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Internacional

Natal, 24 de Maio de 2012 | Atualizado às 21:48

Bolívia troca coca por arroz

Publicação: 27 de Julho de 2008 às 00:00
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Carlos Valdez - Associated Press


Sinahota (AE-AP) - A elevação dos preços dos alimentos no mundo inteiro fez  o que os Estados Unidos não  conseguiu ao gastar milhões de dólares tentando  convencer os  agricultores bolivianos a trocarem o cultivo da folha de coca por outras plantações que não a matéria-prima da cocaína. O improvável defensor da mudança de cultura é o presidente da Bolívia, Evo Morales, que durante duas décadas liderou a luta das associações dos produtores de coca contra os programas de substituição de cultivo patrocinados pelos EUA. Mas o aumento do preço dos grãos nos mercados internacionais e a escassez de comida o fizeram reconsiderar sua posição. Morales pede agora aos produtores de coca que passem a plantar arroz e milho, ao mesmo tempo reduzindo a produção de coca e ajudando a alimentar o país mais pobre da América do Sul.

Os programas norte-americanos na maioria das vezes baniam o cultivo da coca - uma pequena folha verde tradicional entre os povos andinos e matéria-prima da cocaína - como condição para que os agricultores recebessem ajuda e substituíssem suas plantações. Em seu programa de desenvolvimento alternativo, Morales autorizou os agricultores a cultivarem até um "cato" de coca (um cato equivale a 0,1 hectare), limite que os qualifica a receber empréstimos para a diversificação de plantações. O limite está em vigor desde 2004, mas é visto pelas autoridades americanas como uma concessão questionável a traficantes de drogas.

Já Morales usa a limitação como peça-chave de sua estratégia para combater o narcotráfico sem tirar apoio ao uso tradicional da folha de coca como um estimulante com qualidades medicinais. "Não haverá coca zero, mas também não haverá livre cultivo de coca", disse Morales em espanhol a milhares de camponeses na cidade de Sinahota no mês passado. O primeiro presidente de origem indígena da Bolívia ergueu o punho esquerdo e passou a falar em quéchua: "Viva a coca! Morte aos ianques!"

O sindicato dos plantadores de coca da região do Chapare, da qual Morales ainda é o presidente, exige que cada um de seus 35.000 integrantes cultive pelo menos 1 hectare de arroz este ano, parte de um plano do para que os plantadores de coca cultivem 50.000 hectares de arroz. Atualmente, a área de cultivo de coca no Chapare, na região central da Bolívia, é de 9.000 hectares. Se a área de plantação de coca ficar limitada ao cato, os agricultores ganham direito a um crédito equivalente a 800 reais para plantar arroz, milho e outras sementes hoje lucrativas, além de uma garantia de empréstimo de cerca de 3.600 reais para construir uma casa.

Especialistas acreditam que o plano de Morales pode ajudar os agricultores a aderirem a plantações alternativas ao mesmo tempo em que tendem a se beneficiar da alta do preço dos alimentos no mundo. "Os Estados Unidos exigiam que os agricultores abandonassem o plantio da coca antes mesmo de conseguirem acesso aos programas alternativos, sem levar em consideração que as famílias deles precisam se alimentar. Agora o cato garante a renda dos agricultores e dá a eles a chance de assumir o risco de aderir a outros cultivos", observa Kathryn Ledebur, diretora da Rede de Informação Andina, que monitora os esforços de combate ao narcotráfico.


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