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Natal, 11 de Fevereiro de 2012 | Atualizado às 14:45

A luz, o mar e o amanhã

Publicação: 16 de Agosto de 2009 às 00:00
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Cláudio Emerenciano - Professor da UFRN

A presença imutável da luz e a influência do mar na vida dos povos. Circunstâncias que moldam e fecundam civilizações. Desde a aurora dos tempos. Em todos os sentidos e aspectos inesgotáveis. Especialmente no comportamento das pessoas. É o que nos ensina, misturando prosa e verso, Victor Hugo, em "Trabalhadores do Mar". Também Axel Munthe em "O livro de San Michele". As coisas da vida se descortinando na perspectiva do infinito. Renovando-se em belezas sem fim. A essência da majestade e do encantamento da vida. O eterno poema da harmonia, do amor e da paz. Muitíssimo antes deles, Homero desvendou mistérios, mitologias, paixões, sonhos, valores, percepções e criatividade dos gregos na "Ilíada" e na "Odisséia". Fontes da civilização ocidental, que se expandiram em desdobramentos épicos e líricos na "Eneida" de Virgílio e nas "Metamorfoses" de Ovídio. Os versos de Petrarca, Abelardo e Dante dissiparam as trevas do obscurantismo medieval. Arremeteram de novo as civilizações ocidentais para o humanismo e seus compromissos milenares. Reencontro com a luz. Mas, aqui e ali, irrompem retrocessos, violências, estupidez, selvagerias que, circunstancialmente, degradam a condição humana. Periodicamente histeria, fanatismo, prepotência, mediocridade, intolerância, cinismo, hipocrisia, mentira, privilégios, insensibilidade, indiferença, interesses espúrios, injustiça, escamoteação da verdade, da ética e da moral, parecem predominar por algum tempo. Mas a luz persevera. Inexoravelmente se restaura e erradica a escuridão. O gênero humano sempre retoma seus verdadeiros caminhos. O gênio de André Malraux simplificou magistralmente o triunfo da luz: "A voz da luz se faz ouvir no silêncio da consciência de cada homem". 

A perplexidade dos nossos dias, no mundo e, em particular, no Brasil, não intimida, não abate, nem desvirtua os mais preciosos sonhos dos brasileiros. Nesse sentido, como outros povos e civilizações, temos vinculações universais, como se do mar recebêssemos estímulos para desafiar o desconhecido. É o legado milenar de Ulisses (na "Odisséia"). Por isso Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar no solo lunar, comparou-se ao mítico herói de Homero. Essa é a aventura sem fim do homem...     

    Mas não seria preciso ir tão longe. Jorge Amado, em quase toda sua obra, exalta elementos telúricos que fazem da Bahia uma espécie de "paraíso tropical". Onde a nacionalidade brasileira, como dizia comovedoramente Tancredo Neves, misto de político e de filósofo, renova-se pela autenticidade e vigor de sua concepção de vida. Sim! A Bahia do litoral tem uma forma de vida incomparável. Que influencia a maneira de ser das pessoas em outras regiões do país. Aqui, em Natal, o mar, o rio e as dunas também sugestionam o ser das pessoas. Todos, sem exceção, impregnam-se daquela sensibilidade universal que Chateaubriand tanto cantou em "Atala".  Reconhecimento de valores da americanidade já em pleno século XVIII. A partir daí não se exauriram as incursões literárias sobre o assunto. Sobretudo de latino-americanos: Octávio Paz, Jorge Luiz Borges, Pablo Neruda, Gabriel Garcia Márquez, Miguel Angel Astúrias, Vinicius de Morais, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Josué Montello, Mário Vargas Llosa, Ramón Del Valle-Inclán, Gilberto Freyre, Câmara Cascudo, Vianna Moog, Érico Veríssimo, entre tantos outros, intérpretes de um estado de espírito que define uma concepção do mundo e da vida. Pouco importa a dicotomia, o fosso, a distância abissal entre o que a sociedade pensa, quer, aspira, e o que contingentes apreciáveis, senão majoritários, da classe política, fazem e buscam.

Eis a tragédia dos nossos dias em dimensão nacional e continental. Esses políticos ignoram o mundo, suas transformações, seus valores, seus sonhos. Vivem como caramujos. De si para si. Seu viver é retrógrado. Emerge e depende do poder, do fisiologismo, do tráfico de interesses, da corrupção e da impunidade. Nesse caso, a voz da luz proclama como Júlio César: "Alea jacta est" (a sorte está lançada)...  


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