Isaac Lira - Repórter
Falta de circulação de ar, calor, pouco espaço e um espaço pequeno para se movimentar. As acomodações dos camelódromos de Natal não são nem de longe as ideais para um ambiente de trabalho. De acordo com especialistas no assunto, como o médico do trabalho Janúncio Rocha, a falta de condições ideais de convivência no local pode facilitar o contágio com doenças infecciosas e o calor excessivo, além da falta de circulação de ar, podem causar os mais diversos problemas de saúde. Acostumados com o ambiente insalubre, os clientes e vendedores do camelódromo não se incomodam com os problemas.
Elisa Elsie
Camelôs, como o da foto, têm medo de conceder entrevista
Mesmo sem ser um especialista no assunto, alguns minutos transitando entre as barracas dos dois principais camelódromos da cidade - localizados no Alecrim e na Cidade Alta - são suficientes para compreender do que fala o médico Janúncio Rocha. No Alecrim, a cobertura é de zinco e na parte da tarde quem está dentro da estrutura de metal literalmente cozinha no próprio suor. Pouco tempo é necessário para que a suadeira comece. O clima abafado contribui com o desconforto de não ter onde tomar banho, comer, ir ao banheiro e com o espaço apertado para ficar. Embora um pouco mais arejado, o camelódromo da Cidade Alta apresenta ambiente similar.
"Aquele clima abafado, o calor excessivo, primeiro pode causar epidemias. Alguém com gripe A dá um espirro ali e todo mundo é contagiado, pelas características do ambiente", aponta. E complementa: "Não posso falar muita coisa porque foi o próprio poder público que ergueu e mantém aquele espaço, mas se fosse um empreendimento privado, com certeza não seria permitido que funcionasse. O ambiente é inadequado". A reportagem da TRIBUNA DO NORTE entrou em contato com a Vigilância Sanitária e recebeu a informação, do setor de saúde do trabalhador, de que não há registros de inspeção nos camelódromos.
A preocupação com o espaço é ressaltada pelo fato de que os camelôs, ao contrário dos clientes que estão de passagem e não entram em contato por muito tempo com o ambiente insalubre, passam boa parte do seu dia postados nas barracas, à espera das vendas. O mais comum é que cheguem logo no início da manhã para arrumar as lojas e permaneçam até o fim da tarde. Em épocas festivas, como o Natal e Dia dos Pais, Dia das Mães, etc, esse horário é estendido.
Dessa forma, os camelôs acabam almoçando dentro da própria loja e a comida divide a atenção com prováveis clientes. Não há local adequado para refeições, a não ser que eles utilizem alguma das lanchonetes do local. No Alecrim, a questão do banheiro é central. As instalações são inviáveis. Sujos e mal-cheirosos os banheiros do camelódromo são usados apenas em casos de "urgência". No geral, os vendedores se deslocam até lojas vizinhas para usar um banheiro mais habitável.
A rotina dos camelôs, igual a de outros comerciantes, inclui negociação com fornecedores, muitas vezes, sendo necessário buscar a mercadoria em outro estado. Nos dois de Natal, os principais produtos vendidos são roupas, calçados, serviços como lanchonete e desbloqueio de celular.
Comércio de CDs piratas expulsa quem vende roupasOs comerciantes apontam que nos últimos tempos o comércio de CDs e DVDs piratas tem atraído muitas pessoas a se instalar nos camelódromos. "Antes aqui era só roupa e calçado, mas os piratas vêm se estabelecendo cada vez mais. Se não fosse por isso, não havia movimento aqui, porque as pessoas chegam pra comprar DVD e acabam levando outras coisas", desabafa Levi Andrade, que é um dos fundadores do camelódromo do Alecrim.
Os comerciantes pagam R$ 20 por box para uma Associação que administra o espaço. Eles reclamam bastante da falta de cuidado com o local, sempre sem querer se identificar, com medo de represálias. A reportagem da TRIBUNA DO NORTE tentou contato com a Associação, mas não houve retorno. No espaço de tempo em que permanecemos por lá, o presidente da Associação dos Camelôs não chegou para o expediente.
É difícil fazer os comerciantes falar. No geral, eles concedem algumas palavras somente para reclamar do movimento no comércio. Todos reclamam, sem exceção, sendo essa a única unanimidade no local. Quando a reportagem se identifica, o mais comum é que eles parem de dar informações, peçam para não ser fotografados e que não se coloque o nome na reportagem. Os motivos são obscuros. Alguns relatam medo de represálias por parte da administração, outros ficam calados. Os vendedores de CDs e DVDs piratas, por motivos óbvios, preferem ficar calados.
Contudo, aqueles que falam expressam com naturalidade o sofrimento com o ambiente. Os banheiros são alvo de reclamação, mas o calor mal é notado. "Olha, às 14h, quando o sol está mais forte, isso aqui ferve. É mesmo bastante desconfortável, mas a gente está acostumado", conta Levi Andrade. A administração do camelódromo pôs ventiladores de teto nos corredores, mas não em todos. Por isso, os vendedores ficam chateados, até porque pagam para manter o ambiente. "Não sei o que acontece que os ventiladores estão sempre quebrados", diz uma proprietária de loja de desbloqueio de celular que prefere não se identificar.
Uma outra preocupação sempre presente no discurso dos comerciantes é a provável saída do camelódromo daquele local. Boatos sempre são divulgados de tempos em tempos sobre a possível mudança de local ou demolição. "Se não houver mais isso aqui, para onde iremos?", questiona mais uma vez a proprietária de loja de desbloqueio de celular. Nesse ponto, todos são contra e, ao ser informados que não há nada de concreto sobre o tema, eles ficam aliviados. Isso porque apesar do ambiente insalubre todos eles concordam que um box no camelódromo é objeto de desejo entre vários comerciantes. "Todo mundo quer ter um ponto aqui porque o movimento é grande", diz outra fonte que não quis se identificar. Isso coloca em dúvida a percepção de que o comércio está fraco.
Por outro lado, os clientes, apesar de reconhecerem os defeitos do ambiente de convivência do camelódromo, concordam que o local é atrativo por um motivo universal: o preço. "É mesmo quente e desconfortável, mas fica difícil não vir porque o preço vale muito a pena", encerra a estudante Vanessa Priscila.