F a s c í c u l o   9
A guerra que ninguém viu no jornal saiu em ‘Os sertões’

Se a Guerra de Canudos não inaugurou o hábito de enviar jornalistas ao local dos acontecimentos, foi sem dúvida o primeiro grande momento da reportagem no Brasil. O protagonista era Euclides da Cunha, correspondente de "A Província de S. Paulo" - mais tarde, "O Estado de S. Paulo" - mas pelo menos outros três jornais importantes mandaram a Canudos profissionais com a tarefa de informar o que se passava: "A Gazeta de Notícias", "A Notícia" e o "Jornal do Commercio", todos do Rio.

Como iam em missão de guerra, esses repórteres tinham formação militar: Euclides da Cunha era tenente reformado; Júlio Procópio Favila Nunes (da "Gazeta"), coronel; Manuel Benício (do "Jornal do Commercio"), capitão; e Manuel de Figueiredo (da "Notícia"), major. Também militar, mas combatente, era o tenente-coronel Siqueira de Menezes, chefe da comissão de engenharia da expedição, que escreveu para o jornal "O País" as "Cartas de Canudos", com o pseudônimo de Hoche.

A cobertura, no entanto, não refletiu o que se passou nos campos de batalha. Alguns reclamaram depois da censura prévia feita pelo comandante da expedição, outros atestaram a integridade de seus textos. O próprio Euclides reconheceu em "Os sertões" a omissão de sua cobertura de guerra, ao relatar o que antes silenciara: a degola dos prisioneiros e o comércio de mulheres e crianças, por exemplo. Para se vingar das derrotas sofridas, as tropas da República estupraram mulheres e executaram prisioneiros. Mas a "gravata vermelha" - eufemismo para a degola - não saiu nos jornais.

De agosto a outubro de 1897, Euclides da Cunha conheceu de perto o sofrimento dos habitantes do povoado. Só não presenciou o fim da guerra porque ficou doente dois dias antes. Nas reportagens, porém, sentiu-se tolhido para atacar o Exército, especialmente por ter sido nomeado adido do Estado-Maior para a cobertura da guerra.

"Os sertões" são uma espécie de mea culpa de Euclides. Lançado cinco anos após o fim do conflito, revela um autor que mudou de idéia: dos preconceitos políticos e raciais que permeavam suas reportagens pró-Exército, Euclides chegou a uma visão crítica da ação oficial e a uma inegável simpatia pelo sertanejo, que considerava "antes de tudo um forte".

Com sua mistura de conhecimentos científicos (muitos deles ultrapassados hoje) e prosa exuberante, Euclides escreveu uma das obras-primas da literatura brasileira. A carga dramática de "Os sertões" se manifesta em trechos como este: "Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a História, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que morreram todos. Eram quatro apenas: um velho, dois homens e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados."


p r i n c i p a l