Barulho, perigoso barulho
Publicação: 29 de Janeiro de 2012 às 00:00
Dr. Jorge Boucinhas - médico e professor da UFRN
Quem pensa que a poluição sonora é produzida apenas por equipamentos industriais e trânsito pesado deve iniciar a repensar. Mesmo as residências são fontes comuníssimas de ruídos excessivos e nem se percebe que o volume da TV está por demais alto ou que o liquidificador é uma verdadeira britadeira, tal o hábito de se viver assaltado por sons fortes em ambientes mui barulhentos.
Pouco a pouco esse barulho instala-se no organismo. A vítima, irritada, põe a culpa na agitação da vida moderna, no estresse laboral, nos problemas com os filhos. E ainda se tem um componente psicológico básico: a palavra ruído é tão somente uma expressão técnica para um som muito alto, mas o incômodo de um pode, muito bem, ser o prazer de outro. Um julga um pavor escutar o rock-and-roll mesmo baixinho (inconcebivelmente pior se a uma altura imensa), já outro sente-se nos céus ao fazê-lo.
Para ajudar os pobres ouvidos a saber o que enfrentam, e, assim, poderem escapar mais ou menos ilesos, o Ibama criou o Selo Ruído, para a embalagem das mercadorias, indicativo da quantidade de decibéis que elas são capazes de produzir.
As ondas sonoras propagam-se, como vibrações, pelo ar (o meio mais comum para a audição humana), pela água e até em meios sólidos (quais os solos). As orelhas captam-nas, direcionam-nas ao tímpano, que vibra e propaga o estímulo até ser atingida uma parte especializada, a cóclea, que transforma-as em impulsos nervosos, que são levados ao cérebro, capaz de as discriminar. O aparelho auditivo funciona como um vigia que não repousa, enfrentando domingos e feriados, permanecendo sempre em guarda. Por tal não é tão fácil protegê-lo das agressões sonoras.
A perda de audição, comum como doença do trabalho, geralmente, só é percebida quando está em estágio avançado. Deixa-se de ouvir quando morrem as células ciliadas do ouvido interno, corresponsáveis pela condução dos sons ao cérebro.
Essas delicadas estruturas, que normalmente morrem de velhice, têm sua vida abreviada pela poluição sonora e não se regeneram. Estatisticamente falando, a média dos seres humanos apresenta problemas com elas pouco após a sexta década de idade, enquanto que quem está exposto a um ambiente barulhento já pode começar a ensurdecer logo após completada a quarta.
Mas não é apenas no trabalho que se adquire uma lesão auditiva. Quem já não sentiu que estava "meio surdo" depois de um show de rock ou axé ou forró, ou de uma noitada de música eletrônica em boate? Agredidos pelos cada vez mais potentes aparelhos de som, os ouvidos ficam cansados e, pelo prazo de algumas horas, ficam com dificuldade de funcionar. Felizmente, após o devido repouso, ocorre o retorno à normalidade (importante fazer notar que os alcoólatras e os fumantes demoram mais para se recuperarem, de vez que o álcool e o tabaco são substâncias agressoras das células do ouvido interno). Mas a exposição repetitiva leva a danos irreparáveis!
E os danos não se produzem só nesta esfera. Por causa dos gritos, zumbidos e buzinas quotidianamente ouvidos, o corpo, por inteiro, sofre. É que o sistema nervoso passa a agir como se estivesse em uma situação de perigo e faz com que as duas glândulas adrenais produzam altas doses dos hormônios que acompanham as situações de estresse: a adrenalina e o cortisol. O primeiro age como um alarme, deixando o corpo preparado para a luta ou a fuga (a famosa Reação do Stress, descrita por Hans Selye). Se a situação se repete, passa-se ao estresse crônico, com todo seu corolário de complicações. Devido a ele, o trabalho aparenta ficar mais e mais pesado, as noites perdem seu sono reparador, a tensão arterial começa a subir, o estômago começar a secretar excesso de ácido e, até, a começar a doer. Pena que não se relacione os sintomas com o ruído, de vez que ele é um invasor algo insidioso e gradual.
O bom é que é possível minimizar o problema. A poluição sonora pode ser combatida na fonte. Já existem janelas, portas, pisos e revestimentos de parede com proteções acústicas. As residências podem ser construídas longe de áreas de grande tráfego e o planejamento urbano está a dar, cada vez mais, atenção a esses riscos potenciais. E há, ainda, as soluções mais simples, que estão ao alcance de todos, quais não escutar a televisão muito alto, ouvir música a alturas moderadas, regular baixo o telefone e o walkman, deixar funcionando corretamente os escapamentos (especialmente os de motos), não ligar mais de um eletrodoméstico por vez, procurar despertadores e campainhas mais discretos. A civilização moderna criou o costume de escutar tudo num volume muito alto. É tempo de isto ser repensado!