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Natal, 28 de Novembro de 2009 | Atualizado às 08:54

Caça-niqueis funcionam livremente

Publicação: 29 de Novembro de 2009 às 00:00
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“Boa sorte!” A saudação vem acompanhado de um sorriso da funcionária, que vê mais um cliente entrar no “estabelecimento”. Com vidro fumê na porta de vidro, ar-condicionado dentro e diversas máquinas para jogar, pode até parecer uma “lan house”, mas a semelhança para por aí. A “empresa” em questão não possui nenhuma identificação externa. O vidro fumê não serve só para proteger da claridade, também esconde o negócio ilícito. E as máquinas não se tratam de simples computadores, mas sim dos proibidos caça-niqueis.

Apesar da ilegalidade, os centros de jogos de azar, espécie de cassinos, se espalham pela cidade. A reportagem da TRIBUNA DO NORTE esteve em dois deles, nos últimos dias, e comprovou que quase dois anos após a operação “Niquelândia”, que resultou na prisão de 14 pessoas e retirou de funcionamento 616 máquinas do tipo, em Natal, a contravenção voltou à tona, de forma mais velada, mas não menos intensa.

Na delegacia de Costumes, responsável pela repressão dessa atividade, o delegado Flávio Della Vale afirma que vem sendo feito um trabalho de inteligência para identificar os principais responsáveis pelo esquema de jogos clandestinos. Há apenas um mês no cargo, como substituto, e dividindo o tempo com as responsabilidades pela Delegacia do Consumidor, ele prefere não dar detalhes das investigações. Porém, é nítida a falta de uma melhor estrutura para combater esse tipo de ilegalidade.
Júnior SantosPolícia tenta intensificar a fiscalização contra os caça-níqueis, mas as máquinas se espalhamPolícia tenta intensificar a fiscalização contra os caça-níqueis, mas as máquinas se espalham

E de acordo com outras fontes da polícia, o maior problema não é o simples fato de o jogo ser uma contravenção, mas sim o de servir como ferramenta para crimes graves, incluindo a lavagem de dinheiro, a formação de quadrilha e a corrupção, que atinge até os quadros policiais. Informações dão conta de que muitas máquinas pertencem a PMs e vários centros contam com segurança “privada”, prestada por policiais militares. Dentro desse esquema, “vazar” uma informação a respeito de operações de combate à contravenção chegaria a valer R$ 5 mil para os corruptos.

O trabalho é prejudicado ainda pela conivência da população em relação aos “cassinos” e mesmo os caça-niqueis espalhados por bares e outros tipos de comércio. Poucos cidadãos denunciam a existência das máquinas e muitos consideram esse tipo de aposta algo tão “legal” quanto o “Jogo do Bicho”. A relação entre ambos também é clara. Muitos caça-niqueis funcionam em estabelecimentos identificados pela marca “Paratodos”, principal organização de “Jogo do Bicho” em Natal.    Porém, os “cassinos” também existem de forma independente, em diversos bairros da capital, sobretudo os mais populares e de grande movimento, como a Cidade da Esperança, o Alecrim e na zona Norte, e se espalham por toda a cidade. Ao contrário de anos atrás, agora as máquinas ficam mais escondidas e o cuidado em relação à exposição é bem maior.

Nos bares e cigarreiras, ao invés de ocuparem espaços privilegiados no balcão e no lado externo, as máquinas agora são mantidas nos fundos, geralmente atrás de “biombos”, escondidos em meio a grades de cerveja, ou por trás de armários.

Espaços são para entreter o jogador

Ao entrar no “cassino”, o jogador logo percebe que o vidro não é exatamente “fumê”. Na verdade, se trata de um vidro comum, pintado de preto, ou com algum outro material que impede não só quem está fora observar quem está dentro, como vice-versa. A artimanha serve para proteger as máquinas ilegais dos olhares curiosos e também tem o mesmo objetivo de alternativas semelhantes utilizadas por empresas legalizadas: evitar que o cliente veja o tempo passar, estimulando-o a permanecer gastando o máximo possível. 

