Baby face

Publicação: 10 de Março de 2013 às 00:00

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Isaac Ribeiro - Repórter

Exposição excessiva de adolescentes e adultos nas redes sociais é algo até comum nos dias de hoje. Mas postagem de fotos com bebês recém-nascidos podem ser consideradas um comportamento relativamente recente na internet. O argumento da maioria das mães é estar ajudando parentes e amigos distantes a conhecerem seus filhos e acompanharem seus momentos de alegria, dividindo a emoção de verem juntos seus rebentos crescerem. Mas há quem vá mais além, postando imagens de exames de ultrassonografia, cenas de berçários e até de incubadoras. Para algumas mães, não há nada demais nisso...

Mas há quem questione até que ponto isso não ultrapassa os limites do bom senso, da privacidade e, principalmente, da segurança e do respeito ao pequenos, que não têm como opinar se gostam ou não da atitude (e das fotos).

Mas como tudo parece só avançar quando o assunto é internet, esse comportamento tem crescido na redes sociais. Uma pesquisa realizada pela empresa de antivírus AVG mostra que 92% dos bebês com até dois anos de idade já estrearam nas telas de computador.

Foram ouvidas mães dos Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, França, Itália, Espanha, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e Japão. As americanas são os campeãs nas postagens.

Outro estudo, realizado na Inglaterra e publicado pela Currys & PC World, revela que um em cada dez pais já postou fotos do parto do filho, antes até mesmo de pesarem a criança. Outros números revelam que um em cada cinco pais publicou fotos do filho em seus primeiros 15 minutos de vida.

A psicóloga Elza Dutra acredita que postagens de bebês podem fortalecer a afetividade, desde que as fotos sejam direcionadas a pessoas de confiança e com o uso de ferramentas de segurança, disponíveis nas redes sociais. Mas para tudo, acredita ela, é preciso equilíbrio e ponderação.

Mas não é apenas a exposição dos bebês nas redes sociais que preocupa. A psicóloga Jemima Morais Veras questiona se é realmente necessário circular com os filhos recém-nascidos por ambientes barulhentos, frios, com odores confusos e iluminação excessiva como shoppings e supermercados.

O principal para ela é construir bons sentimentos, boas lembranças e sensações. “Um adulto que tem o registro de uma infância saudável, harmoniosa, feliz, provavelmente vai curtir suas imagens, se forem adequadas”, comenta Jemima, ressaltando certas restrições à exposição de bebês em redes sociais como o Facebook.

Postar requer cuidado, alerta a psicóloga, pois uma vez na internet as imagens podem ser vistas por pessoas não confiáveis. “Não é aconselhável postar imagens de crianças nuas, como também expor sua rotina com imagens da criança em lugares que podem ser facilmente identificados, vestidas com uniformes. A criança precisa ser resguardada e os pais são responsáveis por isso.”

A estilista Daniele Gonçalves, 33 anos, diz ter algum receio quando posta as fotos do pequeno Gabriel, por isso usa mecanismos de segurança para que só seus amigos vejam. “Meu Instagram é fechado por causa disso. Só consegue me seguir quem eu aceiro.” Ela diz nunca ter tido nenhum aborrecimento. “E espero não ter...”

Bebês na tela do PC

Mães dizem postar fotos de seus filhos para que parentes e amigos distantes possam conhecê-los e acompanhar o crescimento deles. A maioria afirma usar ferramentas de segurança para limitar acesso:
CedidaEllen Paes, 30 anos, jornalista, com ValentinaEllen Paes, 30 anos, jornalista, com Valentina

