Américo, meu pai e amigo
Publicação: 08 de Agosto de 2010 às 00:00
Vitória dos Santos Costa - Professora
Meu pai e amigo era o meu porto e o meu aeroporto seguros, na rua Mipibu, para onde eu sempre voltava das minhas andanças pelo mundo, pois o meu mundo era, em grande parte, um pedaço do mundo do meu pai. Ele era o viajante, companheiro agradável de muitas viagens que ele, eu e mamãe fizemos, numa delas levou a neta mais velha Cristiana. Fomos nove vezes à Europa e uma ao México, Estados Unidos e Canadá. Ele era o nosso guia dos lugares que já havia visitado pelos livros. Como foram inesquecíveis os nossos passeios por Paris, Florença, Nice, Roma, México, Nova York e outros. Viajamos de avião, de trem, de ônibus e de navio.
Concertos, ballets, espetáculos folclóricos, Ella Fitzerald ao vivo, nos jardins de Nice, casinos de Monte Carlo e de Estoril, santuários de Lourdes, Fátima, Lisieux, da Medalha Milagrosa, de Chartres, as catacumbas, em Roma, águas em Nossa Senhora de Guadaloupe, Nossa Senhora das Vitórias, em Lisboa, museus, jardins, casas, cafés, restaurantes, caminhadas ao longo do Sena, do Arno, livrarias do Quartier Latin, "Le Divan", do Bairro Alto, em Lisboa, da Gran Via, de Madrid, e no mínimo 10 Quilos de livros nas malas...
O encontro com Jean d'Ormesson - num lançamento de livro, em Nice. A emoção de encontrar os seus livros na Biblioteca do Congresso Americano, em Washington.
O meu pai jornalista-escritor escrevia à mão, tendo na caneta e na prancheta seus dois maiores instrumentos, compôs "A Viagem ao Universo de Câmara Cascudo"; "A Seleta de Cascudo"; "A Biblioteca e seus Habitantes", seu livro maior, a sua própria vida, ser múltiplo, vário, arquipélago, ilha e continente que ele era, o livro que anotou por quarenta anos, ao estilo dos "Ensaios" de Montaigne, ensinamentos de vida. "O Comércio das Palavras", em quatro volumes, que considerava uma continuação da Biblioteca. Tinha, ainda, poemas, cartas, artigos, estudos sobre música que poderiam, eventualmente, constituir mais outros livros. A música o encantava. Acordava e se barbeava ao som de música clássica, da canção francesa, do jazz e da música brasileira.
O meu pai "citoyen français de coeur" que se uniu a Marcel Girard e fundou, em Natal, o Movimento da França Livre durante a segunda guerra mundial. O reconhecimento veio do próprio punho do General De Gaulle "Em Lembrança da grande provação, em testemunho dos meus fiéis sentimentos por si e por seu grande país" (Natal, 09.08.1956). O Américo fundador e presidente da Aliança Francesa de Natal e Cônsul Honorário da França, por longos anos.
Num dos seus últimos livros lidos, justamente de Borges, está marcada a página do poema "França" - "Tu já estavas aqui antes de entrares". Américo, que ensinou a várias gerações em Mossoró e depois, em Natal, nas Escolas Doméstica e Normal, nas Faculdades de Direito e de Jornalismo Eloy de Souza.
O político Américo, prefeito de Agrestina, em Pernambuco e o Secretário Geral do Estado no Governo Sylvio Pedroza.
O advogado, Américo, na função de Procurador do Estado. O Américo, esposo carinhoso de minha mãe Zefinha, com quem viveu quase sessenta anos, pai dos meus irmãos Pedro, José, Paulo e Carlos, o sogro, o avô e o bisavô, que tanto queria aos seus.
O meu pai Sabadoyleano, que eu acompanhava nas viagens ao Rio para receber homenagens em atas elogiosas de Homero Senna e de Geraldo de Menezes, que afirmavam que por Natal localizar-se mais perto da Europa, Américo estaria mais informado sobre os autores europeus. Na verdade, ele acompanhava o que se passava no mundo cultural de Paris, através das assinaturas das revistas: "Le Figaro'; "Le Magazine Litteraire" e "Lire'; além dos diversos catálogos recebidos, inclusive em junho último. Mas a vinda dos livros, na maioria das vezes, passava pela Livraria Francesa de São Paulo.
O meu pai lia e anotava, enriquecia a sua cabeça e me transmitia os seus conhecimentos. Deixou-me a chamada Farmácia das Almas, os livros companheiros que lhe proporcionaram tantas horas de paz, desejando o mesmo para mim.
Finalmente, meu pai e amigo, exemplo de fé cristã que citava os Eclesiásticos, "o que há de se fazer senão se alegrar". O admirador do Papa João XXIII, dos seus ensinamentos e sobretudo dos Mandamentos da Serenidade: "Só por hoje tratarei de viver exclusivamente meu dia sem querer resolver o problema de minha vida todo de uma vez".
Curiosamente, meu pai e amigo, Américo, deixou gravadas, num dos volumes IV, do Comércio das Palavras, a sua assinatura e a data do seu chamamento, 1 ° de julho de 1996, o dia do até breve. Foi vestido de vestes talares e de flores que você partiu, para se encontrar com os justos. Américo tive e tenho o privilégio de tê-lo tido por pai e amigo, o pai certo para todas as horas e que, se vivo fosse, estaria completando 100 anos no dia 22 de agosto de 2010.