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LUXO - Um dos imóveis investigados pela PF é o Blue Marlin Resort & SpaA Polícia Federal e a Okokrim (Polícia Nacional da Noruega) desbarataram a quadrilha de brasileiros, noruegueses e paquistaneses que usou o Rio Grande do Norte como base na “lavagem” de 50 milhões de dólares (cerca de R$ 100,3 milhões) originários de ações criminosas. O dinheiro “sujo” foi usado para a compra e construção de hotéis, resorts e condomínios de luxo no Rio Grande do Norte entre 2002 e 2007. Nove pessoas foram presas em Natal e outras 15 em Oslo, na Noruega, na maior operação conjunta envolvendo as polícias dos dois países. Outras duas pessoas ainda são procuradas pela polícia, uma aqui em Natal e outra na Europa.
O bando norueguês, conhecido como “B-Gang”, é responsável por seqüestros, extorsões, assaltos e tráfico de drogas na Europa. O grupo é liderado por paquistaneses e atua, principalmente, em Oslo. Atualmente, o “B-Gang” é o maior causador de problemas na segurança pública da Noruega. Segundo a PF, o bando praticava crimes naquele país e “lavava” o dinheiro obtido de forma ilícita comprando terrenos e construindo luxuosos imóveis no RN, sobretudo no litoral entre Ponta Negra e Tabatinga. Os imóveis, em sua maioria, eram hotéis e resorts destinados a estrangeiros. O dinheiro obtido com o lucro dos empreendimentos era enviado para o Paquistão, onde os líderes do grupo - Ghulam Rassol e Shahid Rassol e família -, os utilizavam de forma lícita e também, segundo a PF, para financiar novos crimes.
Segundo o delegado Rômulo Berredo, especialista no combate ao crime organizado, o “B-Gang” começou a ser investigado no Brasil a partir da divulgação, em março do ano passado, da existência do esquema através de matérias conjuntas do jornal norueguês Dagens Naerigsliv e da TRIBUNA DO NORTE. A TN manteve uma parceria com dois jornalistas noruegueses, apoiando-os quando eles estiveram em Natal para completar investigações sobre as atividades do bando. A PF, no dia seguinte à reportagem da TRIBUNA, montou um grupo de trabalho com o Ministério Público Federal e a Interpol para apurar o caso. Com a confirmação das suspeitas, a Okokrim também foi acionada.
“Verificamos que os nomes citados na reportagem eram de pessoas com antecedentes criminais na Noruega. Essa ação conjunta teve total apoio do governo norueguês”, disse o delegado. A partir daí, a PF e a Okokrim quebraram, com autorização judicial, os sigilos bancários dos suspeitos. Verificou-se então que a renda deles na Noruega era imcompatível com os investimentos em Natal. “Eles usavam laranjas para a sociedade nos empreendimentos. Muitas empresas abertas por eles tinham o mesmo endereço”, disse o delegado.
O “B-Gang”, segundo a PF, se assemelha à facção criminosa paulista Primeiro Comando da Capital, o PCC, no modo de agir. “Eles faziam de tudo. De extorsão a assassinatos”, disse o superintendente regional da PF no RN, Euclides Rodrigues.
Em Natal, os noruegueses constituíram empresas para a aquisição dos imóveis. Três delas eram mais ativas: o Blue Marlin, Natal Invest e o Grupo Capricórnio, todas com sede na capital potiguar e comandadas por noruegueses. A Natal Invest pertence a Oisten Hanse; a Blue Marlin por Trygue Kristiansen; e o Grupo Capricórnio. Essas empresas receberam a consultoria do advogado potiguar Alberto Aulio, que depois passou a ser sócio em algumas transações. A mulher e a cunhada do advogado, segundo a PF, também participaram do esquema ilegal e foram presas na ação de ontem.
O grupo será indiciado no Brasil por crime contra a ordem tributária, crime contra o sistema financeiro nacional, lavagem de dinheiro, falsidade ideológica e formação de quadrilha.
“Sport Park” era o “QG” do grupo
U dos líderes da “B-Gang”, o paquistanês Shahid Rassol, chegou a vir a Natal para acompanhar os “negócios” do bando. Segundo a PF, ele tem esposa e uma filha brasileiras. “Eles possuem apartamentos no condomínio Sport Park onde se hospedam e usam como base para as atividades”, disse Rômulo Berredo. O condomínio citato pela polícia fica em Ponta Negra, área nobre de Natal. Outro apartamento usado pela quadrilha fica noSolar Mares, em Ponta Negra, avaliado em mais de um milhão de reais.
Shahid Rassol é irmão de Ghulan Abbas, líder da família Rassol. Ele comanda uma família mafiosa de origem paquistanesa que se instalou nos subúrbios de Oslo, Noruega, para praticar crimes como o tráfico de drogas, roubos, extorsões, seqüestros e até homicídios. “Os irmãos Rassol são acusados de dezenas de crimes. Um deles é acusado de quase cem crimes na Noruega”, disse o delegado.
