F a s c í c u l o   1
‘Aquiles lusitano’: a grande eminência parda?

O senhor altivo aí embaixo foi, muito provavelmente, o primeiro europeu a pôr os pés em terras brasileiras, quase um ano e meio antes da chegada de Pedro Álvares Cabral. Seu nome era Duarte Pacheco Pereira e sua reputação como navegador e astrônomo, lendária o bastante para que Camões a ele se refira como “o Aquiles lusitano” em seu poema “Os Lusíadas”. A história teria se passado assim: por volta de dezembro de 1498, Duarte Pacheco esteve no Brasil, em algum ponto entre o Maranhão e o Pará, mas Portugal decidiu abafar o feito. Como iria acontecer muito tempo depois numa boa intriga internacional da Guerra Fria, nos anos 50 e 60 do século XX, a rivalidade entre portugueses e espanhóis incluía espionagem e ocultação de dados. Ainda não era o momento de anunciar a descoberta e despertar a cobiça dos espanhóis. Isso explicaria a suposta — ainda que discreta — presença de Duarte Pacheco no comando de um dos navios da frota de Cabral, em 1500, quando Portugal partiu para “descobrir” o que já conhecia.

Foi assim mesmo que tudo aconteceu? Duarte Pacheco teria desempenhado o papel de eminência parda do descobrimento, abrindo mão da glória em favor de Cabral? Impossível afirmar com segurança. A tese é bem defendida no livro “A construção do Brasil” pelo historiador português Jorge Couto, que acena com uma carta aparentemente cifrada de Duarte Pacheco Pereira a d. Manuel I como prova principal. Seja como for, baseando-se em relatos e documentos, a maior parte dos especialistas não acredita que Cabral tenha sido o primeiro europeu a chegar ao Brasil.

E Duarte Pacheco nem sequer teria sido o único. Há fortes indícios de que os primos espanhóis Vicente Yáñez Pinzón e Diego de Lepe, um de ca-da vez, também cruzaram a linha de chegada antes de Cabral — ainda que no photochart, em janeiro de 1500. Consta que Pinzón — navegante que comandara a “Nina”, uma das três caravelas da expedição de Cristóvão Colombo que descobriu a América — chegou ao Brasil em 26 de janeiro de 1500 com quatro caravelas, aportando na Ponta do Mucuripe, no Ceará. Seu cartão de visitas foi um violento conflito com os índios potiguares. Em seguida, a frota rumou para o Norte, atingindo o Rio Amazonas, e seguiu para o Caribe antes de retornar à Europa.

Acredita-se que Lepe tenha feito quase o mesmo percurso, saindo de Palos, na Espanha, no início de dezembro de 1499, e chegando ao Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, ou ao Cabo de São Roque, no Rio Grande do Norte. Seguindo para o Norte, passou pela foz do Rio Amazonas, mas não se encontrou com Pinzón. Os primos podem ter sido os primeiros feitores locais. Consta que Lepe aprisionou 20 nativos e Pinzón, 36. Por que essas expedições espanholas também permaneceram “secretas” é algo que não se sabe. Como provavelmente jamais se saberá se os vikings, partindo da Groenlândia, já tinham mesmo pisado terras americanas em torno do distante ano 1000. Aqui estamos exatamente sobre a linha em que a História faz fronteira com a lenda.


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