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a s c í c u l o 8 José de Alencar foi o patriarca da literatura nacional plenamente, isto é, lingüisticamente, constituída. Em ‘Iracema’ ou em ‘Lucíola’ se consuma o aparecimento definitivo de uma língua literária inequivocamente brasileira." O juízo do crítico José Guilherme Merquior, enunciado em seu livro "De Anchieta a Euclides - Breve história da literatura brasileira", garante a José Martiniano de Alencar um lugar que, ao fim do século XX, o escritor cearense anda ameaçado de perder aos olhos do leitor comum. Isso se deve a dois problemas: a inclusão de vários títulos alencarianos entre as leituras obrigatórias na escola (infalível desestímulo à leitura) e o prestígio crescente de um contemporâneo mais jovem e mais brilhante do que ele, chamado Machado de Assis. Ajuda a clarear a questão saber que o próprio Machado considerava Alencar um mestre. O franzino e enfezado cearense criado no Rio teve uma vida marcada por altos e baixos - entre estes, a frustração de, mesmo tendo sido ministro, jamais chegar a senador por veto de D. Pedro II, que ele passou a atacar impiedosamente - e uma obra também irregular, na qual convivem o regionalismo simplista de "O gaúcho" e a rica fábula poética de "Iracema", além de romances urbanos mais ("Senhora") e menos ("Diva") bem-sucedidos. Alencar produziu muito. Ao morrer relativamente cedo, aos 48 anos, deixou, além de romances em vários estilos, peças de teatro, poesia, artigos políticos e, com uma inédita consciência sobre a própria atividade, textos reflexivos: "Como e por que sou romancista" e trechos em que tenta fixar as coordenadas de uma língua brasileira. "Minhas opiniões em matéria de gramática têm-me valido a reputação de inovador, quando não é a pecha de escritor incorreto e descuidado. Entretanto, poucos darão mais, se não tanta importância à forma quanto eu", escreveu. Esse Alencar inovador era também um político conservador, escravocrata e até - segundo observação algo anacrônica de Silviano Santiago - "antifeminista", o que apenas torna mais complexo o fascinante personagem. Para Santiago, "um dos poucos intelectuais impertinentes da nossa pacata e mundana vida literária, uma espécie de Glauber Rocha do século passado". |