Bem-vindo Rei Momo

Publicação: 10 de Fevereiro de 2013 às 00:00

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espaço livre [ Agnelo Alves ]

Não sou propriamente o que chamam, pejorativamente, de “saudosista”. Mas nutro uma saudade danada do que vi e do que gostei. E o remédio que adoto para aguentar uma saudade é viver o presente com a mesma intensidade e projetar o futuro com a mesma confiança de que será sempre melhor.

Ligando a 104 FM, me emocionei ouvindo um musical carnavalesco que me remeteu ao passado, até à corte de Sua Majestade, o Rei Momo, de nome Luiz Muraih. A música era “Aurora” - de autoria de Mário Lago - a quem se lamentava por não ser sincera com dizeres, que me lembro, assim: “Se você fosse sincera, oh, oh, oh, Aurora, veja só que bom que era, oh, oh, oh, Aurora”...

Já entreguei as chaves da Cidade, como prefeito, ao Rei Momo, se não me falha a memória, de nome algo complicado, mas eu o repetia como algo engraçado. Na vida civil atendia pelo nome de Luizinho Doblichem – Assim mesmo que se escreve? – que ele complicava mais ainda quando se dirigia a seus súditos, entre os quais eu, então prefeito. 

Depois, nos Anos de Chumbo, eu estava trancafiado. Lembro bem a porta trancada e as chaves me alertando que eu estava preso exatamente por ser prefeito... Valeu, como nunca, o que aprendi instintivamente, “criar um mundo para mim”, embora sem esquecer o passado. Um “saudosista”, eu? Não no sentido pejorativo, não. Mas com a saudade que vivi, embora já em pleno mundo novo que crio para mim.

Pois é. Se Aurora não era sincera, criei as colombinas, as odaliscas, passei a reverenciar o Rei Momo, primeiro e único nas encarnações fiéis à Monarquia da Alegria, embora nunca tenha sido um folião exacerbado. Gostava mais das “irreverências” do “Pega no Vento”, bloco criado sob a liderança do inesquecível Érico Hackradt. “Dona Maria tinha uma galinha. E a galinha có, o gato miau, o cachorro au au... E a galinha có”... Cadê o galo? O galo cantava e terminava fazendo o discurso ao dono da casa que “assaltávamos” na folia.

A minha geração já se foi quase toda. Que Deus seja misericordioso em tê-la – a minha geração – no lugar merecido pelas criaturas dotadas de alegria de viver e partilhar. Mas me deixe por aqui, contemplando a beleza do arco-íris, sentindo o calor do velho sol de todos os dias e a amenidade da lua, recitando Olavo Bilac: “Ora direis, ouvir estrelas! Certo, perdeste o senso! E eu vos direi, no entanto, que, para ouvi-las, muitas vezes desperto e abro as janelas pálido de espanto”...

Seja bem-vindo Majestade, Rei Momo, primeiro e único.



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