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a s c í c u l o 1 4 Foi nos festivais que a força criativa dos novos compositores encontrou sua cara-metade: um público apaixonadamente fiel, que os acompanharia por décadas. A TV Excelsior saiu na frente, em 1965, com o 1 Festival da MPB - aquele em que Elis Regina seria consagrada com "Arrastão", de Edu Lobo, ganhando o apelido de Elis-cóptero por conta do ímpeto com que girava os braços. As TVs Tupi, Globo - com o Festival Internacional da Canção (FIC) - e, principalmente, Record seguiram o exemplo. A televisão se firmava como veículo de massa. Programas como "O fino da bossa", com Elis e Jair Rodrigues, e "Jovem Guarda", comandado por Roberto Carlos, passaram a proporcionar à televisão uma relação lucrativa com a música. Não era uma época fácil para os artistas. De um lado havia a censura oficial, radicalizada em 1968, quando o Ato Institucional n 5 inaugurou a fase mais dura do regime militar (texto ao lado); do outro, a cobrança de um público politizado, num contexto em que ser combativo era obrigação. À falta de outros canais de participação, a música herdou o papel de arena onde a jovem classe média urbana discutia o futuro da nação. Ao mesmo tempo, a juventude do Primeiro Mundo enveredava por outras contestações, em que se misturavam aspectos políticos e comportamentais, o que também tinha influência por aqui. Maio de 68 em Paris, hippies na Califórnia, guerrilheiros urbanos no Rio - a música refletia tudo isso. Nesse ambiente, a metáfora era uma boa arma para driblar a censura oficial, mas nem sempre compreendida pelo público. "Gotham City", de Capinam e Jards Macalé, foi vaiada no FIC de 1969, apesar da sugestiva letra: "Atenção, há um morcego na porta principal". Nesse clima, poucos perdoaram o lirismo de "Sabiá", canção de Tom Jobim e Chico Buarque que ficou com o primeiro lugar no FIC de 1968, na voz de Cynara e Cybele. A música lamentava o exílio, mas talvez fosse metafórica demais para aqueles tempos bicudos. E concorria com "Pra não dizer que não falei de flores", hino antimilitarista de Geraldo Vandré, que caiu no gosto do público. O clima vinha esquentando. Em 1967, vaiado, Sérgio Ricardo quebrou seu violão e jogou os pedaços na platéia. No ano seguinte, Caetano Veloso foi vaiado ao apresentar "É proibido proibir", inspirada no movimento de maio dos estudantes franceses. "Então esta é a juventude que diz que quer tomar o poder? Vocês não estão entendendo nada!", discursou o baiano, um dos nomes de frente da turma que, defendendo uma maior abertura estética e comportamental - que incluísse o uso de guitarras elétricas, por exemplo, e a audição sem preconceito da "alienada" Jovem Guarda - bateu de frente com os nacionalistas radicais (texto adiante). Após a explosão do Tropicalismo, em 1968, Caetano e Gil foram presos e se exilaram em Londres. Geraldo Vandré, muito torturado, sumiu de cena. Chico Buarque não esperou pelo pior: partiu para o auto-exílio. Tratou-se, segundo o crítico Tárik de Souza, de um corte na linha evolutiva da música brasileira - expressão cara aos tropicalistas - que vinha desde Mário Reis e Orlando Silva. Terminara a explosão dos anos 60, mas, numa chave menos política, a diversidade continuaria marcando a MPB na década seguinte: do soul de Tim Maia ao samba de João Bosco, do regionalismo eletrificado de Alceu Valença ao folk mineiro do Clube da Esquina, a música seguiria sendo o mais forte meio de expressão de um país dotado de "um ouvido musical que não é normal" - palavras de Caetano. |