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Regime de Exceção

Os Interventores no Rio Grande do Norte

Com a nomeação dos interventores, começou a fase institucional da Revolução de 30 no Rio Grande do Norte.

Marlene Mariz define o sistema instaurado da seguinte maneira: "Os interventores eram o próprio instrumento de controle do poder central em cada Estado. Representam o empenho deliberado de alterar as relações Estado/União, transformação esta desejada pelos tenentes e, especificamente, por todos os revolucionários nortistas".

O Rio Grande do Norte contou com cerca de cinco interventores: Irine Jofily (apoiado por Café Filho), Aluísio de Andrade Moura, Hercolino Cascardo, Bertino Dutra da Silva e, finalmente Mário Leopoldo Câmara.

Irineu Jofily encontrou dificuldades para implantar os ideais revolucionários no Estado porque os oligarcas estavam ainda muito fortes. O sistema oligárquico não permitia que medidas contrárias aos seus interesses fossem implantadas. Por essa razão, Jofily pediu demissão.

Aluísio Moura iniciou a fase de administradores militares.

Juarez Távora, que comandava a Delegacia do Norte, designou dois militares para "assessorar" o novo interventor: os tenentes Ernesto Geisel, para a Secretaria Geral e diretor do Departamento de Segurança Pública, e Paulo Cordeiro de Melo, para o Comando do Regimento Policial. Existe apenas uma explicação para justificar essas duas nomeações: falta de confiança de Juarez Távora em Aluísio Moura...

Com o objetivo de afastar Café Filho e seus adeptos da administração, os cafeístas foram acusados, pelo interventor, de comunistas que conspiravam contra o governo. Como resultado, todos foram presos. Pedro Dias Guimarães, que exercia a função de prefeito de Natal, e ainda Edgar Siqueira, José Anselmo e Sandoval Wanderley. Depois, o interventor, alegando que tudo que se dizia dos cafeístas era falso, mandou libertar a todos...

Cresceu o descontentamento dos setores ligados à Revolução de 30, por causa do apoio dado ao grupo que se encontrava no poder antes de 1930, por essa razão, Aluísio Moura foi substituído por outro militar: o comandante Hercolino Cascardo.

O Rio Grande do Norte se encontrava nessa época, numa situação difícil. Cascardo, contudo, procurou desenvolver o Estado, atuando sobre os produtos que sustentavam sua economia: cultura do algodão e indústria salineira. Outro aspecto importante é que ele procurou governar sem se envolver nos conflitos locais, escolhendo seus auxiliares entre os mais capazes. Sentindo-se desprestigiado perante o governo provisório, pediu exoneração do cargo, apesar do apoio de Café Filho e de seus correligionários.

O novo interventor, Bertino Dutra da Silva, encontra o Rio Grande do Norte numa situação muito dedicada. As forças políticas tradicionais continuavam sendo um obstáculo para que os ideais revolucionários se instalassem no Estado.

Em 1932 explodiu a Revolução Constitucional, liderada por São Paulo e que, segundo alguns, possuía um caráter separatista. Foi fundada no Rio Grande do Norte a "União Democrática Norte-rio-grandense", comandada pelo monsenhor João da Matha e por Gentil Ferreira de Souza, apoiando o movimento a favor da constitucionalização do País. Como afirma Marlene Mariz, "os coronéis potiguares chegaram até enviar seus capangas para lutar ao lado dos paulistas contra o governo provisório e o regime de exceção".

As forças conservadoras não ficaram apenas nesta ação. Visando a eleição da Constituinte Nacional de 1933, fundaram o "Partido Popular", chefiado por Dr. José Augusto Bezerra de Medeiros, líder seridoense.

O interventor Bertino Dutra reagiu e fundou o 'Partido Social Nacionalista do Rio Grande do Norte".

A campanha se desenvolveu num clima de agitação, com atitudes que caracterizavam um grande radicalismo.

A 3 de maio de 1933, realizou-se a eleição para a Constituinte Nacional, com a vitória da oposição que conseguiu eleger três candidatos: Alberto Roseli, Francisco Martins Veras e José Ferreira de Souza, Kerginaldo Cavalcanti de Albuquerque foi o único eleito pela situação.

Café Filho, o homem forte do governo, era o alvo preferido da oposição, sendo inclusive baleado pelo capitão do exército Everardo Vasconcelos após uma discussão entre os dois.

Derrotado, Bertino Dutra passou o cargo ao seu substituto legal, tenente Sérgio Marinho.

O novo interventor, Mário Leopoldo da Câmara, foi designado para executar a missão de pacificar o Rio Grande do Norte, formando uma aliança com o Partido Popular, o mais forte do Estado.

Entretanto, apesar de sua eficiência como administrador, Mário Câmara permitiu que crescesse o clima de agitação e de violência. João Medeiros Filho, no programa "Memória Viva", da TV Universitária, traçou o seu perfil: "Mário Câmara era um administrador honesto. Depois, foi envolvido pelos políticos profissionais, fincando alucinado pelo poder. Daí a violência que caracterizou o final do seu governo".

Em vez de se unir às forças tradicionais, terminou fazendo uma aliança com Café Filho, com o fim de derrubar o Partido Popular.

O Rio Grande do Norte viveu, então, um clima de agitação nunca antes experimentado em sua história, incluindo assassinatos, espancamentos etc.

Em síntese, como administrador, Mário Câmara fez várias obras (construir 43 prédios escolares, abriu estradas etc.), porém "com esse homem caiu sobre a terra potiguar a maldição terrível da desunião política, que fez desencadear a mais torpe campanha eleitoral de 1934", afirma Tarcísio Medeiros.

Como uma conseqüência desse clima de agitação, se pode apontar a intentona comunista de 1935.

Ao se fazer um balanço sobre a Revolução de 30 no Rio Grande do Norte, cujas diretrizes deveriam ser executadas pelos interventores, fica muito claro que as oligarquias, com o seu sistema político consolidado, evitaram que mudanças maiores de operassem no Estado, gerando um confronto num clima de agitação e violência entre os partidários da Revolução de 30 e os oligarcas.

João Café Filho se destacou na luta para destruir as velhas estruturas, mas não reunia força suficiente para conseguir realizar os seus propósitos.

Por outro lado, os conservadores possuíam grandes líderes, alguns detentores de vasto saber, como, por exemplo, José Augusto de Medeiros, o grande arquiteto da resistência das forças tradicionais.

A massa popular queria mudança, porém, iletrada, não sabia que rumo tomar, praticando, às vezes, atos de violência como sinal de protesto.

Segundo Marlene Mariz, "a Revolução trouxe efeitos para o Rio Grande do Norte no tocante a mudanças no comportamento do operariado, com sindicatos organizados e amparados pelas leis trabalhistras, que vão marcar o início do populismo", graças à atuação de Café Filho.

 

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