Ellen Paes, jornalista, 30 anos, com Valentina - “Bem, primeiramente, eu adoro fotos. Adoro registrar e eternizar bons momentos. E minha filha é minha melhor modelo. É com ela que divido os melhores momentos da minha vida. E a possibilidade de poder compartilhar isso com as pessoas é incrível! Penso que é dividir felicidade e receber em troca. Tenho consciência que pode ser uma visão inocente ou romântica, mas sei que sensibilizo ou tiro sorrisos de pessoas que gosto e que estão nos meus contatos da rede. Fora isso, sou sozinha com minha filha no Rio de Janeiro, estou longe de todos os familiares e boa parte dos meus amigos, e é uma maneira de me aproximar deles e de eles poderem acompanhar o crescimento dela, já que não tenho condições de viajar ao Nordeste sempre. Posto fotos desde a barriga! A Valentina está na rede desde as ultrassonografias. Não tenho uma frequência certa para postar porque também posto muitas outras coisas, fotos minhas, pensamentos, posturas ideológicas... Mas acredito que fotos da minha filha sejam postadas em uma média de a cada 15 dias. Meu Facebook é fechado para que apenas meus contatos possam ver minhas atualizações. São contatos pessoais e de trabalho. Até hoje não tive aborrecimentos e espero não ter.”

CedidaLuci Ataíde Braga, artesã, 26 anos, com HareLuci Ataíde Braga, artesã, 26 anos, com Hare

Luci Ataíde Braga, artesã, 26 anos, com Hare - “Acho que o objetivo quando se posta fotos dos filhos é mostrar às pessoas que não podem acompanhar a vida do pequeno, como ele é lindo, como cresce e, de certa forma, receber o carinho dessas pessoas, mesmo que seja virtualmente. Morei na Espanha um bom tempo, e sempre que posto uma foto, penso nos meus amigos que provavelmente não poderão conhecer meu filho tão cedo! Posto fotos desde o segundo dia de vida de Hare e venho atualizando seu álbum, mostrando sua evolução, caras e bocas! Nunca tinha parado pra pensar em uma frequência, mas acho que uma vez por semana, ou duas no máximo, compartilho fotos dele com meus amigos. Para falar a verdade, não uso de nenhum dispositivo de segurança. Também ainda não tinha pensado nisso (inocência?). Apenas configurei o álbum para que somente amigos tenham acesso às fotos. Será que deveria bloquear as fotos dele para que ninguém possa baixar e fazer mal uso delas?? Prefiro pensar que esse tipo de gente que faria isso, e coisas piores, não estão próximas a nós. Eu sou muito tranquila, até hoje não tive nenhum tipo de aborrecimento, e espero não ter jamais. É uma pena que a liberdade que as redes sociais nos proporcionam, seja falsa e perigosa.”

Cláudia Magalhães, atriz e escritora, com Sofia - “No meu caso, teve em mim uma necessidade de superação. Tive muitos problemas no parto. Na maternidade e já com oito centímetros de dilatação, recebi a triste notícia de que não teria parto normal. Partimos para a cirurgia cesariana. Depois que escutei o choro dela, apaguei. Tive uma hemorragia interna e tive que ser submetida a uma nova cirurgia, desta vez pra salvar minha vida. Em seguida, fui transferida para a UTI da maternidade Januário Cicco. Passei dois dias na UTI e oito na enfermaria tomando antibióticos. E Sofia sempre ao meu lado, linda demais. Lá mesmo, soube que tinham esquecido o “tampão” dentro de mim. Mais um problema pra ser superado. Tive muito perto da morte, e muito medo por ela, mas terminou tudo bem. Quando cheguei em casa vi que muitos amigos queriam saber como a gente tava. Daí, postar as fotos começou como uma forma de dizer “tá tudo bem, galera!”. Nesse mundinho de hoje é muito difícil o contato humano, a correria é grande, daí as fotos é uma forma de dividir alegrias com quem a gente ama. Assim que cheguei em casa com ela postei uma foto dela pra acalmar os amigos distantes. Daí, sempre to postando, pelo menos uma vez por mês. Só quem pode ver são meus amigos do Face e nunca tive nenhum tipo de aborrecimento.”
CedidaCláudia Magalhães, atriz e escritora, com SofiaCláudia Magalhães, atriz e escritora, com Sofia

