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Natal, 29 de Julho de 2010 | Atualizado às 22:48

Falta de planejamento é maior problema do turismo potiguar

Publicação: 30 de Dezembro de 2007 às 00:00
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Junior SantosFALHA - Falta planejamento na recepção aos turistas no Rio Grande do NorteFALHA - Falta planejamento na recepção aos turistas no Rio Grande do Norte

O charter inglês está atrasado 15 horas. Não é novidade para os passageiros que esperaram pelo embarque em Londres e não deveria ser para os funcionários baseados no destino do vôo - o aeroporto Augusto Severo, em Natal. O horário de chegada já está definido faz tempo: 5 da manhã. É novembro de 2007.

A bordo, Gina Robinson, a responsável pela promoção internacional do RN da Secretaria Estadual de Turismo (Setur), já viu muita coisa em suas viagens internacionais, menos passageiros andando no sentido contrário em uma escada rolante.

É o que ela presencia na ala internacional do aeroporto em Natal, quando os passageiros se vêem órfãos de quem cuide da triagem e do desembaraço das bagagens. A escada rolante desce, os passageiros sobem, enquanto as malas giram à espera de quem as apanhe. Habituados a não abrir portas sem permissão, os estrangeiros estranham quando uma brasileira, tão passageira quanto eles, começa a dar ordens para que portas sejam abertas e funcionários se apresentem ao serviço - logo ela que nem lá trabalha.

Esta semana, ao lembrar do incidente que poderia ter produzido acidentes, Gina se perguntava: “O que seria de nós se tivéssemos de lidar com um número maior de estrangeiros?”

A escada que rola ao contrário é uma boa imagem para exemplificar as teses que, insistentemente, buscam saídas para melhorar o turismo potiguar na captação de novos pólos emissores. O exemplo citado é sempre a eficiência de muitos dos principais pontos turísticos do planeta. A diferença é que nesses países “as coisas rolam no sentido certo” (funcionam).

Uma visita esta semana à sede da Infraero, no aeroporto Augusto Severo, forneceu algumas pistas de porque aqui as coisas não funcionam em sua lógica normal.

No espaço reservado à administração do aeroporto, são dezenas de salas ociosas e 109 funcionários para os quais não se imagina tantas funções, exceto pelos 36 que cumprem escala no terminal. Ali, sabe-se que trabalho existe. 

A falta de ar condicionado funcionando, que atinge outras dependências do aeroporto, também chegou à sala do superintendente José Daniel Sobrinho, que depois do recesso de fim de ano engatou férias e só deverá retornar no fim da alta temporada, lá pelo dia 23 de janeiro. Em seu lugar, provisoriamente, o coordenador de segurança Paulo China explica que as obras de ampliação do terminal, que deverão avançar sobre o saguão ocioso onde até 2000 funcionava o antigo aeroporto, atrasaram, mas deverão ser licitadas em algum mês de 2008.

Não é grande esperança. As reformas do anexo, que ampliariam para 300 mil passageiros a capacidade de recepção anual do Augusto Severo, é promessa antiga. Já estava na pauta da Setur quando o secretário era Nelson Freire, que antecedeu Renato Garcia, que antecedeu Fernando Fernandes.

De concreto até o momento, só a revitalização dos compressores do ar condicionado, serviço pelo qual a Infraero irá desembolsar R$ 200 mil. Só este ano - para se ter uma idéia da velocidade da tomada de decisões por ali - o elevador panorâmico do saguão e as cinco escadas rolantes do terminal (instaladas em 2000) passaram a contar com contratos de manutenção, um feito que pode ser atribuído a José Daniel Sobrinho.

Gina Robinsom, a encarregada de destinos internacionais da Setur, diz que já ouviu até de policiais federais no terminal pedidos para que influísse para aumentar o contingente de agentes na aduana. O presidente do Pólo da Via Costeira, o hoteleiro Mário Barreto, diz que a gestão no terminal Augusto Severo simplesmente não existe. “Tudo por ali está sucateado”, dispara.

A razão é conjuntural e estrutural, atinge outras capitais do Nordeste e é conseqüência direta de um imobilismo crônico que o presidente da Associação Brasileira da Indústria Hoteleira no Estado, Enrico Fermi Torquato, define como ausência completa de um planejamento estratégico para o turismo.

