Michelle Ferret - Repórter
"O carnaval é uma indústria". Assim a cantora Margareth Menezes descreve o carnaval - e por sua vez o Carnatal - e diz não se incomodar com isso. Longe das cordas amarradas dos blocos que valem ouro e de um turbilhão de inutilidades que cobrem o axé music, Margareth diz não se deixar levar pela maré. Para ela, "tudo é uma questão de opção". E vai além. Mesmo estando em cima de um trio, ela consegue transcender a realidade estreita dos blocos e faz dos trios que participa um universo a parte de toda essa estranheza. Ela traz aos ouvidos dos foliões a chamada música Afropop misturando música de origem africana (com suas divisões rítmicas diferentes da música brasileira) junto a diferentes ritmos da música como funk, rock e música eletrônica.
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Atração do bloco Cidadão Nota 10, Margareth Menezes traz em sua trajetória o garimpo de um repertório que reúne música africana com música contemporânea brasileira e mundial
Mesmo acabando de gravar um disco e um dvd intitulado "naturalmente", quando afina em sua voz composições e parcerias com Nando Reis, Chico César e Roberto Mendes, Margareth trará para a avenida canções antigas de sua carreira e outras que estão mais próximas das pessoas através de novelas. Claro, tudo com roupagem diferente. "Vou tocar canções como Chamada de Caboclo e músicas que compõem meu universo, junto a sambas e reggaes. O disco não tem muita vez na avenida pois é uma concepção diferente da proposta do Carnatal", contou a cantora ao VIVER por telefone enquanto se dirigia para uma passagem de som no Circo Voador do Rio de Janeiro.
Sim, Margareth é muito requisitada em todos os estados brasileiros e nesses últimos 22 anos de carreira, ela participou de 15 turnês internacionais, o que a fez percorrer todos os continentes, e 11 trabalhos lançados. Percorreu mundos em 1991 com David Barner, sendo reconhecida em Nova Iorque. Foi premiada com o Troféu Imprensa de melhor cantora, ganhou DVD de Ouro, de Platina, foi indicada ao Grammy Latino e se tornou musa em países da Europa, no Japão e nos Estados Unidos, onde lançou alguns de seus álbuns.
Com todas essas viagens, ela carrega em sua bagagem íntima muitas leituras e acredita ser a literatura a melhora maneira de viajar pelos mundos internos e externos. "Gosto muito do Gabriel Garcia Márquez, João Ubaldo Ribeiro e livros de ficção, mas tenho verdadeira admiração pela poesia de Cecilia Meireles, Oswaldo de Andrade e Carlos Drummond", contou.
Sua percepção sobre o mundo com o desamarrar dos pensamentos, vem também em suas atitudes sobre as questões sociais. Para ela, tocar no bloco Cidadão Nota 10 é uma maneira de tornar acessível uma brincadeira que surgiu nas ruas livremente. "Eu gosto de fazer o trio do povo e participar desse evento dessa maneira com o cidadão é ter a certeza de um cunho social, onde todos podem participar", disse.
À frente de movimentos em Salvador, ela diz ser importante o bloco Yle Ayê liberar para os foliões brancos. "É um direito do Yle Ayê. Eu acho uma coisa muito legal por ampliar o bloco e de sobra tira a ideia de ser um bloco racista e cultural. E eles sabem preservar o direito disso, terem acesso a educação, ao respeito, a luta pelos direitos humanos e isso é maravilhoso. A cor da pele realmente não é a coisa mais importante".
Sem abandonar as questões polêmicas e com o ouvido antenado no que está sendo produzido no Brasil, Margareth diz estar ouvindo e gostando muito do disco novo do Arnaldo Antunes, "é muito bom", Vanessa da Mata e Erasmo Carlos. "Tem muita coisa boa sendo produzida no Brasil. É um momento fértil que a gente precisa acompanhar".
ServiçoO Bloco Cidadão Nota 10 sai pelo sexto ano consecutivo. Hoje é a vez do bloco Cavaleiros Elétrico a partir das 20h. Para encerrar a participação do Bloco na avenida, amanhã, Margareth Menezes, que está prevista para começar a tocar as 19h30 (quinto bloco). Confira a programação completa no caderno FIM DE SEMANA.