Augusto César Bezerra
ERRO - Cúpula da segurança apresenta pedido de desculpas à família de Diego
O secretário de Segurança Pública e Defesa Social, Agripino Neto, e o comandante Geral da Polícia Militar, coronel Marcondes Pinheiro, receberam na manhã de ontem os pais do estudante Diego Coelho de Oliveira, 21 anos, morto com um tiro de fuzil, deflagrado por um PM, numa operação desastrosa ocorrida na madrugada de terça-feira, em Pium. Uma dia depois do Itep revelar que o estudante não atirou nos policiais, as autoridades fizeram um pedido formal de desculpa e afastaram o comandante do Batalhão de Parnamirim, tenente-coronel Paulo Roberto Alburquerque, e os três PMs que participaram diretamente da ocorrência.
Os três PMs da viatura 308 (nomes não revelados) foram afastados do serviço de rua, mas permanecem em atividades internas no 3º Batalhão. Ao que tudo indica, todos atiraram na direção do jovem, mas apenas um deles efetuou o disparo fatal. Fato grave, além da polícia ter matado um inocente, é que a cena do crime foi alterada para incriminar a vítima. Um revólver calibre 38 foi “plantado” na mão do jovem. Esse procedimento só foi descoberto graças ao exame residuográfico de chumbo realizado pelo Itep nas mãos da vítima e do colega dele, baleado na ação atrapalhada.
Os PMs disseram que atiraram na direção da dupla porque eles não pararam na blitz e ainda atiraram na direção dos policiais.
O secretário Agripino Neto lamentou o caso. Frente a frente com Francisco e Joana, pais de Diego, o secretário fez um pedido de desculpas. “Apurar esse crime não resolve o problema de vocês. Tudo o que a gente fizer não vai trazer a vida de de Diego de volta”, lamentou.
Agripino Neto avaliou que os policiais tomaram uma decisão errada ao atirar nos dois rapazes e garantiu que não haverá corporativismo com esses PMs. “De forma alguma. Em razão desses fatos afastamos os policiais e o comandante da área. O comandante (tenente-coronel Paulo Roberto Alburquerque) se precipitou em fazer uma declaração à imprensa. Foi inconveniente”, explicou. O tenente-coronel falou a TN que, no caso de Diego, acreditando na versão dos subordinados, a PM foi recebida a bala. Ele disse: “É legítima defesa, meu amigo. Eu atiro é na cabeça. Se os caras atiraram primeiro, eu não vou atirar como se atira em passarinho”.
O secretário explicou ainda que o tiro, de fuzil, mostra ainda que os policiais agiram com o armamento inadequado para a situação.
Para o coronel Marcondes Pinheiro, a declaração do tenente-coronel não “reflete a postura do comando”. “Ele fez juízo de valor e antecipou a conclusão dos fatos. Foi uma declaração descabida em qualquer situação”, disse. Marcondes Pinheiro disse aos pais de Diego que a ação foi “desastrosa” e “impensada”. O comandante também fez uma retratação formal em nome da PM. “Não estamos sentido a mesma dor da família, mas estamos cabisbaixos porque isso foi causado por uma ação inconseqüente”, falou aos pais de Diego.
Francisco, que é militar da reserva da Aeronáutica, disse as autoridades que a família sentiu duas dores: a perda de Diego e, depois, a mácula que recaiu sobre ele. “Esse foi um desastre para a família e todos que o cercam”, disse. Joana, ainda muito abalada, chorou quando o marido falou.
O secretário Agripino Neto encerrou a reunião lamentando a morte e garantindo rigor na apuração do caso. “O máximo que fizermos não é nada diante do que vocês estão sofrendo”, disse.
Delegado diz que tragédia poderia ter sido ainda piorDe acordo com o delegado Vanderlei Alves, que investiga a morte de Diego Coelho, em Pium, a precipitação dos PMs não foi mais desastrosa por conta do acaso. “Os outros rapazes levaram muita sorte. Poderia ter sido muito pior”, o titular da 2ª DP se refere ao fato de os outros dois amigos do universitário, que estavam em outra moto, também terem sido alvo dos disparos dos policiais.