Na última semana, entre as dores de cabeça enfrentadas pelo secretário Fernando Fernandes, estavam problemas para fechar a última das quatro pesquisas de demanda turística realizadas anualmente pela Setur a fim de medir o fluxo turístico e os capitais oriundos da presença de turistas no Rio Grande do Norte. Os levantamentos acontecem sempre em janeiro, maio, julho e novembro. Entre as fontes pesquisadas, a Ficha Nacional de Registros de Hóspedes (FNRH) e o Boletim de Ocupação Hoteleira (BOH).

“Ainda não concluímos porque muitos dos 40 hotéis, onde colhemos informações, ainda não enviaram respostas às consultas”, diz Carmem Vera de Lucena, coordenadora técnica da Secretaria.

Expectativas não são favoráveis

Apesar da verdadeira guerra de informações sobre ocupação hoteleira travada todo ano na alta temporada, é muito pouco provável que o fluxo turístico de 2008 apresente crescimento significativo em relação a 2007 que termina à zero hora desta terça-feira.

O consenso é de que dos 1,6 milhão de pessoas que embarcaram e desembarcaram em Natal este ano, pouco mais de 200 mil tenham sido estrangeiros procedentes de vários pontos da Europa e, em porções bem menores, de outros continentes.

Pelo andar da carruagem, esses números não devem se alterar em 2008, até porque não foram além da expectativa em 2006, quando o fluxo de embarques e desembarques esbarrou nos 1,4 milhão de pessoas.

São estatísticas precárias, oriundas dos controles da Infraero no terminal Augusto Severo e não refletem o grande movimento de estrangeiros que chegam ao Estado por ônibus e automóvel. Os números também não excluem os potiguares que viajam para o exterior e, ao voltarem para casa, são contabilizados como “desembarques”.

Entra ano e sai ano, não existe um sistema que junte diferentes fontes de informação para produzir um retrato confiável do real fluxo turístico no Estado e quanto de dinheiro novo os turistas nacionais e estrangeiros despejam todos os anos na economia. Sabe-se que as cifras são planetárias e os efeitos no turismo de segunda residência aquecem a construção civil, tornando o metro quadrado ao longo da costa de 400 km um dos mais valorizados do país.

Apesar disso, há anos a licitação para as obras de ampliação do aeroporto Augusto Severo estão emperradas pela burocracia e só agora a Infraero promete - para janeiro - consertar cinco compressores de ar condicionado que poderão tirar passageiros e funcionários da sauna em que poderá se transformar o terminal neste verão.

Junto com os atrasos freqüentes de aeronaves, a falta do ar condicionado domina as poucas queixas recebidas pela ouvidoria da Infraero no saguão do terminal.

Sem ônibus especiais nas portas do aeroporto, tendo que sujeitar os turistas às tarifas de táxis e aos ônibus de receptivos cujos contratos estão atrelados a pacotes, ressurge com força a idéia de um sonhado planejamento estratégico que junte interesses privados e governamentais na mesa comum de discussões sobre os destinos do turismo no Rio Grande do Norte. Especialmente agora que Natal e Tibau do Sul (leia-se a praia de Pipa) estão oficialmente inseridos na lista dos 65 destinos turísticos que mais influenciam a presença de estrangeiros no Brasil.

A descoberta fez com que o Ministério do Turismo mapeasse as necessidades de cada um desses pólos para efeito de políticas específicas.

Despachou para cá a pesquisadora Agnes Dantas, uma jornalista com várias especializações em turismo, para investigar, pela Fundação Getúlio Vargas, a real situação dos dois principais destinos turísticos do Estado. Recentemente, ela passou 15 dias cascaveando documentos e examinando até a destinação do lixo em Tibau do Sul.

O resultado de seu trabalho estará à disposição do Ministério e da Secretaria Estadual de Turismo, possivelmente já na segunda quinzena de janeiro. E deverá confirmar um diagnóstico duro: na vitrine dos destinos internacionais - especialmente depois do tsunami que devastou a Indonésia em 2004 -, o Rio Grande do Norte insiste em andar dois passos para frente e um para trás quando o assunto é fortalecer o seu turismo, responsável pelos grandes avanços da economia potiguar nas últimas duas décadas.

