Brasília (AE) - Em pronunciamento de menos de dois minutos, o governador do Distrito Federal (DF), José Roberto Arruda, acusado de comandar um esquema de corrupção, anunciou ontem o desligamento do Democratas (DEM) e sua desistência da vida pública. O governador disse que não disputará mais nenhuma eleição para cargo público, mas garantiu que permanecerá à frente do governo do DF. Arruda se dedicará, a partir de agora, "inteiramente à administração pública" local e "a trabalhar por Brasília".
Renato Araújo/ABr
José Roberto Arruda avisa que não disputará nenhum cargo público depois de cumprir o atual mandato
Acusado de comandar um esquema de arrecadação e distribuição de propinas para aliados, o governador do DF prometeu ainda "lutar pela mudança definitiva de certos usos e costumes da política brasileira". Diante da decisão, o presidente nacional do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), cancelou uma reunião da Executiva Nacional do partido que decidiria se mantém ou expulsa o governador da sigla. O encontro aconteceria na manhã de hoje.
Próximo a Arruda, Rodrigo Maia disse que a atitude do governador "evita a votação que seria muito dura para todos, tanto para o governador como para o partido". "Acho que ele sabia que a votação de amanhã seria favorável à expulsão dele", acrescentou o deputado federal.
Arruda fez o rápido pronunciamento em uma sala da residência oficial de Águas Claras. Aos jornalistas presentes não foi permitido fazer perguntas. Em sua defesa, ele afirmou que foram "uma farsa" as denúncias de que recebeu propinas - mostradas em vídeos gravados com autorização da Justiça. "Foi uma farsa utilizada por meus adversários para me tirar da disputa de 2010", afirmou o governador, referindo-se à possibilidade de disputar um segundo mandato.
"Agora, vou me dedicar inteiramente à administração pública, me dedicar a trabalhar por Brasília e para defender minha honra", declarou o governador. Ao acusar os adversários de tentarem impedir sua candidatura a reeleição, ele afirmou: "Tudo porque pesquisas me davam ampla vantagem."
Arruda se declarou ainda "vítima de óbvias motivações políticas, de fatos ocorridos há mais de três anos que foram embaralhados. E o fato de cortar despesas contrariou interesses políticos, empresariais e pessoais, que hoje se voltam contra nós."
Sobre a situação do vice-governador Paulo Octávio, também citado no inquérito da operação Caixa de Pandora, da Policia Federal, Rodrigo Maia disse que o DEM decidirá um caso de cada vez. Segundo ele, "agora é o momento apenas de encerrar o caso do governador". "Talvez o caso mais grave do nosso partido", completou.
Situação do vice é diferente, afirma presidente do DEM Brasília (AE) - Ao comentar a desfiliação do governador José Roberto Arruda, o presidente nacional do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), disse, que o caso do vice-governador do Distrito Federal, Paulo Octávio, é diferente. Arruda é acusado, em inquérito da Operação Caixa de Pandora, de ser chefe de um esquema de arrecadação de propina. Paulo Octávio também é citado no inquérito como um dos beneficiários do esquema.
"Acho que as situações são diferentes e devem ser avaliadas de forma diferente. A diferença é que o vice-governador Paulo Octávio não tem situação igual à do governador do Distrito Federal, que tem um diálogo e tem um vídeo recebendo recursos", disse Maia.
O líder do DEM no Senado, José Agripino Maia (RN), também minimizou a situação do vice-governador do partido. "O vice-governador está mencionado (no inquérito) como está mencionado o presidente da Câmara, Michel Temer. Precisamos ter paciência para que as investigações (do partido) se processem na medida em que avancem as investigações (da Justiça)", disse Agripino Maia para ressaltar que o caso de Paulo Octávio e do presidente da Câmara Legislativa, Leonardo Prudente, também do DEM, será decidido pelo diretório regional do DEM em Brasília.
"Se a (representação) regional não fizer, aí a nacional fará", ponderou. Michel Temer é citado em diálogos do ex-secretário de Relações Institucionais do governo do Distrito Federal, Durval Barbosa, pivô do escândalo no Distrito Federal. Temer nega envolvimento no esquem
O deputado Ronaldo Caiado (GO), líder do partido na Câmara, disse, também durante a entrevista, que o partido deve resolver "uma etapa de cada vez". "O DEM desfiliou seu único governador. O partido tem credibilidade para fiscalizar a vida de qualquer outro filiado", disse.
Manifestantes são agredidos em ato contra Arruda Brasília (AE) - Em menos de 48 horas de ações nas ruas da capital, os integrantes do movimento que pede o afastamento do governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, contabilizaram como vitória do grupo a série de imagens da cavalaria da Polícia Militar avançando em 2,5 mil manifestantes na manhã de quarta-feira, no Eixo Monumental.
Um dos manifestantes que aparecem nas fotografias debaixo de cavalos, o publicitário Thiago Ávila, 23 anos, disse que a imagem assustou seus pais, funcionários públicos que vivem em um bairro nobre da capital. Ao mesmo tempo, avaliou Thiago, a cena mostrou a "truculência" da polícia de Arruda. "Todos viram que a polícia não respeita o Estado democrático de direito e a liberdade das pessoas de protestar", afirmou. "A indignação das ruas vai resultar no impeachment do governador."
Thiago salientou que, desde o início, os integrantes do grupo tentam se afastar do rótulo de movimento estudantil. "A estratégia agora é o movimento crescer, deixar de ser um movimento estudantil para virar um movimento de rua", afirmou.
Formado em uma faculdade privada de Brasília, Thiago é militante de movimentos sociais. Meses antes do escândalo do mensalão do DEM de Brasília, ele e outros jovens promoveram na invasão da Estrutural, um dos currais eleitorais de Arruda, um julgamento do governador. Arruda foi "condenado" a 50 anos de cadeia e pagamento de indenizações aos moradores. Outro que aparece em fotos debaixo dos cavalos, o radialista João Batista Oliveira Filho, 51 anos, disse que fazia a cobertura da manifestação pela rádio comunitária Utopia, de Planaltina, cidade do Distrito Federal.
Veja a íntegra do pronunciamento feito pelo governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda:"Para enfrentar esse desafio e garantir a conclusão de todas as obras, tomo a difícil decisão de deixar a vida partidária, desligando-me neste momento do Partido Democratas. Não disputarei a eleição do próximo ano. Repito: não disputarei a eleição do próximo ano. Quero dedicar-me inteiramente à tarefa de cumprir, como governador, todos os compromissos e metas assumidos no programa de governo. Como cidadão, vou lutar pela mudança definitiva de certos usos e costumes da política brasileira. Com as atuais regras, não disputarei mais nenhuma eleição".