Calendário eleitoral é desafio a mais
Publicação: 14 de Maro de 2010 às 00:00
São Paulo (AE) - A reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) que acontece esta semana terá um tema a mais para ser debatido: o calendário eleitoral deste ano. Segundo o coordenador de Estudos de Mercados Emergentes da Tandem Global Partners e ex-diretor de Assuntos Internacionais, Paulo Vieira da Cunha, o Banco Central (BC) terá de avaliar, desde já, se pretende estender o ciclo de aperto monetário durante o período de eleições ou se encerrará o ajuste antes disso. Esse será um desafio a mais para a estratégia de política monetária que o Copom vai adotar e ajustar a estratégia antecipadamente será importante para evitar ruídos indesejáveis
Para Vieira da Cunha, o Copom terá de subir a taxa Selic em 300 pontos base para levá-la ao chamado ponto neutro. E, depois disso, deverá fazer algum ajuste adicional, entre 50 e 100 pontos base. Isso porque, em sua avaliação, há sinais de que a demanda cresce a uma taxa muito superior ao do investimento. "Já há menos dúvidas de que entramos em uma etapa em que é preciso não apenas normalizar a taxa de juros como também promover alguma contração da economia", afirma.
Segundo suas estimativas, o PIB potencial do País, que crescia a uma taxa entre 5% a 6% ao ano em meados de 2008, teve seu crescimento reduzido para 3,5% em 2009, por causa da forte contração dos investimentos. Agora, esse ritmo subiu para 4,50%. Já a demanda cresce a uma taxa anualizada de quase 8%. Isso indica que o hiato do produto já está fechando. "Se olhar para os dados de emprego, é possível dizer que o hiato já fechou", diz.
Diante desse quadro, não há dúvidas de que os juros vão subir. A questão é quando e em que ritmo. "Se estivéssemos em um ano normal, essa elevação poderia acontecer de forma ininterrupta. Mas, como há a eleição no caminho, o Copom vai ter de decidir como irá conduzir o processo e, principalmente, como fará a comunicação com a sociedade", explica Vieira da Cunha.
O ex-BC explica que os integrantes do Copom não gostam muito de debater sobre o chamado orçamento de política monetária, mas sim de decidir cada passo por vez. Mas, desta vez, há uma questão estratégica a ser decidida e o assunto, dessa forma, terá de ser avaliado já em março. "Não há como escapar", afirma.
Ele diz que uma opção seria elevar a taxa Selic ao ponto neutro - ou seja, elevar a taxa em 300 pontos base - até setembro e, então, fazer uma parada no ciclo no período eleitoral. "Essa seria a opção que eu apoiaria se fosse do Copom", afirma. Para isso, explica, seria necessário subir a Selic a partir de março e elevar a taxa em 0,75 ponto nas duas primeiras reuniões. Passada a eleição, então o BC avaliaria a necessidade de subir mais um pouco os juros, já tendo como objetivo uma ação contracionista.
Mas Vieira da Cunha diz que também é possível que o Copom dê menor importância ao calendário político e suba a Selic em doses de 0,5 ponto. Nesse caso, haveria um ajuste na Selic na reunião que termina no dia 20 de outubro - exatamente entre o primeiro e o segundo turno das eleições, que acontecem em 3 e 31 de outubro, respectivamente. O aperto monetário poderia, nesse caso, começar em abril. Mas, adverte, o desafio seria fazer uma boa comunicação sobre a decisão de elevar a taxa ao chamado ponto neutro. "O importante, nesse caso, é o BC sinalizar claramente que pretende elevar a Selic ao ponto neutro", afirma. "Mas seria uma inovação", afirma. Ele explica que, como os agentes tendem a "politizar" os assuntos relacionados à política monetária, não houve no Brasil uma situação de alta de juros no mês de eleições.