. A idolatria veio naturalmente. Moças fantasiosas viam em Emilinha e Marlene seus ideais femininos, enquanto flertavam secretamente com galãs como Cauby Peixoto. Num Brasil americanizado, o português colou do inglês a palavra "fanatic" e sua abreviação,"fan", que, aportuguesada, virou "fã". As fãs do rádio - também chamadas de "fanzocas" e, maldosamente, de "macacas de auditório" - multiplicaram-se em fãs-clubes, um dos mais curiosos fenômenos da história da comunicação de massa no Brasil. Elas eram milhares - e histéricas. A partir da década de 40, fãs dividiram suas predileções em fãs-clubes organizados, destinados a idolatrar os grandes nomes do rádio, promovê-los, arrumar sua correspondência, passar informações à imprensa, presenteá-los, adorá-los como fiéis. A Rádio Nacional manteve um esquema perverso de estímulo ao fanatismo, pagando por desmaios e gritinhos agudos nos auditórios. A histeria coletiva ampliava a popularidade de nomes como Emilinha, Marlene, Ângela Maria e Cauby Peixoto, ídolos dos maiores fã-clubes da época - e vítimas da face perversa de tanta adoração. Os bastidores dos programas de auditório tornaram-se palcos de batalhas. Marlene chegou a ser ameaçada por fãs de Emilinha, que brandiam pedaços de pau com giletes amarradas nas pontas, e levou uma joelhada na barriga, em plena gravidez. Mas os artistas também tomavam parte nesse circo. Cauby Peixoto costumava usar paletós apenas alinhavados, para que as fãs pudessem rasgá-los mais facilmente. A Rádio Nacional foi uma precursora da TV Globo em poder e alcance, com a diferença de ter pontificado numa época mais ingênua e despreparada para o culto dos ídolos. A reboque dos cultos vieram publicações especializadas em devassar suas vidas, desejos, intimidades. Revistas como "A Voz do Rádio", "Carioca", "Cinelândia Alô", "Revista do Rádio" e "Radiolândia" misturavam perfis dos ídolos com fofocas e invasões de privacidade. Marlene, Emilinha e Ângela Maria chegaram a ser capa de revista mais de 50 vezes (cada uma). Lá se noticiavam também os excessos das fãs, o que levou a "Revista do Rádio" a promover uma campanha pacifista. As mistificações chegaram a tal ponto que houve fãs aparecendo "grávidas" de cantores e radioatores. A situação, tão patética quanto grave, levou o jurista Roberto Lira, diretor do Instituto de Criminologia do Distrito Federal, a diagnosticar a "doença do rádio". Era um alerta à adoração cega, que certamente não foi assimilado pelas fanzocas. O "mal" dos fãs-clubes só terminou no fim dos anos 50, quando os programas de auditório começaram a perder popularidade. |