Michele Ferret, 34 anos, jornalista, com Anabelle - “É sempre um conflito isso, porque hoje em dia com essa questão da pedofilia, dos vírus, etc, a gente fica com um medo enorme de publicar foto dos filhos, mas ao mesmo tempo eu tenho familiares e amigos de longe que sempre pedem as fotos. Não só os de longe, mas os de perto que não podem estar sempre perto. Sempre publiquei desde que tenho Facebook e quando Anabelle nasceu isso se intensificou. Mas de um tempo pra cá eu comecei a tomar alguns cuidados, tipo fechar só para amigos as fotos e não permitir mais que as marcações apareçam sem antes eu autorizar. Estou pensando em tirar as fotos mesmo e mandar pelo e-mail para os familiares. É delicioso o carinho, os comentários...Existe a troca, mas tem os dois lados.”
Bebês de até dois anos de idade e até mesmo recém-nascidos são expostos cada vez mais cedo em redes sociais. Maioria das mães postam fotos para parentes e amigos. Psicólogos alertam para cuidados com a exposição dos filhos e recomendam equilíbrio e ponderação
Bate-papo - Elza Dutra, psicóloga

O que acha das mães que postam fotos de bebê?
A criança que nasce num contexto que os pais e as mães supervalorizam a imagem, essa coisa sem muito limite do que é público e do que é privado, é uma criança que vai desde cedo desenvolvendo esse valor também. A sua geração não era assim, muito menos a minha. Tinha os albinhos de fotografia...
DivulgaçãoElza Dutra, psicólogaElza Dutra, psicóloga

E hoje criam-se álbuns digitais involuntários para a criança, sem que ela possa apagar, no futuro, as fotos indesejadas...
Acho que é um desrespeito, um cuidado que objetifica a pessoa, que eu acho que é o que mais vemos no mundo que estamos vivendo. As pessoas são coisificadas. É tudo muito banalizado. Aí a pessoa pega e posta uma ultrassonografia — algo que você entra no seu útero e vê a criança antes de nascer. É uma coisa de muita intimidade! Mas nem todo mundo vai dar valor aquilo ali. Tudo bem, os amigos se alegra, mas aquilo tem um sentido pra ela. As pessoas precisam se resguardar também.

Postar fotos também pode ser uma forma de usar a rede em prol da afetividade?
Podemos pensar assim: é o real que é mais valorizado? O que é real e o que é virtual? O virtual não é real também? Só o presencial que estimula e favorece os afetos? Não, isso mostra que não.  Se não, ninguém se apaixonava pela internet; se não, ninguém sentiria tesão teclando. Então, não é algo da presença física ou geográfica. É alguma coisa da experiência, do sentir, do afeto. Esse lado é muito bom. Mas há uma carência, uma vontade de compartilhar. Antes você fazia isso ligando para a pessoa, chamando para o chá de bebê ou para visitar. Acho que, por um lado isso é algo que mantém os afetos; por outro lado, a gente cai nessa acomodação que está vendo, está se comunicando e está faltando o olho no olho, de checar a experiência presente o que eu estou sentindo por você, o toque.

Alguma recomendação?
Acho um recurso bom, não vejo nada demais, desde que você tome alguns cuidados e reflita. O que eu estou querendo no Facebook? Questionar os seus atos. O que eu quero para o meu filho? Estou cuidando dele quando faço isso? Acho que a palavra-chave, a recomendação, é justamente ponderação, equilíbrio. Não podemos escapar disso daqui pra frente; tem que conviver com esta realidade, mas cada vez mais temos que refletir, questionar essas facilidades das redes sociais. Qual o meu limite? O que eu quero com isso? Seá que quero suprir meus vazios, minhas carências, e estou carregando comigo o meu bebê? Claro que tem a alegria de compartilhar, mas tem outros sentidos e significados também.    







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