A alta temporada, que começou oficialmente no primeiro sábado depois das festas natalinas e encerra na última semana de janeiro, é o pico em volume de turistas desembarcando no aeroporto Augusto Severo. Nos meses seguintes, esses números oscilam para mais ou para menos, mas é agora que os negócios produzidos pelo turismo pisam no acelerador. É nesse momento que os problemas aparecem.

Por onde começar a mudança

Não é novidade, na alta temporada, que previsões sobre a ocupação hoteleira começam a circular. Em geral, são alarmistas e indicam para crises que nunca chegam a se concretizar. Com raras exceções, hotéis são mais construídos e reformados do que fechados.

O jogo de contra-informação faz parte de uma estratégia peculiar para se conseguir verbas e apoios estaduais e municipais na promoção de Natal como destino turístico. Por trás dessa guerra estão os interesses da hotelaria, que fica com 14% dos valores gerados pelo movimento de turistas.

Em 2008 não será diferente. “Não vamos conseguir resultados melhores na alta temporada”, antecipa o presidente da ABIH, Enrico Fermi. Em janeiro passado foi pior: a previsão do próprio setor chegou a indicar a “pior alta temporada dos últimos 21 anos”. Até onde se pôde perceber a partir de altas taxas de ocupação da Via Costeira, não foi bem assim.

Este ano, o presidente do Pólo da Via Costeira, Mário Barreto, autor do vaticínio, volta a sustentar tendências pessimistas e, desta vez, ampara-se não apenas na queda do câmbio - a diferença para menos entre o valor do Real em relação ao Dólar e ao Euro que retira poder de compra do estrangeiro. O repertório vai da recuperação do turismo na Indonésia, saída do tsunami de 2004, ao apagão aéreo que deixou seqüelas que não serão resolvidas - segundo ele - nem nos próximos 10 anos.

Outro problema sério, na visão desses empresários, está nos números crescentes de passageiros a bordo de navios, cujas empresas se valem de uma legislação que beneficia igualmente o transporte de passageiros e cargas. “Isso é terrível para o turismo local, pois esses navios não deixam nada para o mercado local, ganham dinheiro em seus restaurantes, cassinos e free shops e, como se não bastasse, estão isentos de todos os impostos cobrados da atividade comercial em terra”, diz Enrico Fermi.

Entre ampliar a captação de novos destinos e promover mais divulgação interna para aquecer o turismo regional - sempre com dinheiro de fundos governamentais - empresários da hotelaria dão o tom de um debate que parece não ter fim. “Precisamos reforçar nossas bases perdidas na Europa, reconquistar vôos charters”, diz Murilo Felinto, diretor-executivo da ABIH/RN. “Precisamos de planejamento estratégico, organizar as cadeias produtivas do turismo para melhorar nossa posição”, prega Enrico Fermi, presidente da mesma ABIH no Estado.

O secretário municipal de Turismo, Fernando Bezerril, olha o problema sobre outro prisma. “Enquanto se discute o turista estrangeiro numa perspectiva de novas quedas no valor das moedas internacionais frente ao Real, por que não olhar para o lado, o resto do país?”, indaga. “A alta temporada acaba enquanto - o filão do turismo de negócios, não”, raciocina o secretário.

Para Enrico Fermi, que representa a iniciativa privada, “o turismo regional simplesmente não fecha o buraco”. É o tamanho desse presumível rombo, que separa hoteleiros de um possível equilíbrio em suas contas, a maior fonte de discussões. Há quem não acredite totalmente na indústria de reclamações, baseado no fato que todos os negócios são sazonais e necessitam de gestão e inovação para crescer. É pano para léguas de manga.

