Aprovação gera mudanças na vida dos concursandos
Publicação: 16 de Maro de 2010 às 00:00
Até pouco tempo atrás a ordem natural das coisas para se ter estabilidade financeira era a busca de carreiras, como as de profissionais liberais ou em grandes empresas. Hoje, o sentido da corrida se inverteu e o serviço público passou a ser o ideal de carreira de cada seis entre dez jovens que saem das universidades, mesmo que para isso precisem mudar de vida e até de Estado. Mas, fazer concurso público para lugares distantes e ser obrigado a abrir mão da convivência com a família e amigos e do conforto de casa vale a pena?
Para a maior parte dos estudantes de cursinhos preparatórios para concursos, sim. Embora a resposta seja acompanhada da confissão de que, até então, não haviam cogitado a idéia de mudanças, tampouco feito na ponta do lápis o cálculo de quanto isto pode custar, a disposição para enfrentar os novos desafios é similar ao empenho nos estudos.
As vantagens de um contracheque mais 'poupudo' do que conseguiria na iniciativa privada local pode, para a maioria, compensar o desgaste emocional e a saudade causados pela distância, em favor da construção de uma projeção que dificilmente conseguiriam se ficassem aqui. Focados na aprovação e nas oportunidades de crescimento, eles levam mais em consideração critérios como remuneração, número de vagas e de concorrentes, e a possibilidade de participar do certame, na hora de escolher qual concurso irão concorrer.
No entanto, o diretor do cursinho IAP Cursos, Aldo Rocha chama atenção para outros quesitos que devem ser analisados por quem desejam se aventurar longe da terra natal. Segundo ele é preciso verificar o custo-benefício da mudança, se identificar com o cargo e função que irá desempenhar e compartilhar a decisão com a família.
"Não temos como quantificar quantos dos nossos aprovados desistiram por se deparar com situações adversas, mas não é raro. Alguns voltam e recomeção aqui, por que a distancia e a saudade da família pesou, ou porque a função não era nada do pretendido, ou ainda por que não conseguiu se manter com o que ganhava. São situações que merecem atenção antes de embarcar na escolha e na mudança para outro lugar", afirma Aldo.
Em geral, homens, com nível superior, mesmo casados e com filhos, apresentam maior "desprendimento" para buscar a sorte fora, quando o salário é superior a R$ 5 mil. O diretor observa que entre os potiguares há uma preferência por estados vizinhos ou Brasília, onde a oferta de vagas e certames é maior.
O advogado Everton Ribeiro, 28 anos, casado e pai de uma menina de cinco meses é um desses que há mais de um tenta ingressar no setor público independente em qual ponto do mapa brasileiro. Em 2009, Everton tentou concurso para polícia rodoviário federal no Rio Grande do Norte e no Mato Grosso do Sul, e atualmente se preparar para aga no tribunal de Justiça, que ainda não foi lançado o edital, e para as provas do Detran/PE, que acontecem dia 26 de abril. Pernambucano, ele diz que há facilidade de voltar a morar com a mãe e deixar a família aqui até se estabilizar.
"De início é válido, mas ainda não parei para pensar nos gastos e na mudança. Se passar vou para lá é a única coisa definida. Se a esposa vai comigo, vai pedir demissão do trabalho dela, se iremos fazer intercâmbio nos fins de semana,ainda temos que discutir. É uma situação difícil ", reconhece.
A contadora Ana Elília Trigueiro, 42, fez a opção pela independência profissional. Mãe de dois filhos, Erick, 17, e Emanuela, 14, ela conta que caso seja aprovada para o concurso do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de Pernambuco, está disposta a arcar sozinha com aluguel de apartamento, transportes, demais despesas e com a saudade dos filhos, caso decidam não acompanhá-la. "Minha prioridade hoje é minha carreira e penso em ficar temporariamente lá e depois tentar transferência", observa.
Pegando a estrada todo final de semana para ficar com os filhos e marido em Picuí (PB), a técnica em eletrotécnica Gizelda Januário de Oliveira já decidiu que caso seja aprovada no concurso do TRT/RN irá trazer os filhos para morar em Natal. "Ainda não cheguei a planejar e estudar o caso, mas acredito que o custo de vida aqui será mais alto, em relação ao do interior. Mas é muito difícil ficar sem eles", confessa Gizelda.
O que deve ser levado em consideração
Como em alguns concursos nacionais não é possível conhecer o local onde irá atuar, antes de ser aprovado e convocado, é preciso ficar atento a alguns pontos para não fazer as malas antes do tempo programado.
O custo de vida é um deles. O salário pago em certa cidade pode não representar igual poder aquisitivo em outro Estado ou região do país. As condições de moradias também é fator determinante. Se o candidato é habituado a morar com a família, pode ter dificuldades em se adequar a vida sozinha e descobrir o valor e o peso de se bancar. Além do que, se é adaptado ao cenário e agitação urbana, pode não se sentir bem em regiões isoladas, com problemas de infra-estrutura e opções de entretenimento, ou mesmo em comunidades rurais. Neste caso, até condições climáticas, podem influir. Pessoas habituadas ao calor nordestino podem não ter a mesma facilidade de operar no frio da região sul e sudeste, por exemplo.
Há quem consiga se adaptar a todas as diferenças, encontrar o lado positivo e construir uma vida produtiva, mas para fazer a remuneração valer a pena é preciso avaliar e pesquisar antes de assinalar a opção no ato de inscrição. Pois a adequação não é só no âmbito profissional, mas principalmente psicológica e emotiva.
Maioria dos candidatos prefere ficar
O número de quem prefere ficar e tentar a vida aqui é bem superior, segundo a coordenadora do IAP Cursos, Mônica Bezerra. Com oferta superior de concursos estaduais, como acontece em todo início de ano, a situação é favorável ao natalense e tem atraído inclusive candidatos de fora. Com rendimentos que variam de R$ 1,2 mil a R$ 6 mil a quem não veja necessidade de sair, como diz o candidato Wilson Fernandes, 21, que se prepara para o cargo de agente administrativo da Caern. "Acredito que dá para fazer a diferença aqui mesmo e ter uma condição melhor de vida", disse.
Outra vantagem para quem concorre no Estado e possui graduação superior, além do conhecimento em questões específicas, é a possibilidade de se inscrever nos dois níveis.
"O sonho da estabilidade do serviço público é cada vez mais palpável e buscado por isso. A oferta cresce ao longo dos anos, demonstrando a necessidade de profissionalizar a gestão. Os melhores capacitados conseguem", disse Mônica.