|
|
|
F
a s c í c u l o 1 4 A diversidade da música popular brasileira estava longe de significar convivência pacífica. De um lado havia os politizados universitários que compunham a maioria do público dos festivais da canção, com seus cabelos curtos e sua estética banquinho-e-violão herdada da bossa nova. Do outro, os adeptos da Jovem Guarda, movimento que incorporava sem maior espírito crítico os ritmos, instrumentos e figurinos da canção pop internacional - seu iê-iê-iê vinha do refrão "yeah, yeah, yeah" da canção "She loves you", dos Beatles. Em meio à disputa, propondo uma síntese, surgiu o Tropicalismo com sua antropofagia inspirada no modernismo de Oswald de Andrade. Segundo esse grupo, liderado por Caetano Veloso e Gilberto Gil, a tradição da música brasileira podia - e devia - ser misturada a todas as influências internacionais, numa autêntica "geléia geral", a fim de produzir algo de esteticamente novo. A disputa entre as duas primeiras correntes, estimulada por gravadoras e programas de TV, foi simbolizada numa polêmica um tanto canhestra: devia-se ou não usar guitarra elétrica no Brasil? A história ficou tão séria que, em 1966, a nacionalista "turma da bossa" chegou a fazer uma passeata em São Paulo contra o instrumento. A manifestação, da qual até Gilberto Gil participou, foi organizada pelos produtores do programa "O fino da bossa", apresentado por Elis Regina e Jair Rodrigues. Enquanto isso, alheio a essa e outras passeatas, o novo ídolo Roberto Carlos continuava faturando. Apresentado ao vivo em São Paulo pela TV Record (e retransmitido para Rio, Belo Horizonte, Porto Alegre e Recife), o programa "Jovem Guarda" alcançava, só em São Paulo, perto de três milhões de espectadores. Era decididamente um produto de massa. A operação de marketing incluía a venda de camisas, chapéus, chaveiros, sapatos e cintos para a "geração papo-firme". Essa popularidade não se limitava ao Brasil. Em 1966, "O calhambeque", de Roberto e Erasmo, foi o segundo disco mais vendido em Paris. O Tropicalismo foi uma tentativa inteligente de dar profundidade a esse debate raso. Mas não era fácil. Em 1967, a apresentação de "Alegria, alegria", de Caetano Veloso, no 3.º Festival da TV Record, causou espécie apenas porque ele se fazia acompanhar das guitarras do grupo Beat Boys. Repercussão parecida teve "Domingo no parque", de Gilberto Gil, com os Mutantes, no mesmo festival. Rita Lee e os irmãos Arnaldo e Sérgio Baptista - que a princípio só queriam tocar rock, de preferência cantando em inglês - tinham se aproximado dos tropicalistas por meio de sua amizade com Gilberto Gil. O Tropicalismo terminou sendo o melhor reflexo made in Brasil do ambiente internacional de contestação da cultura dominante nos seus diversos planos, desde o político até o sexual - a contracultura. Suas entrevistas eram manifestos, as roupas eram estudadamente espalhafatosas, o apresentador de TV Chacrinha virou uma espécie de ídolo e precursor. O movimento teve desdobramentos nas artes plásticas (Hélio Oiticica) e no teatro ("O rei da vela", de Oswald, e "Roda viva", de Chico Buarque, dirigidas por José Celso Martinez Correa). Curiosamente, essas propostas anárquicas incomodaram mais o regime do que as letras politizadas de muitos garotos de camisa social. Caetano e Gil foram para a cadeia e o exílio. |