A PF acredita que a maior parte do dinheiro obtido com esses crimes veio para Natal com a aquisição de bens e investimentos no mercado imobiliário. A PF demorou a lançar suspeitas sobre o grupo, uma vez que Natal é considerada o “balneário” da Noruega. Grupos de noruegueses costumam aproveitar as calorosas praias potiguares durante o rigoroso inverno naquele país e, pela quantidade de estrangeiros em situação regular no Estado, os investimentos do grupo mafioso demoraram a chamar a atenção da PF.
Tribuna do Norte denunciou o esquema
Foi a partir de uma reportagem publicada pela TRIBUNA DO NORTE que a Polícia Federal começou a investigar a mafia norueguesa em Natal. Na edição do dia 21 de março de 2006, a TN publicou a denúncia de que Natal era um “paraíso” de criminosos noruegues. O adjetivo acabou batizando, inclusive, a operação da polícia local.
A reportagem foi embasada em matéria do maior jornal de economia norueguês, o Dagens Naerigsliv. Repórteres deste jornal receberam o apoio da TN para a apuração do caso em Natal, acompanhado pelo repórter Augusto Bezerra. As reportagens da TN e do Dagens Naerigsliv foram o ponto de partida da investigação que desbaratoua quadrilha.
A TN acompanhou dois jornalistas noruegueses e, uma das fontes consultadas, Jan Erik Nybakk, contato da Interpol da Noruega, confirmou que a capital potiguar era um “paraíso” para criminosos. “As compras tëm o objetivo de lavar o dinheiro sujo”, disse Jan Erik, em março do ano passado. Outra fonte consultada pela TN era um norueguês com ficha suja na Europa e que vivia em Natal. Na época, ele explicou como o dinheiro chegava à capital potiguar. “Eles usam dinheiro negro da Noruega para comprar imóveis aqui. Isso é um tipo de lavagem de dinheiro. Eles dirigiam até a capital holandesa, Amsterdã, e depois vinham de avião com o dinheiro no corpo. Até 150 mil Euros”, disse.
No dia 22 de março de 2005, a TN publicou uma segunda reportagem, com o título “Dinheiro sujo da Noruega será investigado pela PF”. A PF, ao ser procurada pela TN, se comprometeu em apurar as denúncias. No dia seguinte, a TN publicou matéria afirmando que a Okokrim entrou no caso.
Membro da família Rassol foi preso pela PF em Natal
O paquistanês Sahid Rassol, irmão do líder do “B-Gang”, Ghulam Rassol, foi preso no mês passado pela Polícia Federal em Natal. Ele tentava sair do Brasil usando passaporte falso. Sahid é o segundo na hierarquia do bando e, segundo a PF, é acusado de mais de 15 crimes na Noruega.
Também foi preso tentando fugir do país Waquas Malk, acusado na Noruega de seqüestro, lesão corporal e porte ilegal de arma.
Segundo o delegado Rômulo Berredo, a prisão de Sahid Rassol em Natal confirma a importância da cidade nos negócios ilegais dos noruegueses.
Os principais veículos de comunicação da Noruega deram destaque à “Operação Paraíso”. O Dagens Naerigsliv, maior jornal de economia daquele país, autor da denúncia sobre o equema de lavagem de dinheiro, acompanhou a polícia norueguesa nas prisões. As primeiras informações do caso foram disponibilizadas no site do jornal nas primeiras horas da manhã de ontem. Os nomes dos presos, no entanto, não foram revelados pelas autoridades policiais daquele país.
O jornalista norueguês Roar Nerdal, correspondente de diversos jornais da Noruega, manteve contato com a TN e obteve a lista dos presos no Brasil. As informações foram publicadas no site do Dagens Naerigsliv. A jornalista Øyvind Ludt , do Nettavisen, e o jornalista Ingunn Andersen, do VG, também mantiveram contato com a TN em busca de informações. Os jornalistas informaram que as autoridades norueguesas deram poucas informações sobre o caso, mas confirmaram as prisões de 15 pessoas ligadas ao esquema de lagavem de dinheiro.
Pelé será convocado a depor
Durante entrevista coletiva na sede da PF, ontem, o delegado Rômulo Berredo explicou que um dos empreendimentos investigados, o King’s Flat, em Ponta Negra, tem como sócio Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, e o empresário Milton Torres, da Brazil Dream Homes. A polícia quer ouví-los para saber os detalhes da sociedade deles com os acusados. Segundo a PF, Pelé é o garoto propaganda do empreendimento . “Ele será chamado a prestar esclarecimento”, disse o delegado. A PF tem informações que o flat - ainda em construção - estava sendo comercializado no exterior ilegalmente.
O superintendente regional da PF do RN, delegado Euclides Rodrigues, disse que a PF vai instaurar um outro inquérito para apurar as suspeitas de que o advogado Alberto Aulio Nelson também estaria montado um esquema de lavagem de dinheiro para o grupo espanhol Valero.
Rômulo Berredo disse que “há fortes indícios de ilegalidade envolvendo a empresa Valero Empreendimentos Imobiliários”. Segundo a PF, a empresa Valero movimentou só em 2006 mais de R$ 40 milhões, embora tenha adquirido bens no valor aproximado de R$ 70 milhões.
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