São tantos poetas e tantas comemorações que pensei começar a coluna citando Drummond: “O poeta municipal / discute com o poeta estadual / qual deles é capaz de bater no poeta federal // Enquanto isso o poeta federal / tira ouro do nariz.” Natal, por exemplo, faz festas para celebrar a Poesia nos três níveis. Tem na Capitania das Artes (municipal), tem no Palácio Potengi (estadual) e tem na UFRN (federal). Sem contar com as celebrações no Beco da Lama e seus afluentes. No final da monarquia (ou seria no começo da República?) corria célere, entre a Ribeira e o Baldo, passando pelo Passo da Pátria, a seguinte quadrinha: “Rio Grande do Norte / capital Natal / em cada esquina um poeta / em cada rua um jornal”. Portanto, haja festa. Viva a Poesia!
Se a Unesco fizesse um censo por estas bandas tropicais constataria que Natal é a cidade do mundo que tem mais poeta por metro quadrado. Bem mais que Macau tem de folião: dois por metro quadrado. Incrível o carnaval de Macau! Com relação ao recenseamento dos poetas potiguares, não incluo os blogueiros. Antigamente havia o poeta de mimeógrafo, a poesia mimeografada, a grana não dava para chegar ao livro. Hoje eles poetam nas ondas da internet. Cada poeta, um saite, um blogue, rimando (ou não) no tuíte. Aqui e acolá trocam elogios mútuos. Nos botecos, metem o pau.
Bom, mas viva a Poesia, é o que interessa. Viva, por exemplo, o poeta Thiago de Mello, 87 anos, que veio do Amazonas para ser homenageado hoje em Natal, festa marcada para as 10 horas, na Pinacoteca (Palácio Potengi). Pego na estante, que ainda está de pé, o seu livro Faz escuro mas eu canto, edição de 1965, da Civilização Brasileira (Rio de Janeiro), que tem orelhas assinadas por Otto Maria Carpeaux que, às folhas tantas, afirmou: “Foi o primeiro grande poeta que o Amazonas deu ao Brasil: terra nova, criando uma poesia nova. Do escuro das selvas tropicais veio um raio de luz que nos restabeleceu a visão do mundo, os contornos verdadeiros das coisas e das almas”.
Mas têm os poetas daqui. Citarei alguns com o receio danado do esquecimento (principalmente dos vivos, que poderão – um ou outro – não responder meu cumprimento na escada rolante do shopingue) que já faz parte das falhas da memória. Com eles, homenageio a poesia da aldeia. Começo por Zila Mamede, que um dia se foi entre as águas do mar e do rio: “Quero abraçar, na fuga, o pensamento/da brisa, das areias, dos sargaços;/quero partir levando nos meus braços/a paisagem que bebo no momento”.
Na Rua Vigário Bartolomeu, ouço Jorge Fernandes: “A luz elétrica do meu tempo/Vinha com a lua-cheia.../Cantavam dentro de mim/Todos os trovadores do passado...”. Na calçada da Sorveteria Cruzeiro está Newton Navarro: “No aço da tarde/A aranha,/Arma um contraste suave/Entre uma folha e a rosa”. Cruzo na Doutor Barata com José Bezerra Gomes: “As ruas estão repletas, Senhor,/repletas de Manelões,/seres cotidianos,/criaturas pluralizadas,/com total embrutecimento,/absoluta carência de verve. // Senhor, amanuelaram o mundo,/compadecei-vos Senhor, do vate/ de João, Pedro e Paulo, Senhor.” Tardinha, vejo Luís Carlos Guimarães, saindo do Granada: “Na praça há um carrossel/tão bonito que dá vontade/de ser menino.”
A poesia continua com Sanderson Negreiros: “Tardo, o trem. Sempre chegava tarde. / Esperava-o, atento / em minha angústia. / Nos vagões vinha o silêncio / e a vida.” De Adriano de Souza: “A língua mixa do sertão / esmerila a consoante rascante / conforma-a ao veludo de vogais/ incultas / como as do vento em ondas/ sobre palmas e canas // míngua a flor / em fulô / em flô”. Numa mesa ao lado, Alex Nascimento: “Escreva, amor, ao menos uma linha, / O trem, que é de ferro, anda em duas, / Levando nos vagões saudades suas, / Trazendo no vagar a dor que é minha.” De repente, ouve-se Nei Leandro de Castro: “Sei. / Concentras no teu sexo / o leite, o sal, o mel / que há na framboesa silvestre / do teu beijo.” Paulo de Tarso Correia de Melo vem e se abanca: “Sol, o dourado jardim dos teus cabelos / começa a flamejar / sobre o milho // E já as espigas / se põem a secar / por ter alento. // Acerta-nos a porta de teus olhos,/ chuva bendita.” Dos sertões de Limoeiro, ouve-se a voz distante de Talis Andrade: “Na porteira da fazenda / rangiam velhos fantasmas / das mais longínquas terras / do território da infância /lugar obscuro donde o boi-/da-cara-preta vinha pisar / os meus sonhos de criança”.
