F a s c í c u l o   1
Espírito do Tempo

Um tema feito para virar desfile

O Descobrimento do Brasil é um dos temas preferidos pelas escolas de samba. Não só por se tratar de um marco histórico, mas também por permitir alegorias com caravelas e monstros marinhos e fantasias de reis, navegadores e índios. Duas grandes escolas tocaram no assunto mais de uma vez: Salgueiro, em 1962 e 1995, e Portela, em 1969 e 1989.

Nos dois casos, houve mudança na abordagem, como nos livros escolares: na primeira, via-se o Descobrimento como casual; na segunda, fala-se que Cabral partiu para descobrir o que já se conhecia.

O pioneiro desfile do Salgueiro, “Descobrimento do Brasil”, de Arlindo Rodrigues, contava que Cabral chegara ao país por ter faltado vento em seu caminho para as Índias: “Após navegar vários dias / Afastando-se da costa, evitando as calmarias / Finalmente, no dia 22 de abril / Pedro Álvares Cabral descobriu a nossa pátria idolatrada”.

Note-se a enorme mudança de tom em relação ao desfile de 1995, “Um caso por acaso”, de Roberto Szaniecki. O enredo afirmava que o verdadeiro descobridor fora Duarte Pacheco Pereira e que Cabral tivera papel apenas formal: “Então Cabral partiu, oficializou / Rezaram a missa, como o rei mandou”. Nem só de louvação vive o samba.


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