Yuno Silva - repórter
O coração do bairro Tirol permanece na UTI e sem prazo definido para receber alta. Esse é o quadro clínico da única área verde pública que ainda resiste na região central de Natal. Fechada há 45 meses (ou quase quatro anos) para reforma e a quatro dias de completar 50 anos desde que foi inaugurada em 31 de janeiro de 1962 (com show de Ataulfo Alves em um palco flutuante no meio da lago), a Cidade da Criança ainda é um grande canteiro de obras. A prorrogação sistemática dos prazos estipulados pelo Governo do Estado para sua reabertura refletem a falta de prioridade com o espaço.
Aldair Dantas
Sem data oficial para reabertura, Cidade da Criança permanece em obras e a diminuição da área verde já é visível
O projeto original, inicialmente orçado em R$ 8,5 milhões (R$ 7,2 milhões para reforma e R$1,3 milhão para aquisição de equipamentos), já sofreu alterações e tudo indica que uma segunda mudança seja proposta ainda neste mês de fevereiro com a inclusão de atrações da chamada Cidade da Ciência. Ou seja, além das obras de reforma, ampliação, adequação, restauração e construção de novas estruturas voltadas para o atendimento do público infanto-juvenil, o lugar também será contemplado com equipamentos ligados à educação científica como instalação de um museu, no local onde estava previsto um restaurante, e do planetário, cuja máquina foi adquirida pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado do RN (Fapern) há dois anos e permanece embalada.
A iniciativa capitaneada pela Fapern, de instalar parte da Cidade do Conhecimento na Cidade Criança, deverá provocar nova adequação no projeto. "Nesta próxima semana, estaremos nos reunindo com a equipe responsável pela obra para saber quais as possibilidades de redimensionamento do projeto para instalarmos o planetário e uma sala de exposição com acervo sobre a produção científica dos potiguares", adiantou a professora Maria Bernadete Sousa, presidente da instituição. Ela garantiu que o equipamento está bem armazenado e que não há riscos de deterioração.
Além da necessidade de se construir um novo espaço físico para abrigar o planetário, Bernadete informou por telefone que a Fapern dispõe de R$ 1,5 milhão para compra das poltronas e de todo o material para colocar a atração para funcionar. "Acredito que um planetário seja interessante para oferecer não só lazer como educação e conhecimento a quem irá frequentar a Cidade da Criança", aposta Bernadete, que estima pelo menos mais seis meses de trabalho.
Até o fechamento desta edição, a reportagem do VIVER ainda não havia conseguido manter contato com o arquiteto responsável. A assessoria de imprensa da Secretaria Estadual de Infraestrutura, órgão que responde pelas obras, informou que ele estava em reunião e que o engenheiro estava viajando - eles são os únicos autorizados a falar sobre prazos de conclusão, valores e possíveis mudanças no projeto.
As estimativas do Governo é que a reforma a Cidade da Criança possa chegar a R$ 10 milhões, e uma coisa pode-se concluir a partir das imagens registradas ao longo do tempo: é que a área está cada vez menos verde.
Oásis verde quando ainda era só a Lagoa Manoel FelipeO primeiro registro sobre a lagoa da Cidade da Criança, segundo informações descritas no livro "Terra Natalense" de Olavo Medeiros Filho, remonta ao ano de 1646. Antes de ser batizada como Lagoa Manuel Felipe, nome do antigo proprietário da área, ela se chamava Lagoa dos Calafanges e era descrita como "um pequeno lago onde nascia o rio da Cruz, depois chamado de rio do Baldo, afluente do Potengi (
) um lugar ótimo para convescotes".
Inaugurada em 1962 pelo então governador Aluízio Alves, a Cidade da Criança é hoje um dos poucos espaços públicos de Natal destinado ao lazer. Sua estrutura já abrigou mini-zoológico, escola de artes, biblioteca, passeios de pedalinho e quadriciclo, pista de cooper, playground e capela e réplicas menores de edifícios históricos. As últimas edições do Festival de Artes de Natal foram realizadas por lá em meados dos anos 1980, e antes de fechar as portas em 2008 a concha acústica vinha sendo palco para uma série de shows com artistas de renome nacional como Zeca Baleiro, Chico César e Renato Braz. Desde seu fechamento, o Governo do RN já investiu mais de R$ 5 milhões nas obras de reforma e o projeto original poderá sofrer a segunda alteração.
Aldair Dantas
Anfiteatro previsto no projeto anterior não foi modificado
MEMÓRIA- 2007 - O Ministério Público do RN recomenda o fechamento da Cidade da Criança por falta de segurança em torno da lagoa.
- abril de 2008 - O espaço fecha as portas para o público, após um período intenso de chuvas que destruiu as obras em curso.
- dezembro de 2009 - Licitação para execução das obras define a M&K Comércio e Construções Ltda como empresa responsável pela reforma. O projeto inicial, orçado em R$ 8,5 milhões e previsto para ser realizado em 10 meses, incluía dragagem da lagoa, ampliação do circo, do teatro e da concha acústica (que passaria de 200 lugares descobertos a dois mil cobertos). Na época, a FJA chegou a afirmar que o espaço seria liberado antes mesmo da conclusão de todas as intervenções.
- julho de 2010 - A FJA reafirma o plano de reabrir o lugar até outubro. Na época, um convênio firmado com a Petrobras garantia R$ 2 milhões para a compra de equipamentos e brinquedos.
- setembro de 2010 - Obras atrasadas e novo prazo para conclusão é anunciado pelo Governo para dezembro daquele ano. O período de chuvas foi a justificativa para os atrasos, no entanto apenas obras simples tinham sido executadas.
- outubro de 2010 - Cidade da Criança permanece fechada e apenas um jardineiro e um vigilante trabalham no local.
- abril de 2011 - Após dez meses paralisadas, obras são retomadas e Governo divulga prazo de conclusão da primeira etapa: outubro do ano passado.
- agosto de 2011 - Novo prazo para reabertura é anunciado: dezembro de 2011.
- outubro de 2011 - Ministério Público instaura Inquérito Civil Público para garantir que as obras em execução considerem acessibilidade nas áreas de circulação.
Fundação José Augusto lista outras reformas para 2012Além da reforma na Cidade da Criança, o Governo do RN anunciou outros investimentos em 2012 para recuperação e reforma de equipamentos culturais espalhados pelo Estado. A Fundação José Augusto / Secretaria Extraordinária de Cultura informou que alguns editais para licitação das obras já estão disponíveis na sede da Secretaria de Estado da Infraestrutura (SIN), e que parte dos recursos são provenientes de convênios com o Governo Federal.
- Biblioteca Pública Câmara Cascudo, em Natal: R$ 3 milhões (reforma e aquisição de equipamentos) - cerca de dois terços desse valor são recursos do Ministério da Cultura.
- Teatro Adjuto Dias, em Caicó: R$ 650 mil (reforma).
- Memorial Café Filho, em Natal: R$ 150 mil (restauração).
- Fortaleza dos Reis Magos: R$ 220 mil (restauração) - sendo R$ 150 mil oriundo de edital federal para museus.
- Teatro Lauro Monte Filho, em Mossoró: R$ 3 milhões (reforma) - parceria com o MinC.
- Casa de Cultura Popular de Portalegre: R$ 350 mil (reforma e restauração).
- Teatro de Assu: R$ 1,3 milhão (reforma).
- Casa de Cultura Popular de Assu: R$ 20 mil (reforma) - parceria com Prefeitura de Assu.