E têm as meninas. Diva Cunha: “Bates a minha porta/ com os punhos cerrados // abro-te as pernas / riso escancarado // somos assim: / a casa e o pomar / a lua e o jardim”. Vem Carmem Vasconcelos: “A solidão é uma cor que inunda as frestas e me / ilumina. / Uma cor branca. / Rebentam cânticos dos meus dedos.” Chega Ana de Santana: “Esta cidade deserto / abriga olhares / como lençóis em varais noturnos”. Iracema Macedo sussurra: “Em meu ninho longínquo / inicio ventos / invento cios / canto e danço em volta do fogo / transformo meu leito em vinho / e ofereço meu corpo para os lobos.” E de Marize Castro, que nos deixou e foi morar em Dublin: “O sax que toca distante quer proximidade / virgem e manca guardo sob a pele / certezas de antigas serras / digo não a tudo que é prisão / digo sim a tudo que é flor / e risco / silente aguardo o sinal”.
O Instituto
Amanhã tem a posse da nova diretoria do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, a mais antiga instituição cultural do Estado, nas vésperas (dia 29) de completar 109 anos. O novo presidente é o acadêmico Valério Mesquita. Solenidade marcada para as 19h30, no auditório da Academia Norte-Riograndense de Letras.
Da palma
O professor Marcelo de Andrade Ferreira, da Universidade Rural de Pernambuco, ministra hoje a aula inaugural do Curso de Pós-Graduação em Produção Animal, da Escola Agrícola de Jundiaí, da UFRN (Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias). Falará sofre “Palma forrageira para ruminantes”, a partir das 14 horas.
Chuva
Dois dias seguidos sem chuva no Rio Grande do Norte. Em nenhum roçado ou cercado. No Ceará, muito fraco também. O mundo agora de olho no dia de São José, 19.
Cinema
Dodora Guedes mandando dizer que amanhã, pelas 19 horas, é dia do projeto Cine-Solar, dobradinha do Solar Bela Vista (Sesi-RN) com o Cine Clube de Natal. Na tela, Lutero, de Eric Till. Logo em seguida haverá um debate mediado por Orivaldo Pimentel Lopes Júnior, do Departamento de Ciências Sociais da UFRN.
Se a Unesco fizesse um censo por estas bandas tropicais constataria que Natal é a cidade do mundo que tem mais poeta por metro quadrado. Bem mais que Macau tem de folião: dois por metro quadrado. Incrível o carnaval de Macau! Com relação ao recenseamento dos poetas potiguares, não incluo os blogueiros. Antigamente havia o poeta de mimeógrafo, a poesia mimeografada, a grana não dava para chegar ao livro. Hoje eles poetam nas ondas da internet. Cada poeta, um saite, um blogue, rimando (ou não) no tuíte. Aqui e acolá trocam elogios mútuos. Nos botecos, metem o pau.
Bom, mas viva a Poesia, é o que interessa. Viva, por exemplo, o poeta Thiago de Mello, 87 anos, que veio do Amazonas para ser homenageado hoje em Natal, festa marcada para as 10 horas, na Pinacoteca (Palácio Potengi). Pego na estante, que ainda está de pé, o seu livro Faz escuro mas eu canto, edição de 1965, da Civilização Brasileira (Rio de Janeiro), que tem orelhas assinadas por Otto Maria Carpeaux que, às folhas tantas, afirmou: “Foi o primeiro grande poeta que o Amazonas deu ao Brasil: terra nova, criando uma poesia nova. Do escuro das selvas tropicais veio um raio de luz que nos restabeleceu a visão do mundo, os contornos verdadeiros das coisas e das almas”.
Mas têm os poetas daqui. Citarei alguns com o receio danado do esquecimento (principalmente dos vivos, que poderão – um ou outro – não responder meu cumprimento na escada rolante do shopingue) que já faz parte das falhas da memória. Com eles, homenageio a poesia da aldeia. Começo por Zila Mamede, que um dia se foi entre as águas do mar e do rio: “Quero abraçar, na fuga, o pensamento/da brisa, das areias, dos sargaços;/quero partir levando nos meus braços/a paisagem que bebo no momento”.
