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FERIADO - A igreja aprova a lembrança, mas outras pessoas criticamO Dia dos Bem-aventurados Mártires, feriado estadual na próxima quarta-feira (03), instituído este ano pela governadora Wilma de Faria, já divide opiniões. Há quem considere uma homenagem justa e quem critique a medida como absurda.
O fato histórico envolto pelo caráter religioso virou feriado a partir da Lei nº8913/2006, aprovada pela Assembléia Legislativa em dezembro do ano passado. O Governo do Estado considera o fato importante para a história potiguar e sancionou a lei. A Arquidiocese de Natal exalta a importância histórica, religiosa e cultural da data, mas o professor do departamento de ciências sociais da UFRN, Alípio Sousa Filho, considera o feriado uma afronta à idéia do Estado laico.
“Contesto o fato do Estado ter tornado feriado uma comemoração religiosa”, afirma o professor. De acordo com ele, o problema não está no fato da igreja ter beatificado os mártires. “A igreja beatificá-los não é estranho, ela está aí para criar seus santos. O problema é um governo que se diz laico, se render à uma religião”. Alípio Sousa não acredita que o fato histórico chegue a ser tão importante. Para ele, os mártires de Cunhaú e Uruaçu não tem tanta relevância histórica, diante do massacre de três milhões de indígenas nos três primeiros séculos da colonização da América.
“Esse fato envolveu católicos, protestantes e indígenas. Confrontos com índios, foram muitos naquela época. O massacre dos mártires não foi um fato exclusivo e único que envolveu indígenas”. Para o professor, se o Estado se rende à celebração católica, teria que tornar feriado datas relacionadas à outras religiões também. “Isso para mim é uma atitude eleitoreira e política do governo. O Estado não tem coragem de recusar a demanda da população católica, um verdadeiro populismo”, diz.
Quando questionado sobre a quantidade de feriados relacionados à religião católica existentes no Brasil, Alípio Sousa se posiciona contra todos eles. “Precisamos acabar com todos esses feriados religiosos, o governo não deve seguir ou apoiar nenhuma religião, já que o estado brasileiro se diz laico”.
O professor também não acredita que possa existir interesse em incentivar o turismo religioso onde estão localizados os santuários dos mártires de Cunhaú (Canguaretama) e Uruaçu (São Gonçalo do Amarante), com o decreto do feriado. “Se houve interesse em turismo é ridículo, porque o Estado tem que investir na preservação de locais relevantes como os sítios históricos e na construção de museus da cultura popular”. Alípio Sousa sugere que a lei seja revogada. “Essa lei é um insulto à memória indígena”. O professor considera uma afronta porque o episódio glorifica os católicos que segundo a história, resistiram à conversão ao protestantismo. Segundo ele, os indígenas foram vítimas de vários massacres por resistirem à cultura européia e nem por isso são lembrados.
Vicente Laurindo de Araújo, vigário paroquial de São Pedro, no Alecrim, acredita que a importância do fato histórico vai além do lado religioso. Para ele o feriado é um momento para relembrar a história potiguar e valorizar a cultura do Estado. “O martírio ocorreu por causa da fé, mas também devido à um contexto social. Na época ocorria um desdobramento da realidade européia aqui, com a invasão dos holandeses e a expansão do calvinismo”.
Padre Vicente lembra que 28 dos 30 mártires eram leigos (pessoas de fora da igreja) e por isso o fato não pode ser considerado apenas religioso. “Foi um exemplo de fé e por isso eles foram beatificados. Mas o acontecimento marcou a história do Rio Grande do Norte”, diz, lembrando que até hoje os locais dos massacres são pontos de visitação. “Para a igreja o feriado é uma oportunidade de levar modelos de fé ao conhecimento da população, principalmente porque os mártires não são mitos, se trata de um fato histórico. Para o governo o feriado proporciona um reencontro com a cultura”, comenta. O padre diz que em um momento de invasão da cultura estrangeira no Estado, é importante uma data que encontre os modelos legítimos locais, com a lembrança da história. “A história mostra que além da fé, há uma questão de patriotismo”, conclui.
Como começou a História dos mártires
No município de Canguaretama, a capelinha de Cunhaú construída no século XVII tem a marca de um massacre gerado pela intolerância religiosa e política da época. Em 16 de julho de 1645, um grupo de indígenas e holandeses, chefiados por Jacob Rabbi, invadiu a capela do engenho de Cunhaú, dedicada a Nossa Senhora das Candeias, e massacrou os 69 fiéis que participavam da missa do Padre André de Soveral. O morticínio entrou para a história por causa da resistência dos católicos, descendentes dos portugueses, à conversão para o calvinismo e à aceitação da dominação holandesa.
Em três de outubro de 1645 outro massacre marcou a história do Rio Grande do Norte. Onde hoje está localizado o Mártire de Uruaçu, no município de São Gonçalo do Amarante, um grupo de 80 fiéis, incluindo o Padre Ambrósio Francisco Ferro e o camponês Mateus Moreira, foi martirizado também por resistir às imposições holandesas. Na história, os mártires de Cunhaú e Uruaçu ficaram conhecidos como exemplos de fé.
O processo de beatificação foi concedido pela Santa Sé no dia 16 de junho do ano de 1989. Em 21 de dezembro de 1998 o papa João II assinou o decreto reconhecendo o martírio de 30 brasileiros, sendo dois sacerdotes e 28 leigos.
Os mártires foram beatificados no dia 05 de março de 2000, no Vaticano. Nem todos foram beatificados porque boa parte do grupo não foi identificada. O processo de canonização está em andamento, mas não há previsão para a conclusão. É um processo lento.
Para professor o fato histórico é importante mas o feriado não
O professor e historiador Luíz Eduardo Brandão Suassuna, o Kokinho, alerta para a importância de se lembrar o fato histórico. Ele lembra que o massacre dos mártires de Uruaçu e Cunhaú tem relevância do ponto de vista histórico e religioso. De acordo com ele, no ponto de vista política o massacre representou o embate entre holandeses, que invadiam o Nordeste, e os colonos portugueses. Na visão religiosa, o massacre representou o confronto entre calvinistas e católicos.
“Esse confronto religioso fazia parte de um contexto de guerras religiosas na Europa, que refletiu aqui”. Segundo o professor, o massacre dos mártires tem grande relevância para a história potiguar, devido à esse fatos políticos que contextualizam a situação da época. “O fato tem muita relevância. Mas acho que mais importante que o feriado é a conscientização das pessoas sobre os fatos da história do RN”, diz. De acordo com ele, é preciso que haja mais divulgação da história local e mais exigências nos currículos escolares.
“Eu particularmente sou contra feriados, não só esse, mas todos. Porque acho que já tem feriado demais e nós precisamos estudar e trabalhar, os feriados atrapalham. Se todo fato histórico fosse virar feriado imagina só”. Kokinho acredita na possibilidade da data incentivar o turismo religioso no Estado. “Pode incentivar porque temos uma cultura religiosa”. O professor destaca a importância do Estado se preocupar em divulgar a história potiguar. “Isso sim precisa ser difundido”, afirma.
A TRIBUNA DO NORTE tentou entrar em contato com o chefe do gabinete civil do Governo do Estado, Wober Júnior, mas ele havia viajado ao interior e não pode conversar com a equipe.
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