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Uma revolução silenciosa que incomodou os puristas

Desde a explosão de malícia do samba dos anos 30, com Noel Rosa e Lamartine Babo à frente, a música brasileira mudara muito. Fazia anos que vivia na fossa (como se dizia na época), chorando abandonos e traições ao som de boleros e sambas-canções - uma fase dominada por compositores como Lupicínio Rodrigues e Dolores Duran e intérpretes como Maysa e Agostinho dos Santos. Curiosamente, essa fase sombria serviu de laboratório para a ensolarada bossa nova. A gravação de "Copacabana", em 1946, com arranjo de Radamés Gnatalli, na voz de travesseiro de Dick Farney, e os trabalhos de Johnny Alf e da dupla Tom/Billy Blanco já traziam elementos do que viria.

Foi por volta de 1956, quando um grupo de jovens passou a se reunir nos apartamentos de Nara Leão e Bené Nunes, que o novo estilo começou a ser fabricado. A expressão bossa nova significava, na gíria da época, talento especial. Entre os participantes dos encontros estava Tom, pianista da noite que começava a ganhar notoriedade: já em 1956 suas canções eram aplaudidas na peça "Orfeu da Conceição", de Vinicius de Moraes. Havia escrito também uma "Sinfonia do Rio de Janeiro", em 1954, e tinha um disco com Billy Blanco, entre outras parcerias esparsas.

Com um trabalho refinado - depois dele, a nova geração se viu obrigada a estudar harmonia a fundo - Tom se tornou o mais importante compositor da bossa nova. Duas de suas canções são a própria síntese do estilo: "Samba de uma nota só" e "Desafinado", ambas em casamento perfeito com Newton Mendonça. Os versos da primeira - Eis aqui esse sambinha/ Feito de uma nota só/ Outras notas vão entrar/ Mas a base é uma só - mostram que a simplicidade pode, sim, ser sinônimo de muita elaboração. A parceria com Mendonça seria interrompida com a morte deste, de enfarte, aos 33 anos, em 1960. E o diplomata Vinicius de Moraes, mais velho do que aquela turma e já consagrado como poeta, teria caminho livre para se tornar o principal parceiro de Tom numa longa lista de clássicos.

Nas canções do novo estilo, a temática urbana e existencialista não trazia a carga dramática da dor de cotovelo da geração anterior. Falava-se de fossa, mas de forma mais leve. A estréia oficial do estilo aconteceu em abril de 1958, com o LP "Canção do amor demais", de Elizeth Cardoso, no qual João Gilberto comparecia com sua nova batida em duas faixas. Mas o canto de Elizeth tinha a dramaticidade da velha escola. O jeito bossa nova de cantar baixinho, escandindo as sílabas em contraponto à base rítmica, surgiu logo depois, em 1959, quando João estreou em disco de 78 rotações: de um lado, "Chega de saudade", de Tom e Vinicius de Moraes; do outro, "Bim bom", dele mesmo.

Coube a Tom apresentar o "baiano bossa nova" no texto da contracapa de "Chega de saudade": "Em pouquíssimo tempo influenciou toda uma geração de arranjadores, guitarristas, músicos e cantores". Descoberto pela turma de Nara quando improvisava acordes ao violão na Boate Plaza, João acabara virando o grande guru do grupo.

Do banquinho onde ele batucava seu violão para o mundo, a bossa nova causou polêmica. Ao mesmo tempo que encantava com seu estilo sofisticado, era criticada por ser elitista, deslocada das "raízes" brasileiras e filha do jazz americano. Havia, sobretudo, uma estranheza em relação ao tom: sua explosão foi, segundo o maestro Júlio Medaglia, um grito silencioso, uma revolução via introspecção. "Ao contrário do Tropicalismo e de tantos outros movimentos marcantes de nossa época, que se manifestaram com estardalhaço, a bossa nova ao se expandir foi causando um inusitado incômodo, em conseqüência da forma concisa e delicada de sua linguagem", observou ele.

O show do Carnegie Hall, em Nova York, em 1962, apresentou oficialmente a bossa nova ao pessoal do jazz. "Garota de Ipanema", outra parceria de Tom e Vinicius, traduzida para "The girl from Ipanema", tornou-se uma das canções mais executadas do mundo em todos os tempos. João Gilberto e depois Tom Jobim passaram a trabalhar mais nos Estados Unidos do que no Brasil, atraídos pela acolhida do mercado e por uma qualidade técnica de gravação que não encontravam aqui. Os dois receberam o Grammy, o prêmio máximo da música americana; Tom gravou com Frank Sinatra, João, com Stan Getz. O cool jazz inventado em 1950 por Miles Davies ganhava novo fôlego com a contribuição brasileira, mas, em plena Guerra Fria, muita gente via essa promiscuidade com os ianques como "entreguismo".

Bobagem, claro. Essa discussão ficou datada, ao contrário de uma outra, eterna, que tenta identificar os "pais" da bossa. Além de João e Tom, há quem inclua Johnny Alf no pacote. Pouco importa. O certo é que nomes como João Donato, Carlos Lyra, Tamba Trio, Nara Leão, Ronaldo Bôscoli e Roberto Menescal, se não foram pais, foram tios. E em todos os novos caminhos da música brasileira, nos anos 60 e 70, seria possível identificar algum tipo de parentesco com a bossa nova.


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