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comentários

mcslva@...30/12/2007 @ 21h32
O que fazem estes "brilhantes" administradores dos orgaos públicos de turismo?. Ao lado dos secretários, escolhidos de acordo com a conveniência do Governo e que em raras ocasioes foi alguèm ligado ao trade, encontra-se uma equipe que nao se renova e que até hoje nao aprendeu a gerir os recursos disponíveis.
mcslva@...30/12/2007 @ 21h11
LAMENTÁVEL!! Nada do que está expresso nesta matéria é novidade. Faço parte deste mercado há 12 anos e os problemas sao os mesmos. A resposta é simples: Inoperância e incompetência dos "responsáveis". Administraçao Wilma...ONDE???
naudonit@...30/12/2007 @ 19h52
A cidade é sem estrutura no quesito transporte público seja local, intermunicipal, interestadual e etc. As escolas não ensinam inglês, nem português direito; a ver pelas barbaridades que vemos escritas até no comércio. Não houve progresso faz tempo, pelo contrário regresso. Salvo melhor juízo, a cultura regrediu e as pessoas passaram a pensar que dinheiro é que faz a diferença (ou o carro mais bonito e maior, coisas desse tipo). Os políticos de todas as matizes tem parte nisso, pois todo esse tempo tem alternado em esquerda/direita/outras e nada tem mudado (pelo menos para os menos favorecidos), e quem reclama não estando no poder tenta fazê-lo justamente por que não está lá, triste coisa; o povo, ah o povo! Este comentário certamente será censurado; como o anterior, mas pelo menos quem leu, sabe que é verdade, contra fatos não há argumentos.
adilson132@...30/12/2007 @ 08h13
O terminal rodoviário também não funciona o ar condicionado central, mas pagamos estacionamento após 15 minutos. Outra: os turistas que vêm de Caicó, Assu, Mossoró, Sousa e Sobral não estão tendo o mesmo tratamento "vip", tal como aquele tratamento "bajulador" concedido aos gringos que vêm de Madri, Berna, Helsinque, Roma, Lisboa e Berlim. ACORDA! RIO GRANDE DO NORTE.
camilorn@...30/12/2007 @ 08h56
esse é somente mais um engodo do governo vilma. uma secretaria de estado so pra fazer captacao de turismo para o rn e nada é feito... basta andar pelo estado e ver como nada é como prometido. turista nao gosta e nao volta
rkbrasil20@...30/12/2007 @ 10h22
A reportagem errou. Na verdade a atividade turística no RN dá "dois passos para traz e um para frente". É uma total falta de visão de médio e longo prazo; segue a linha imediatista do capital, principalmente de hotelaria.
alexandre.gouveiarn@...30/12/2007 @ 23h38
O Aeroporto já esta um forno a um bom tempo, quem trabalha nele sofre de todos o lados, da inoperancia dos orgãos competentes a ignorancia de quem utiliza terminal e desconta o estresse em cima do primeiiro que aperece. A qestão hoteleira é uma piada, essa reclamaçao eterna e improcedente de baixa ocupaçã. como bem exemplifica o artigo. A situação do turismo no RN é bem essa mesmo, uma mistura de amadorismo , oba oba e negligencia. Turismo é nvestimento continuado e foco no medio e longo prazo porém os genios que o fazem por aqui ignoram totalmente a lógica optando por um retorno de curto prazo ainda que depreciativo. Brilhante artigo, triste realidade! parabéns
manoelves@...31/12/2007 @ 07h07
Não sou formado em turismo, nem precisa, para entender que no aeroporto e em Natal, o que está precisando é: fazer uma reestruturação e treinamento de pessoal. As pesquisas mostram que um cliente descontente, conta de seu descontentamento para cinco pessoas, agora imagine isso multiplicado por cinco, é isso que vai acontecer com Natal, se as coisas não mudarem, é preciso investir pesado em treinamento e pessoal, os turista precisam ser bem atendido, em tudo para que ele volte, principalmente os europeus, americanos, japoneses,etc. É preciso entender o seguinte: Todos os que trabalham, em hoteis, aeroportos, taxi, etc. Não trabalham para o seu patrão, trabalham para si mesmo.Imagine se durante um ano não fosse a Natal nem um turista, e ninguém tomasse se quer um só avião, com certeza todos seriam DEMITIDOS DE SEUS EMPREGOS. Pensem nisso.
lucsie@...30/12/2007 @ 22h42
Senhores do meio turistico, sou engenheiro e o meu olhar é apenas de turista, logo o meu objetivo é apenas ajudar. Fiz um passeio até a serra gaucha, coisa que muitos potiguares já fizeram, e vi excelência em turismo. O RN tem muito mais coisa a mostrar para encantar seus visitantes, falta apenas uma gestão mais eficiente da questão. Coisa que temos competência e podemos fazer. Todos nós temos muito fazer: profissionais da área, políticos e população geral (como eu) que pode contribuir de forma consistente, com observações de passeios no Brasil e exterior. Não chegaremos lá de imediato, mas precisamos começar. Arregacemos as mangas e vamos ao trabalho!
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