Câmbio semiautomático está cada dia mais acessível
Publicação: 19 de Março de 2010 às 00:00
Por Carlos Rydlewski
Peça de engenharia que requer motores potentes para funcionar a contento e representa um custo médio de R$ 5.000 no preço final de um carro, o câmbio automático sempre foi um item associado aos carrões de luxo. Neste ano, contudo, a experiência de dirigir sem ter de mudas as marchas manualmente se tornou acessível aos brasileiros que podem comprar modelos apenas um degrau acima dos populares. E estima-se que, em menos de cinco anos, já será possível enfrentar o congestionamento das grandes cidades a bordo de carros 1.0 que também liberam o motorista do circuito infernal da "primeira/ponto morto". A tecnologia que tornou isso possível é a do câmbio semiautomático. Em termos muito genéricos, o que os engenheiros fizeram foi trabalhar sobre um sistema convencional de transmissão e acoplar a ele componentes eletrônicos e hidráulicos semelhantes aos que realizam as tarefas do câmbio automático, porém bem mais baratos. Um equipamento desse tipo representa, no preço final do veículo, um acréscimo de 2.500 reais. E ele traz benefícios ao consumo de combustível. Pode significar uma economia de até 5% em gasolina, ao passo que os carros automáticos consomem, em geral, 10% mais do que os de câmbio manual.
Como é o caso de tantos outros equipamentos hoje presentes nos carros de passeio, o conceito do atual câmbio semiautomático nasceu nas pistas de Fórmula 1. Ele começou a ser desenvolvido para a equipe Ferrari, em 1987, pela Magneti Marelli, gigante italiano das peças automotivas. A estreia da tecnologia ocorreu na temporada de corridas de 1989, nas mãos do piloto Nigel Mansell. Em 1997, ela foi empregada pela primeira vez em um modelo superesportivo: a Ferrari F355. Em 2003, chegou às ruas da Europa em veículos comuns como o Renault Clio. No Brasil, o primeiro carro abaixo da categoria luxo a trazer o sistema foi o Chevrolet Meriva, da GM, no fim de 2007. Agora, o processo se acelerou. Somente no segundo semestre de 2009, foram lançados no País oito novos modelos com câmbio semiautomático, seis deles dentro da faixa de preço em torno de R$ 35.000 a R$ 45.000. Esse é o caso, por exemplo, do Gol 1.6 I-Motion, da Volks e do Palio ELX 1.8, da Fiat. Cada grande montadora dá um nome de fantasia ao seu câmbio semiautomático (veja quadro). Enquanto a GM importa seus componentes da Alemanha, a Magneti Marelli produz as peças no Brasil para a Fiat e a Volks. Mas as diferenças são ínfimas.
A decisão de lançar mais carros com câmbio semiautomático no mercado brasileiro tem a ver com mudanças no padrão de consumo relacionadas à ascensão da classe "C" no Brasil. Uma pesquisa recém-concluída pela FENABRAVE (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores) constatou que o gasto médio na compra de um carro novo passou de R$ 34.000 em 2008 para R$ 37.800 em 2009. Ao encontrarem melhores condições de financiamento na compra de automóveis, com juros menores e prazos mais longos, algumas pessoas resolveram investir em modelos mais potentes ou com mais opcionais. Para esse consumidor, o câmbio semiautomático pode ser um atrativo.
Não é o caso de pensar que as ruas brasileiras serão inundadas, do dia para a noite, por carros com mudança de marcha automática. A Magneti Marelli, que fabricou em 2008 apenas 15.000 câmbios semiautomáticos, programa para 2010 uma produção de 140.000 unidades. O crescimento é vistoso, de mais de 800%, mas os números absolutos são modestos quando se considera que ao longo de 2009 quase 3 milhões de carros novos foram emplacados. "O câmbio ainda não é prioritário para o motorista que está comprando o seu primeiro carro fora da faixa dos populares. Ele perde importância, por exemplo, diante de acessórios como ar-condicionado, direção hidráulica e o sistema elétrico de vidros, travas e alarmes", diz Carlos Henrique Ferreira, engenheiro assessor técnico da Fiat Automóveis.
Há que levar em conta também um fator cultural: o motorista brasileiro gosta da sensação de dominar a máquina que a operação do câmbio e da embreagem proporciona. O câmbio semiautomático oferece, no máximo, uma versão muito diluída dessa experiência, a redução ou o aumento da marcha com um leve empurrão na alavanca Ainda assim, a tendência é irreversível e consultores do setor automotivo estimam que, em 2012, o primeiro 1.0 semiautomático estará circulando no asfalto Brasil.