A poesia libérrima de Marize Castro
Publicação: 22 de Novembro de 2009 às 00:00
Nelson Patriota - Escritor
Inútil buscar as raízes da poesia de Marize Castro em alguma das inúmeras escolas poéticas modernas ou contemporâneas. A poesia que ela escreve desde sempre e cujo percurso começou com a publicação, em 1984, de marrons crepons marfins, de sugestivo título simbolista, não é suscetível de qualquer compromisso poético afora aquele que dita sua própria fabulação. De certa forma, trata-se de uma poesia "pétrea", que se alimenta de sua própria substancia interior de onde extrai um inesgotável repertório de variações. Libérrima, portanto.
Dizer que certa poesia está destinada à forma que apresenta em suas origens não é um julgamento de valor, é uma constatação. Dito de outra forma, a poesia de Marize Castro é um monólogo interior que raramente faz concessões ao diálogo. Marize dialoga com Marize, e a natureza desse monólogo é tão poética que parece inesgotável. Dizer que já resultou em mais três livros, o último dos quais responde pelo nome de Lábios-espelhos, seria incorrer no lugar-comum.
Estamos então diante de mais outro monólogo ao estilo Marize? Sem dúvida. A máxima concessão que ela permite é a presença de um interlocutor não nomeado, sem rosto, certamente não assexuado, cuja palavra raramente se torna audível devido à quase onipresença da voz autoral, com suas metáforas impactantes e seu vocabulário de natureza familiar.
Por essa razão, a poesia de Marize é sempre tão confessional. Proteu em versão feminil, a poetisa está sempre em curso - trocando de pele, mudando de forma, recambiando desejos e afetos, descartando amores vencidos, olhando por trás dos umbrais de um sonho desgarrado em trânsito. É por isso também que há tantas pistas deixadas para trás nos seus poemas. Pistas tênues, é verdade, e que logo se apagam se não as aproveitarmos de imediato.
Por trás de tudo, há um princípio poético, finalmente desvelado em Lábios-espelhos, raro momento de inflexão da poetisa sobre o seu fazer poético. É o poema "A Poesia", escrito sob a forma de dísticos comparativos entre a Poesia e a vida. Note-se que Poesia é sempre maiúscula, a vida, minúscula, o que já indica um parti pris, uma opção apriorística pela primeira. Ideal romântico da arte pela arte? No fundo, trata-se mesmo disso. Os dois primeiros dísticos afirmam claramente:
A poesia deve ser clara, leve
nada, tudo, alada.
A vida já é tão pesada
farsa, fétida, horror.
Os seis dísticos que se seguem só fazem aprofundar as diferenças e vantagens da Poesia sobre a vida e iluminam muitos poemas "enigmáticos" de Marize, traço, aliás, que funciona como uma espécie de marca d'água da nossa poesia feminina contemporânea. Como artifício poético, porém, produz efeitos muito positivos, haja vista que muito do encanto da poesia reside em seu mistério, ou melhor, naquilo que o poema - obra aberta por excelência, naquele sentido que lhe dá Umberto Eco - sugere.
Em Marize, porém, esse traço é mais distinguível. Não raro, temos a impressão de vê-la escrevendo de um tempo e de um espaço recuados, última remanescente de um Big Bang final, recolhendo os escombros de um passado distante, porque confiante num novo começo de tudo.
Mesmo isso, ou especialmente isso, é parte constitutiva do efeito encantatório que a poesia é capaz de sugerir. Dentro desse parâmetro, então, deparamos com o paradoxo de que a poesia de Marize Castro está num perpétuo renovo.