A vida em outra sintonia

Publicação: 24 de Março de 2013 às 00:00

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Neson Mattos Filho - avoante1@gmail.com

Quando saímos de Natal/RN em janeiro de 2013 foi com a intenção de levar o Avoante a mares brasileiros um pouco mais distantes do que os que banham a Bahia do Senhor do Bonfim. Já havíamos conhecido muito do potencial navegável da Baía de Todos os Santos e Baía de Camamu e achamos que era chegada a hora de ir um pouco mais a frente. Afinal, esse era o planejamento quando do início de nossa vida a bordo: conhecer o litoral brasileiro de ponta a ponta.
DivulgaçãoCoroa do Limo, em frente à Ilha de ItaparicaCoroa do Limo, em frente à Ilha de Itaparica

Ao chegar novamente a Bahia à vida começou a entrar naquela malemolência bem baiana e a ideia inicial foi tentando escapar diante da alegria de estarmos navegando naquelas águas mornas, tranquilas e convidativas. É difícil sair da Bahia quando se tem muitos amigos e a cada ancoragem vamos acrescentando mais. A turma tem um poder de persuasão que só vendo.

Um dia chegava um convite para um aniversário em plena Coroa do Limo, em frente à Ilha de Itaparica, festa que merece um bom comentário. No outro mais um convite para uma feijoada de nove dias no Aratu Iate Clube. Mais um convite de café, cerveja, almoço, cerveja, jantar e cerveja a bordo do veleiro de outro grande amigo. Mais um convite para conhecer uma ancoragem especial, mais outra e mais outra. Assim o tempo vai passando e assim é a vida de quem adora essa vida de morador de veleiro. O tempo se vai e a gente vai ficando mais um pouquinho.

Mas e o aniversário na Coroa do Limo? Bem, esse foi para entrar nos anais da história náutica baiana. A Coroa do Limo é um grande banco de areia que descobre na maré baixa em frente à Marina de Itaparica e que é a prainha do velejador. Um amigo resolveu comemorar o aniversário ali, mas a festa tinha que durar o tempo que durasse a maré baixa. No comecinho da manhã armaram duas tendas, chegou uma baiana com o tradicional tabuleiro de acarajé, um churrasqueiro, uma panela de feijoada, uma mesa para caipirinhas e várias caixas com cervejas geladas. Pronto, estava armada a festa!

Os convidados foram chegando, mas antes do meio dia a maré já apresentava sinais de subida, porém ninguém dava bolas para ela. Quando as águas começaram a molhar os pés da baiana do acarajé, que não sabia nadar, colocaram a coitada, com tabuleiro e tudo, a bordo de um barco e assim foi garantido o acarajé. O churrasqueiro ainda tentou resistir mais a água já ameaçava inundar a churrasqueira. Ele também foi parar em cima do barco. A panela da feijoada tomou o mesmo rumo, junto com a mesa de caipirinhas, mas as caixas de cervejas, que boiavam, sempre tinha alguém para segurar.

As tendas e as cadeiras foram retiradas quando a água chegou próximo ao teto, mas mesmo assim, teve gente que resistiu bravamente, sentado com a água batendo no pescoço. Mas não pensem que a festa acabou ai. Como a cerveja não havia acabado e maré foi perdendo a força, a turma foi resistindo e somente abandonou o local quando a Lua já estava presente no céu, a Coroa já estava aparecendo novamente e não restava uma lata de cerveja para a saideira. No rescaldo da festa, não se via nenhuma sujeira no local e nem nas proximidades, pois assim dita a cartilha ambiental do velejador.

Por essas e outras é que o tempo passa e a gente nem vai percebendo, e numa bela tarde de sol recebo uma ligação do amigo Rui Talaia, comandante do veleiro Naumi, que havíamos levado de Natal a Salvador no finalzinho de Dezembro de 2012, perguntando se poderíamos levar o Naumi para o Rio de Janeiro. Lógico que sim! Respondi de pronto. Mas e o Avoante? Não era com ele pretendíamos ir para o Rio? Vamos deixar ele aonde?

 Num segundo tudo foi pensado, resolvido e na semana seguinte embarcamos no Naumi com destino ao Rio de Janeiro. Era dia primeiro de março, Sexta-Feira, quando largamos as amarras da Ilha de Itaparica e tomamos o rumo de Camamu, nosso primeiro local de parada. Não pretendíamos ir em rumo batido para o Rio de Janeiro, já que iríamos, queríamos conhecer alguns locais como Santo André, Ilhéus, Abrolhos e Vitória. Camamu era primordial, pois temos um carinho todo especial por aquele lugarzinho mágico, além de poder rever e abraçar nossas velhas amigas Aurora e Onília, duas irmãs que são a cara e o jeito de todas aquelas belezas.

O Avoante vai continuar com as marcas de dendê temperando o seu casco e descansando nas águas abrigadas do Aratu Iate Clube. Tá duro ele sair da Bahia, mas para quem estar nessa vida de velejador de cruzeiro, a vida e o tempo tem outros sentidos. Um dia ele chega e quem sabe esse dia chegue mais rápido do que a gente pensa.

A Baía de Camamu continua bela e encantada. A Ilha de Campinho continua envolvida na penumbra da tranquilidade e Dona Aurora é só alegria. Viva a vida!



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