O ar-condicionado ajuda a montar o ambiente agradável, suficientemente convidativo para se permanecer horas em frente às máquinas, tentando a sorte no jogo de azar. Nos “cassinos” visitados pela TRIBUNA DO NORTE, cerca de uma dúzia de máquinas eram oferecidas ao cliente, embora informações deem conta de que há centros de diversão com até uma centena. A maioria das “lojas” fica em ruas movimentadas, facilitando o acesso dos jogadores, mas há aquelas que funcionam em locais menos visíveis, inclusive residências aparentemente normais, onde só se entra através de convite, ou acompanhado de um frequentador.

Longe de serem um segredo, os “cassinos” são conhecidos pelos moradores e comerciantes próximos. Alguns oferecem inclusive comércio de bebidas e lanches, para manter os jogadores entretidos, enquanto gastam dinheiro nas máquinas. O movimento se inicia logo nas primeiras horas da manhã e se intensifica conforme passa o dia. Alguns centros trabalham em “horário comercial”, enquanto outros se mantém abertos até a madrugada.

Há quem revele ter “vencido” as máquinas e levado um bom dinheiro, mas se tratam de exceções que comprovam a regra.   O mais comum é sair do “cassino” no prejuízo. A “lógica” do jogo segue uma tendência tão comum, quanto suspeita. O apostador geralmente ganha logo no início e isso o estimula a se manter jogando, até perder mais do que havia conseguido.

Durante operações policiais realizadas em 2007 e 2008, constatou-se que a atividade ilegal é bastante lucrativa. Tanto que se uma máquina for utilizada por apenas dois meses, já paga os investimentos feitos pelo comprador. Atualmente, há informações de que há pontos que lucram até R$ 400 mil por mês, com o jogo.

Cassinos atraem apostadores de várias camadas sociais

Esqueça a imagem clássica dos cassinos de Las Vegas, com roletas girando, apostadores em roupas de gala e um crupiê gritando “façam suas apostas!” A maioria dos “cassinos” que reúnem caça-niqueis em Natal estão mais para lojinhas simples, que atraem clientes das mais variadas classes sociais. São comerciários no intervalo do emprego, ou pessoas fazendo compras pela cidade; jovens de escolas próximas, ou moradores da vizinhança; “viciados” que arranjam sempre um tempinho para jogar, ou quem quer simplesmente uma diversão rápida.

As máquinas coloridas e cheias de luzes se dividem entre as que aceitam notas de dinheiros e as que recebem moedas, ou fichas. O objetivo pode ir de acertar uma bandeira de um país, ou mesmo uma sequência de imagens. Fora os “sofisticados” vídeo-pokers. A jogada é feita acionando uma manivela, ou apertando botões. E o objetivo geral é conquistar o grande prêmio acumulado, que chega facilmente aos R$ 3 mil. Porém, há outra infinidade de premiações menores, conforme a máquina e a aposta feita.

As apostas, aliás, podem ser de poucos centavos, o que permite a atração de clientes de qualquer classe social e faz com que a “jogatina” se estenda por mais tempo. Quando o apostador tem sorte, recebe o “apurado” em moedas, ou o valor fica registrado na tela e é quitado pelos caixas do “cassino”. Em alguns casos, esses funcionários demonstram preocupação com o valor perdido pelos clientes. Impossível é saber se a preocupação é sincera, ou decorre apenas do medo de que o prejuízo faça com que o perdedor pare de frequentar o local.

Poucos apostadores conversam entre si e a maioria se concentra apenas no sobe e desce de imagens e luzes das máquinas, torcendo pelo grande momento de ganhar o prêmio acumulado, que geralmente não vem. Ao sair, ouvem um lamento de solidariedade, pela falta de sorte, e o inevitável “volte sempre”, da boca de quem trabalha e depende da atividade ilegal.

Operações apreendem mil máquinas

A maior operação já realizada contra os jogos de azar em Natal ocorreu em dezembro de 2007, quando foi deflagrada a “Niquelândia”, que reuniu Polícia Civil, Militar e Exército, resultando na apreensão de 616 caça-niqueis e na prisão de 14 pessoas supostamente envolvidas com jogos de azar, inclusive chefões do “Jogo do Bicho”, logo liberados por decisões judiciais. Em março do ano seguinte, uma nova operação, a “Halloween” (nome comum de algumas máquinas), retirou das ruas outros 316 aparelhos, além de fechar um cassino que oferecia de roleta a mesas de carteado.

