Balanço sentimental do amor de um poeta
Publicação: 05 de Setembro de 2010 às 00:00
Nelson Patriota [ escritor ]
Há pouco mais de um ano, o poeta Paulo de Tarso Correia de Melo lançou uma edição omnibus de sua obra poética, através da editora da UFRN-Edufrn, sob o título de "Talhe Rupestre - poesia reunida e inéditos", organizada e anotada pelo escritor Carlos Newton Júnior. Suas mais de 440 páginas constituem uma espécie de mosaico minucioso e discreto dos muitos motivos que explodem na poesia intempestiva desse poeta tardio. Obra densa, tocada por uma linguagem contida, às vezes se confundindo com um "coloquial culto e escorreito", está ainda por merecer uma abordagem ampla de suas múltiplas tendências e do acerto poético dessas tantas vias, trabalho que certamente revelará inúmeras pérolas, de variados valores e matizes.
A partir deste 9 de setembro, a poesia de Paulo de Tarso ganha um novo título. Trata-se de "Sabor de amar", obra que sai sob a custódia da editora Sarau das Letras, de Mossoró. Não por acaso seu prefaciador é o operoso escritor Clauder Arcanjo, enquanto a contracapa ficou a cargo do poeta David Leite.
"Sabor de amar" poderia ter outro nome. Por exemplo, "O livro de Ana", porque é em torno da longa e bem-sucedida relação amorosa de Paulo de Tarso com sua Ana Maria que nascem e findam os motivos poéticos fartamente derramados na obra. Não é raro, portanto, que alguns poemas se reportem a acontecimentos passados, vividos, firme ou vagamente lembrados. Nessa espécie de contabilidade sentimental é frequente tais retrospectos. Um dos mais significativos é, certamente, o poema "Cantiga de amigo II", dedicado a Ana Maria, elogio do amor sereno, confiante, pródigo em verdades de afeto e que dispensam, assim, retórica e metro. Ei-lo: "Um dia / eternamente / deixaremos a terra / - nossa casa - / e o amor - / nossa veste - // Por enquanto / agradeço / o / que / de suave / e terno / me deste".
Não é difícil ao leitor perceber por trás de cada poema, como uma luz finamente filtrada, a imagem da musa do poeta, uma musa real, histórica, fator determinante para que se realize a contento a costura de um poema ao seguinte, garantindo-lhes uma veraz poeticidade, não obstante os desdobramentos de tons, cores, tempos, lembranças. À paleta de afetos recenseados corresponde, a cada vez, uma forma adequada, porque sabe o poeta que "Não passa o canto / passa o cantor" - / ars fugidia - / não passa. Permanência". É por essa razão que o livro abre com o conhecido verso extraído da "Eneida" de Virgílio: "Arma virumque cano" ("canto as armas e o varão"), contraponto ao canto da musa Ana Maria.
Livro de amor confesso, "Sabor de amar" tem alguns momentos especialmente líricos (expressão "natural" do poema amoroso, sobretudo quando namora a forma clássica do soneto). Dentre estes, destacamos o quase-soneto "Cantiga de velha lembrança", que diz: "Lembrar-te é endereçar-me à pulsão das estrelas / e às fibras que maduram no âmago do tempo / para fazerem fenecer as flores / e aparecerem rugas num momento. // Lembrar-te é embaçar o rio dos teus olhos / e as pétalas da pele florindo em pensamento / e mais lugares distantes da memória - / os teus cabelos, onde passa o vento // desértico da ausência que é futuro / perdido no passado, de repente. / Lembrar-te é um poço escuro / e ignorado como teu presente. // lembrar-te é confundir as dimensões do tempo / e compreendê-las no mesmo momento".
Mas é preciso demorar-se antes poemas como "Salmo", "Cântico", peças compactas, densas, revestidas de um verniz metafísico à John Donne e Milton. Elas parecem anunciar novos caminhos para a poesia de Paulo de Tarso, poesia que, de tão inquieta, parece não conhecer fronteiras definitivas.