A Polícia Civil agora quer descobrir que policial disparou o tiro contra Diego, e os que poderiam ter atingido os outros rapazes. “Temos que individualizar as responsabilidades. Cada policial será indiciada no delito que possa ter cometido”, disse o delegado Vanderlei Alves. Como um perito do Itep já confirmou à TN que o projétil retirado do corpo do estudante, é de fuzil, é importante para a Polícia Civil agora descobrir que soldado estava com a arma de grosso calibre.
“Eu tenho como saber isso. E vou solicitar o registro da saída das armas. Cada uma deve estar no nome de um policial”, esclareceu o delegado. Os PMs relataram que a operação teve início depois da denúncia de assaltos no bairro Liberdade em Parnamirim, cujos autores teriam fugido na direção de Pium. “Quero descobrir também que assalto foi esse. Deve haver um registro dele também”, disse Alves.
A TRIBUNA DO NORTE tentou mais uma vez na tarde de ontem conversar com o coronel Paulo Albuquerque, mas ele já não estava com o celular funcional. Antes de ser exonerado, ele disponibilizou as armas utilizadas pelos policiais durante a operação. O fuzil para-FAL do qual provavelmente saiu o tiro que matou Diego, cinco pistolas .40 e um revólver 38 já entregues ao delegado do caso e repassadas ao Itep.
Uma peça chave para o caso é o pedreiro Luciano. Ele se recupera bem dos tiros que levou nas costas e no braço, mas ainda não há previsão de alta. “Estuo programando para ouví-lo assim que sair do hospital”, revelou o delegado, que pretende ouvir também os seis policiais que estavam na operação. Antes disso, ele quer ter em mãos os laudos que faltam ser concluídos, como o cadavérico, balística e uso recente das armas de fogo.
Vítimas cobram mudanças no uso de armasNa reunião realizada na manhã de ontem, também participaram o coordenador de Direitos Humanos da Secretaria de Justiça e Cidadania, Marcos Dionísio, e os familiares de quatro vítimas de outros casos de violência cometidos por policiais. Eles cobraram que a polícia regulamente o uso da arma de fogo. “Essa regulamentação não pode ser um pedaço de papel. Tem que ser inserida no dia-a-dia do policial”, falou Marcos Dionísio.
O defensor dos direitos humanos citou vários casos de inocentes mortos por policiais de serviço e de folga. “Dehom, Chintia, Carlito, Charles e Diego são somente algumas vítimas do despreparo profissional e emocional de policiais que estão vestindo a farda da polícia do RN”, disse.
Ele analisa que falhas na formação e no monitoramento dos policiais tem contribuído para mortes de inocentes em ações da polícia. “É preciso a imediata discussão sobre a regulamentação do uso da força e da arma de fogo por parte dos nossos policias. Nosso estado não tem essa regulamentação”, falou. Ele disse que, ao contrário do que dizem as autoridades, esse tipo de crime não é incomum. “Esse caso de Diego vem enfileirado por outros”, argumentou.
Moto pilotada por Diego foi periciada pela segunda vezA motocicleta Honda de placas NNK-3346, utilizada por Diego no momento em que foi morto está na 2ª DP de Parnamirim, e foi periciada ontem pela segunda vez. Na primeira ocasião os peritos do Itep verificaram o veículo ainda no local do fato. Na tarde de ontem, ela foi examinada com mais precisão, e partes de tecidos humanos foram encontrados.
Além de Diego, estava na moto, Luciano Cruz, de 24 anos, que foi atingido com dois tiros e está hospitalizado em Parnamirim. A perícia nas condições da moto poderá esclarecer um outro fato relatado pelo garoto que sobreviveu aos tiros: os policiais teriam atirado depois que a moto estava parada. A motocicleta está praticamente intacta, segundo inclusive, opinião do delegado. A única peça que está danificada é o estribo direito do piloto, peça que serve para o repouso dos pés.
PositivoSaiu no final da tarde de ontem os resultados dos exames de presença de chumbo nas mãos dos dois amigos de Diego que estavam na outra moto. Em Ivanês de Oliveira, o resultado foi positivo. Já em Luiz Carlos dos Santos, negativo. Os dois jovens foram abordados pelos policiais separados de Diego, e foram liberados após o fato.