Em ambas as operações foram descobertos bingos clandestinos e identificados casos de porte ilegal de armas. As máquinas foram destruídas, após serem retirados os componentes de informática que pudessem ser utilizados em computadores. De acordo com perícias, os aparelhos eram programados para lesar o apostador. A chance de o jogador sair no lucro chegava a ser de menos de 20%. À época, foram revelados casos de “viciados” que perderam R$ 15 mil na jogatina.

Ainda em maio do ano passado, a Polícia Civil fechou outra casa de jogos em Candelária, onde funcionavam 50 máquinas. Um policial militar foi preso fazendo serviço extra como vigilante no local. O então delegado de Costumes e responsável pelo comando das operações, Odilon Teodósio, revelou, na ocasião, a dificuldade no combate à prática ilegal: “Eles já deram o recado: a gente fecha, eles abrem em outro lugar. Acho pouco provável que a Justiça vá enfrentá-los.”

Do lucro obtido no esquema, 80% ficava com os proprietários dos caça-niqueis e 20% com o dono dos estabelecimentos onde as máquinas eram expostas. As suspeitas da Polícia eram de que o negócio ilegal poderia “lavar” até R$ 1 milhão por mês.

Projeto legaliza bingos e caça-níqueis

Um projeto já aprovado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara Federal, em setembro, pode legalizar o funcionamento dos bingos e máquinas caça-niqueis em todo o Brasil. A proposta, de autoria do deputado Regis de Oliveira (PSC-SP), ainda precisa passar por votações no plenário da Câmara e no Senado, mas o placar na CCJ, 40 favoráveis e apenas sete contrários, dá uma noção do apoio dos parlamentares à ideia.

O argumento usado é o de que o fechamento de bingos e casas de jogos de azar provocou diversos prejuízos, dentre os quais um grande número de pessoas desempregadas. Em 2007, ações do Ministério Público Federal no Rio Grande do Norte resultaram no fechamento de estabelecimentos como o Natal Bingo, Vegas Bingo e o Bingo Alecrim, além dos antigos “telebingos” Poupa Ganha, Tenta Ganha, Potiguar da Sorte e RN da Sorte.

Bate-papo: Flávio Della Vale - Delegado de Costumes

Qual o principal desafio no combate aos caça-níqueis?
Há vários fatores que dificultam. Primeiro que o jogo atrai muita gente. Segundo é que está, de certa forma, disseminado. Existe até projeto para legalizar, mas por enquanto é contravenção e, além disso, há a tese de que por trás desse tipo de atividade existem outros tipos de atividades muito mais danosas à sociedade, como formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e crimes até mais graves do que esses. De forma que a gente tem de fazer o combate, mas tem de fazer com inteligência, identificar quem são os responsáveis de fato, para não responsabilizar simplesmente os “testas-de-ferro”, os gerentes, ou os simples funcionários que estão ali ganhando o dinheirinho deles. Para isso, a gente tem de fazer planejamento, serviço de inteligência e já estamos trabalhando nesse sentido.

E os comerciantes que autorizam o funcionamento das máquinas em seus estabelecimentos sairão impunes?
De forma alguma, inclusive algumas denúncias foram feitas, através de pessoas que procuraram o Ministério Público, tratando de locais que funcionam próximo a escolas. Nós já detectamos, combatemos e, infelizmente, aquele pequeno comerciante que mantém uma ou duas máquinas, é conduzido até a delegacia e vai responder criminalmente por manter esse tipo de atividade em seu comércio.

A falta de infraestrutura é reclamação constante na Polícia Civil. Isso também ocorre na Delegacia de Costumes?
De uma forma geral, a gente nunca está com aquilo que gostaria de estar para fazer nosso trabalho. A gente sabe que tem deficiência de pessoal, que está sendo resolvida com concurso público, tem a deficiência de material, que com o tempo isso aí vai ser resolvido, a gente vai ter mais viaturas, mais equipamentos, mas essa deficiência não vai impedir a gente de continuar a trabalhar.

E existe participação de policiais nos esquemas dos caça-níqueis?
Se houver a participação de qualquer pessoa, seja lá quem for, isso vai ser averiguado e combatido. Não tenho elementos para dizer isso.
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