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Elite sai de cena. Nasce o país do futebol

Do tempo em que se torciam lenços para manifestar o apoio ao time - daí a expressão torcer - à formação das torcidas organizadas, o futebol foi de um extremo ao outro do arco social. Definir o momento exato em que se tornou o único esporte nacional - apesar dos surtos de popularidade de outros, como vôlei e automobilismo - é tarefa impossível. O certo é que, em seus primórdios, nada tinha de popular.

No final do século XIX, quando chegou ao Brasil, era praticado por moços ricos, filhos de ingleses, suíços e alemães. Um deles, Charles Miller, foi quem trouxe da Inglaterra, em 1894, o primeiro par de bolas de futebol. "Aquele jogo inglês esquisito", como diziam os jornais da época, disputado em campos de cricket, gerou uma polêmica de muitos anos entre os escritores Lima Barreto e Coelho Neto. Mulato e pobre, Lima Barreto combatia o esporte aristocrático. O acadêmico Coelho Neto, sócio do Fluminense, o defendia. Lima Barreto chamava os jogadores de "marmanjos que, à falta de outras habilidades superiores para atrair a atenção das damas, se põem por aí seminus a dar pontapés numa bola, a esmurrarem-se e a soltar palavrões".

Na primeira década do século os pobres podiam, no máximo, espiar os jogos por cima do muro. Negros nos times, nem pensar. O lendário Carlos Alberto - que teria jogado no Fluminense coberto de pó-de-arroz para parecer branco - é um símbolo desse período. Mas jogar futebol era fácil: bastava um campinho ou, na ausência dele, um pedaço de rua fechado ao trânsito, e uma bola de couro ou, na ausência dela, um emaranhado de meias. Não havia como impedir os pobres de praticá-lo. Não por acaso, o primeiro grande craque brasileiro era um mulato de olhos verdes, o paulista Artur Friedenreich, "El Tigre". Segundo as estatísticas pouco confiáveis da época, os anos 20, teria marcado mais gols do que Pelé.

A década de 1930, que abriu com a disputa da primeira Copa do Mundo, no Uruguai, marcou o início da profissionalização do futebol brasileiro e o aparecimento de craques de prestígio internacional, como Fausto, a Maravilha Negra, Leônidas da Silva, o Diamante Negro, e Ademir Menezes, o Queixada. Os franceses começaram a dizer que seríamos os reis do futebol. Mas aí veio a Copa do Mundo organizada no Brasil, em 1950, e a final contra o Uruguai, num Maracanã cheio de cega confiança, em clima de comemoração antecipada: Uruguai 2 x 1 Brasil. Houve choro em todo o país, algumas pessoas se mataram. Jamais seríamos reis.

Em 1958, porém, fomos. A seleção brasileira goleou adversário atrás de adversário na Suécia - inclusive, na final, os donos da casa - para conquistar finalmente a Copa do Mundo. O time tinha monstros como Nilton Santos, a Enciclopédia do Futebol, e Didi, o Gênio da Folha Seca, mas tinha principalmente um garoto de 17 anos chamado Pelé e o inacreditável Garrincha, com suas pernas tortas e seu drible sempre para o mesmo lado - os dois maiores jogadores brasileiros de todos os tempos (texto adiante). Era o fim de nosso "complexo de vira-latas", outra expressão de Nelson Rodrigues.

Em 1962, no Chile, sem Pelé, que se contundiu na segunda partida, Garrincha garantiu o bicampeonato praticamente sozinho. Em 1970, sem Garrincha, de carreira encerrada, Pelé teve o auxílio de uma nova geração de craques - Gérson, Tostão, Rivelino, Jairzinho - para conquistar o tricampeonato e a posse da Jules Rimet. Posse definitiva? Bem, durou até a taça ser roubada da sede da Confederação, desaparecendo para sempre.

O longo jejum de títulos, de 1974 a 1990, já não tinha como trazer de volta o complexo de vira-latas. Quando o genial Romário ajudou uma seleção defensiva e tecnicamente limitada a conquistar a Copa do Mundo pela quarta vez, em 1994, nos Estados Unidos, o Brasil já era há muito tempo reconhecido pelos fãs do esporte no mundo inteiro como o "país do futebol" - o time a ser superado. Nossa auto-imagem se transformara radicalmente desde aquele ultimato de Nelson.


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