Na Rua Vigário Bartolomeu, ouço Jorge Fernandes: “A luz elétrica do meu tempo/Vinha com a lua-cheia.../Cantavam dentro de mim/Todos os trovadores do passado...”. Na calçada da Sorveteria Cruzeiro está Newton Navarro: “No aço da tarde/A aranha,/Arma um contraste suave/Entre uma folha e a rosa”. Cruzo na Doutor Barata com José Bezerra Gomes: “As ruas estão repletas, Senhor,/repletas de Manelões,/seres cotidianos,/criaturas pluralizadas,/com total embrutecimento,/absoluta carência de verve. // Senhor, amanuelaram o mundo,/compadecei-vos Senhor, do vate/ de João, Pedro e Paulo, Senhor.” Tardinha, vejo Luís Carlos Guimarães, saindo do Granada: “Na praça há um carrossel/tão bonito que dá vontade/de ser menino.”
A poesia continua com Sanderson Negreiros: “Tardo, o trem. Sempre chegava tarde. / Esperava-o, atento / em minha angústia. / Nos vagões vinha o silêncio / e a vida.” De Adriano de Souza: “A língua mixa do sertão / esmerila a consoante rascante / conforma-a ao veludo de vogais/ incultas / como as do vento em ondas/ sobre palmas e canas // míngua a flor / em fulô / em flô”. Numa mesa ao lado, Alex Nascimento: “Escreva, amor, ao menos uma linha, / O trem, que é de ferro, anda em duas, / Levando nos vagões saudades suas, / Trazendo no vagar a dor que é minha.” De repente, ouve-se Nei Leandro de Castro: “Sei. / Concentras no teu sexo / o leite, o sal, o mel / que há na framboesa silvestre / do teu beijo.” Paulo de Tarso Correia de Melo vem e se abanca: “Sol, o dourado jardim dos teus cabelos / começa a flamejar / sobre o milho // E já as espigas / se põem a secar / por ter alento. // Acerta-nos a porta de teus olhos,/ chuva bendita.” Dos sertões de Limoeiro, ouve-se a voz distante de Talis Andrade: “Na porteira da fazenda / rangiam velhos fantasmas / das mais longínquas terras / do território da infância /lugar obscuro donde o boi-/da-cara-preta vinha pisar / os meus sonhos de criança”.
E têm as meninas. Diva Cunha: “Bates a minha porta/ com os punhos cerrados // abro-te as pernas / riso escancarado // somos assim: / a casa e o pomar / a lua e o jardim”. Vem Carmem Vasconcelos: “A solidão é uma cor que inunda as frestas e me / ilumina. / Uma cor branca. / Rebentam cânticos dos meus dedos.” Chega Ana de Santana: “Esta cidade deserto / abriga olhares / como lençóis em varais noturnos”. Iracema Macedo sussurra: “Em meu ninho longínquo / inicio ventos / invento cios / canto e danço em volta do fogo / transformo meu leito em vinho / e ofereço meu corpo para os lobos.” E de Marize Castro, que nos deixou e foi morar em Dublin: “O sax que toca distante quer proximidade / virgem e manca guardo sob a pele / certezas de antigas serras / digo não a tudo que é prisão / digo sim a tudo que é flor / e risco / silente aguardo o sinal”.
O Instituto
Amanhã tem a posse da nova diretoria do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, a mais antiga instituição cultural do Estado, nas vésperas (dia 29) de completar 109 anos. O novo presidente é o acadêmico Valério Mesquita. Solenidade marcada para as 19h30, no auditório da Academia Norte-Riograndense de Letras.
Da palma
O professor Marcelo de Andrade Ferreira, da Universidade Rural de Pernambuco, ministra hoje a aula inaugural do Curso de Pós-Graduação em Produção Animal, da Escola Agrícola de Jundiaí, da UFRN (Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias). Falará sofre “Palma forrageira para ruminantes”, a partir das 14 horas.
Chuva
Dois dias seguidos sem chuva no Rio Grande do Norte. Em nenhum roçado ou cercado. No Ceará, muito fraco também. O mundo agora de olho no dia de São José, 19.
Cinema
Dodora Guedes mandando dizer que amanhã, pelas 19 horas, é dia do projeto Cine-Solar, dobradinha do Solar Bela Vista (Sesi-RN) com o Cine Clube de Natal. Na tela, Lutero, de Eric Till. Logo em seguida haverá um debate mediado por Orivaldo Pimentel Lopes Júnior, do Departamento de Ciências Sociais da UFRN.