F a s c í c u l o   1 4
Globo: do improviso à superprodução

A história da telenovela começa em julho de 1963, com a estréia de "2-5499 ocupado", o primeiro folhetim diário da televisão brasileira, na TV Excelsior. Glória Menezes e Tarcísio Meira estrelavam os encontros e desencontros amorosos entre uma presidiária e um desconhecido que se apaixonava por ela ao ouvir sua voz ao telefone. A trama não teve sucesso imediato. Texto (do original de Alberto Migré) e direção (de Tito Miglio) eram argentinos, um tanto distanciados da sensibilidade brasileira. Mesmo assim, porém, abriu-se um filão, mais bem explorado em seguida pelo primeiro grande fenômeno de audiência da TV brasileira: "O direito de nascer".

Em 1964, a "Revista do Rádio" já diagnosticava a "doce epidemia" espalhada no país pela telenovela: meninos nasciam com nomes de personagens, sessões do Senado eram transferidas para não se perder um só capítulo de "O direito de nascer" na Tupi. A telenovela, centrada no drama de uma mãe solteira e seu filho ilegítimo na Cuba do início do século (o texto do cubano Félix Caignet já havia sido sucesso no rádio, nos anos 50) continha todos os clichês de um bom folhetim, mantendo um público fiel grudado na tela todos os dias no mesmo horário.

"O direito de nascer" cumpriu bem a transição do rádio para a TV, mas deixou de herança um certo preconceito em relação ao gênero que surgia, segundo o autor Manoel Carlos. "A TV brasileira foi basicamente feita pelo pessoal do rádio, diferentemente da televisão francesa, inglesa, italiana e mesmo da americana, feitas pelo pessoal do cinema e do teatro", analisou ele. "Não é que eu ache esse pessoal medíocre, mas principalmente naquela época eles tinham muito menos formação do que o pessoal do teatro ou de cinema, e isso criou no começo uma televisão até um pouco medíocre."

Até a estréia da telenovela, a TV Excelsior caracterizava-se por uma programação sofisticada, exibindo filmes de Fellini e Bergman, além de quadros de teleteatro. O sucesso popular da telenovela foi aos poucos eliminando programas mais requintados em nome da audiência da dona de casa, que o desfile de capítulos cativava ao longo de meses. No ensaio "A evolução histórica da telenovela", Renato Ortiz investiga a estratégia comercial que cercava o gênero em seus primórdios: "No ano de 1969, ainda era possível constatar que das 24 novelas produzidas, 16 estavam sob o patrocínio das empresas Gessy-Lever, Colgate-Palmolive, Kolynos-Van Ess. Essas agências desempenharam um papel importante na consolidação da indústria televisiva brasileira, que, se tinha força para se impor como veículo de massa, não possuía ainda capital suficiente para se autonomizar enquanto fonte produtora."

O poder dos fabricantes de sabonete era tão grande que eles acabaram formando núcleos próprios de produção: decidiam a novela, negociavam a direção, o elenco, tudo. Autores como Benedito Ruy Barbosa e Walter George Durst começaram suas carreiras selecionando originais importados pela Colgate - só mais tarde escreveriam suas próprias histórias.

Levou algum tempo até que os autores começassem a se aproximar da realidade brasileira. Ivani Ribeiro, autora de "Mulheres de areia", sucesso da Tupi, e uma das pioneiras no "abrasileiramento" do gênero, dizia: "O telespectador gosta de ver-se identificado com as histórias e os locais de minhas novelas. Por isso, todas elas se passam no Brasil e contêm conflitos que se enquadram em nossa época." Na Globo, a cubana Glória Magadan reinava absoluta com histórias passadas em paisagens vagas, povoadas por condes e condessas.

Um marco da virada veio em 1968, na Tupi, com "Antônio Maria", novela estrelada por Sérgio Cardoso em cenário brasileiro. No mesmo ano, "Beto Rockfeller" acabou de revolucionar o formato, retratando um anti-herói urbano e tipicamente brasileiro, interpretado por Luís Gustavo. A novela de Bráulio Pedroso, na Tupi, passava a incluir expressões populares, mais humor e menos melodrama. Foi quando, de olho na concorrência, a Globo deu por encerrada a era Magadan. Começava o império de Janete Clair, autora que fez de "Véu de noiva" (1969/1970) o marco inicial da liderança de mercado da emissora, consolidada ao longo dos anos 70 e mantida até hoje.

A década de 70 começou com "Verão vermelho" (de Dias Gomes), passou por "Irmãos coragem" e "Selva de pedra" (de Janete Clair), "O bem-amado" (a primeira novela colorida da TV, de Dias Gomes), e fechou com "Escrava Isaura" e "Dancin’ Days" (de Gilberto Braga). Nessa época, as produções ainda estavam sujeitas a trancos e barrancos, devido à falta de estrutura e experiência - a ordem era inventar. Foi o período mais criativo do gênero, marcado pelos scripts do casal Janete Clair e Dias Gomes (texto adiante).

Com o tempo, os improvisos deram lugar ao profissionalismo das superproduções, fase que culminaria com a construção de uma bem-estruturada cidade cenográfica em Jacarepaguá, o Projac. Os anos 80 e 90 foram de maturidade, consolidando subgêneros como a comédia rasgada de "Guerra dos sexos" (Sílvio de Abreu), o regionalismo político de "Roque Santeiro" (Dias Gomes) e a alegoria de "Vale tudo" (Gilberto Braga), entre outros. A telenovela estava confirmada como um forte item de nossa pauta de exportações, sendo exibida em mais de cem países.


p r i n c i p a l