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Natal, 04 de Novembro de 2009 | Atualizado às 20:18

Chuva cajuína de Vatenor

Publicação: 05 de Novembro de 2009 às 00:00
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O colorido dos cajus em detalhe e a chuva deles molham os quadros de Vatenor. Ele que descobriu a pintura ainda na década de 70, quando se mudou para o Rio de Janeiro para ser fuzileiro naval, olha para trás e sorri. “Não tiraria nada do meu destino”. No lugar das armas escolheu os pincéis como ele mesmo afirma. E no processo de descoberta das cores e das perspectivas, a brincadeira com carvão desenhando o rosto de Tiradentes nas calçadas de Igapó – quando criança - ganhou todo o sentido. Foi assim que ele se descobriu artista e autodidata, aos poucos.

Ainda na década de 70 pelas ruas do Rio de Janeiro – lugar que escolheu morar por 26 anos – dividiu suas inquietações pelos bares e becos da vida com artistas como Sérgio Sampaio, seu grande amigo. Nesse desenrolar de sentidos e linhas da palma da mão, Vatenor descobriu algo essencial para sua construção enquanto artista, Van Gogh.  “Comecei a pirar em Van Gogh. Percebi que tínhamos muita coisa em comum na vida. Além dele ter nascido 100 anos antes de mim, o pai dele teve uma profissão similar ao meu pai, trabalhava com mineração, e eu também tive a mesma profissão que Van Gogh e trabalhei numa casa de molduras”, contou Vatenor ao VIVER.

As coincidências foram além e Vatenor começou a copiar obras de Gogh até descobrir a sua própria leitura de mundo, pintando cajus, que segundo ele é a essência de sua terra, “a substância principal da minha obra, meu alimento, meu brinquedo no quintal o símbolo da minha arte, da minha terra”. E foi representando sua terra com seus ângulos mais inesperados que o artista levou, na década de 80, obras para museus de Nova Iorque e Paris.

Com os olhares voltados para sua simplicidade, seus quadros mereceram atenção de figuras fortes no mundo da literatura e da pintura. Um deles é do escritor João Cabral de Mello Neto que escreveu, “Vatenor, sem essa malícia sábia do pintor primitivo, pinta e repinta seus objetos, mais interessado que está em arranjá-los em novas composições do que em procurar introduzir novas anedotas. Por isso, essa lufada de ar fresco que nos sopra de seus quadros nos faz descansar das pesquisas incansáveis de sempre-vanguarda e também da falsa ingenuidade dos modernos pintores primitivos, que antes se chamavam de “pintores de domingo” mas que hoje são pintores “em tempo integral”, administrando sabiamente de seus “ateliers” as fábricas de suas falsas ingenuidade em série”.

João Cabral gostava de conversar com Vatenor. “Lá no Rio a gente morava muito perto e eu gostava de chegar na casa dele nos finais de tarde. Era quando ele dizia poder sentir a simplicidade da vida falando de coisas como jogo de futebol, os canaviais e também sobre a poesia doce e cortante de Zila Mamede”, contou Vatenor emocionado lembrando que João Cabral no final da vida esteve muito deprimido e com medo da morte.

Quanto à saudade, ele responde que o corrói e fortalece. “Antes tudo era mais simples. A gente podia encontrar com poetas, artistas sem ter tanta dificuldade. No Rio principalmente. Como morávamos muito próximos, os bares viravam casas e encontros”, disse. Era quando Sérgio Sampaio falava com ele sobre a realidade de sentir a paixão cortando como navalha o peito e isso tudo virava poesia.

Depois desses 26 anos levando sua arte e seus cajus para o mundo – chegando a vender mais de 100 obras fora do país – Vatenor sentiu o desejo de voltar para Natal em 1996. “Esse sempre foi meu grande sonho. Retornar. Precisava contribuir de alguma forma na área das artes do RN. Antes por aqui a área das artes plásticas era conduzida de maneira precária e hoje temos outros horizontes. Prova disso são os contatos com aproximadamente 1.200 artistas na área hoje em dia”, disse.

Sua admiração na cidade passa por Dorian Gray, Marcelus Bob´s, entre outros contemporâneos. “Esses serão sempre sagrados”.

São essas essências, substâncias vermelhas ou amarelas e com cheiro de terra, saudade e uma história construída com coragem que Vatenor traz aos olhos do público em sua exposição que começa hoje, às 19h na galeria Newton Navarro na Funcarte e permanece em exposição até o dia 30 deste mês. Ao todo são 80 quadros escolhidos a dedo pelo artista sublinhando os 35 anos de existência de sua descoberta, a arte.

Serviço

Vatenor: Luz 0 cor – cajus. 35 anos de Arteiro Sempre. Exposição de hoje até o dia 30 de novembro na Galeria Newton Navarro na Capitania das Artes – Funcarte.

Visitação gratuita.

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