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Cidadania brasileira para as guitarras

Em aparições anteriores, seja com Celly Campello, seja com Roberto Carlos, o rock sempre fora visto como uma intromissão estrangeira, logo espúria, na cultura brasileira. Nem o sucesso do Tropicalismo - que devorava e digeria as influências alienígenas, abrasileirando-as - mudara esse quadro. Roqueiro brasileiro tinha cara de bandido, provocava a roqueira veterana Rita Lee. Agora, porém, a situação sócio-política estava mudada. E Bernardo Vilhena podia articular seu discurso de arejamento sem ser chamado de "vassalo do imperialismo". A reaparição do rock brasileiro nos anos 80 - estimulada pela combatividade punk no exterior - seria responsável pela tardia naturalização do gênero, superando falsas questões.

Um ano antes do estouro da Blitz, a Gang 90 & As Absurdettes, do poeta Júlio Barroso, mostrou o rock "Perdidos na selva" no Festival MPB, entre nomes como Oswaldo Montenegro e Lucinha Lins. A música não ganhou nada, mas arrepiou os cabelos mais brancos, mexeu com os quadris mais jovens e deu a deixa: uma nova onda quebrava na praia. Em 1982, surgiram no Rio o Circo Voador e a Fluminense FM, cabeças-de-ponte do desembarque que afinal seria bem-sucedido. Sob a lona - armada primeiro no Arpoador e depois na Lapa - se apresentariam Blitz, Barão, Lobão e visitantes paulistas, como os Titãs, então do Iê-Iê-Iê, e brasilienses, como a Legião Urbana. Por seu lado, a rádio de Niterói, auto-apelidada de "Maldita" e especializada em rock, destacaria as novidades, colocando no ar qualquer fita demo que tivesse um mínimo de qualidade. O Circo tinha equivalentes em São Paulo - bares como o Pierrô Lunar e danceterias como a Madame Satã - e em Brasília - o Circo de Lona.

Essa nova música da juventude urbana de classe média crescia no espaço deixado tanto pelo regime militar - com o afrouxamento da censura, por exemplo - quanto pela MPB - com o encastelamento nas metáforas outrora cruciais para driblar a censura. O rock tinha a capacidade de ir direto ao assunto, embora nem sempre com o mesmo talento: "Mas realmente... Mas realmente eu preferia que você estivesse... Nua!" ("Você não soube me amar", da Blitz). Graças a essa objetividade, o rock brasileiro dos anos 80, também chamado de Rock Brasil ou de BRock, alcançaria o sucesso onde seus antecessores haviam falhado: no mercado.

O início foi despretensioso. Os primeiros grandes sucessos cantavam namoros, diversão e liberdade sob títulos como "Bete Balanço", do Barão Vermelho, ou "De repente Califórnia", de Lulu Santos. Seguindo essa tendência romântica e inconseqüente do início, o grande fenômeno de 1983 foi o LP "Vôo do coração", do inglês acariocado Ritchie, que fechou o ano com 580 mil cópias vendidas em quatro meses. Com a censura cedendo e com a campanha das Diretas Já empolgando o país em 1984, o rock brasileiro ganhou inequívocos contornos políticos. Nesse panorama, a escolha de "Inútil" para hino oficioso do movimento pelas eleições presidenciais diretas não causou espanto. A esperança, porém, virou decepção com a eleição indireta de Tancredo Neves, seguida da morte do presidente e da posse do vice José Sarney. O rock - ainda politizado, mas introspectivo e amargurado - gerou um novo sucesso emblemático, "Geração Coca-Cola", da Legião Urbana, banda brasiliense liderada por Renato Russo, guru da juventude: Somos os filhos da revolução/ Somos burgueses sem religião/ Nós somos o futuro da nação/ Geração Coca-Cola.

Sarney, contudo, teria um papel benéfico para o Rock Brasil. O seu Plano Cruzado, lançado no início de 1986, aumentou o poder de compra da população, gerando uma euforia de consumo. No mercado fonográfico, o principal beneficiado foi o grupo paulista RPM, do cantor Paulo Ricardo Medeiros, primeiro símbolo sexual do novo rock. Seu LP "Rádio pirata - Ao vivo", lançado na metade de 1986, venderia 2,2 milhões de cópias. O disco era muito bom ao juntar ambas as facetas do rock nativo, a intimista e a politizada, mas sua vendagem foi inflacionada pelo momento econômico, bem como a de muitos outros, medíocres. Também foi importante na explosão do RPM o profissionalismo de seus shows e discos, profissionalismo que o BRock alcançara no tranco: as superproduzidas atrações internacionais do primeiro festival Rock in Rio, realizado em janeiro de 1985, em Jacarepaguá, expuseram o vexaminoso amadorismo das atrações nacionais. Humilhados, os roqueiros brasileiros decidiram investir em bons estúdios e em efeitos de luz nos palcos.

No final de 1986, a euforia consumista tinha sido substituída por inflação, economia desestabilizada e população insatisfeita. Mais uma vez o rock nacional expressou o que se passava na cabeça dos jovens, sobretudo por intermédio do LP "Cabeça dinossauro", dos Titãs, talentoso na técnica e violento no conteúdo. Canções com títulos como "Bichos escrotos", "Porrada" e "Polícia" davam o tom dessa época. De 1987 até o fim da década, o rock não mais mostraria o mesmo fôlego: suas vendas caíram, seus shows escassearam e muitas bandas acabaram. Com a ascensão de Collor e seu eleitorado baseado no campo, outros gêneros acabaram atraindo a preferência da juventude (texto adiante). Mas as letras de um Renato Russo, por exemplo, hoje são estudadas nas escolas que elas tanto criticavam.


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