Chega de saudade. A frase define e também dá ritmo ao retorno, neste sábado, do Espaço Cultural Buraco da Catita, o projeto musical que pôs o chorinho e seus derivados na trilha sonora da capital potiguar, via Ribeira. Foi uma pausa de sete meses para, em todos os sentidos, arrumar a casa. Reformas gerais, externas e internas, foram realizadas com o intuito de proporcionar mais conforto e segurança aos frequentadores cada vez mais numerosos do local. Aliado a isso, também vieram novas propostas musicais e administrativas na casa. A abertura será às 20h, com solenidades oficiais e a boa música de sempre. Bandolim, violão e pandeiro a postos.
Marcelo Barroso
As noites do "chorinho" deixaram saudades em quem virou frequentador assíduo
A primeira noite da nova temporada dos chorões terá à frente o grupo Catita Choro & Gafieira, a formação com 13 integrantes - incluindo as cantoras Camila Masiso e Juliana Barbosa -, além do Octeto de Saxofones da UFRN. Na ocasião serão apresentados os novos espaços. Na parte externa, a prefeitura refez a Travessa José Alexandre Garcia, entre a Duque de Caxias e a Câmara Cascudo, que recebeu um novo piso e luminárias, ficando com o aspecto de um charmoso boulevard.
Já o prédio que abriga a sede do Buraco da Catita foi ampliado e reformado, tudo com recursos dos próprios componentes do grupo. Foi ampliado o salão, a cozinha cresceu, há um banheiro para cadeirantes, e uma lojinha para souvenirs relacionados ao Buraco (camisetas, CDs, DVDs, etc). "A gente não esperava ficar tanto tempo fechado, devido a demora na conclusão do calçadão. Mas foi bom, porque tivemos mais tempo de nos organizar melhor, fortalecer a equipe, pensar em novos planos", diz o violonista Camilo Lemos, um dos fundadores do projeto.
Entre as novidades do Buraco da Catita 2010, está a programação. Vai começar pela quinta-feira, que será aberta por música erudita, seguida pelo grupo Jazz Brasil; o chorinho tradicionais da sexta, e aos sábados (a partir da semana que vem), samba e feijoada a partir das 16h. O grupo "compacto", Catita Choro & Regional, é formado por Cleber Moreira (pandeiro), Camilo (violão 7 cordas), Marcelo Tinoco (pandeiro), Ronaldo freire (flauta) e Neemias Loes (sax alto).
As novas não ficarão por aí. Em breve, haverá programação para as terças-feiras, com exibições de filmes, e às quartas-feiras, um espaço aberto para exposições, lançamentos de livros, dança, teatro, e demais atividades culturais. O serviço de bar também foi aprimorado. Para breve, será implementado o novo cardápio da casa, elaborado pelo experiente Mainardo - que anos atrás comandou o criativo Baby Attitude, em Petrópolis. Ele criou uma lista de opções que circula entre a culinária nordestina e a cozinha universal, como o carpaccio de carne de sol, saladas, petiscos regionais e coquetéis. Chefs serão convidados para criar novidades para a casa.
Foi oficializada recentemente a Associação Espaço Cultural Buraco da Catita, que além de organizar as atividades de seus músicos, também abrirá espaço para associados. Estes, vão pagar uma taxa e terão alguns privilégios, como descontos e sugestão de projetos. Segundo Camilo, esta é uma das alternativas tomadas para que o chorinho possa se sustentar e oferecer bons serviços para o público.
"A ótima receptividade que o Buraco da Catita teve nos incentivou a melhorar os serviços. Tínhamos de 400 a 500 pessoas por noite. As coisas foram acontecendo de uma forma natural, para a melhor", conta Camilo Lemos. Em algumas ocasiões, como as quintas-feiras, será cobrada a entrada. O viés levemente comercial é uma forma de o projeto se sustentar pelas próprias pernas. "O nosso objetivo maior sempre foi música e cultura. A popularidade da Catita ficou tão grande, que começou a atrair gente não sintonizada com a nossa proposta. Esta seria uma forma de nos sustentarmos, e também selecionar o público que realmente quer ouvir boa música, sem ser incomodado pelos para-quedistas", acrescenta.
O tino levemente comercial do novo Buraco da Catita não significa a perda da essência do projeto. É, na verdade, uma melhora em respeito ao público. Camilo lembra dos primeiros dias na Ribeira quando nem o banheiro tinha porta.
Novos projetos musicais incluem ainda o lançamento do CD da Catita Choro & Gafiera, todo autoral, para agostou ou setembro. As homenagens aos mestres também continuarão. A partir de quinta-feira, a Catita funcionará de 18 às 0h.
Um grupo de amigos, bandolim, violão e pandeiroO projeto nasceu de forma informal e despretensiosa: em 2007, um grupo de amigos músicos passou a se reunir todas as sextas no final da tarde, nas adjacências do Beco da Lama, Cidade Alta, para tocar choros, maxixes, baiões e frevos no meio da rua, tornando esses encontros referência na agenda cultural local e atraindo dezenas de pessoas para o centro histórico da cidade. Criou-se então o grupo musical Catita Choro e Gafieira, cujo nome homenageia o compositor potiguar K-ximbinho, autor do choro "Catita".
"A gente tocava na esquina do Museu Café Filho, todas as sextas, das 16 às 21h. Era o happy hour dos boêmios", diz Camilo. Quando a festa tomou proporções maiores, o grupo desceu para a Ribeira. "Nosso primeiro dia na cidade baixa atraiu 130 pessoas, sem nenhuma propaganda", conta. Segundo ele, o chorinho deu certo por uma reunião de fatores. "Temos excelentes músicos e repertório impecável; também havia a carência de lugares com música brasileira que não fossem os clichês de barzinho, e também contribuiu o carisma do grupo. A gente sente prazer em tocar, e o público fica leve e descontraído com isso", explica. O clima democrático também é outra iguaria do projeto. "A mistura é um dos maiores baratos da Catita. Temos todas as classes, idades, grupos. Isso, a gente quer manter na paz, tudo misturado", conclui.
Serviço:Reabertura do Buraco da Catita. Sábado, às 20h, entre as ruas Câmara Cascudo e Duque de Caxias, Ribeira.