Michelle Ferret - Repórter
Um verdadeiro muro das lamentações. Esta foi a semelhança mais próxima refletida na II Conferência Estadual de Cultura que aconteceu ontem no auditório da IFRN (antigo CEFET) - evento que ocorre também em outros estados brasileiros. A intenção principal é discutir e avaliar junto aos artistas e sociedade o Plano Nacional de Cultura, ouvindo da classe artística e dos gestores as opiniões sobre as diretrizes e ações que necessitam ser implantadas em cada segmento da cultura brasileira e enumerando sobre o que está ou não funcionando na atualidade. O lugar do não ganhou espaço em praticamente todas as falas.
Emanuel Amaral
Conferência Estadual de Cultura foi pontuada por reclamações
A conferência teve a presença de representantes do Ministério da Cultura regional (PE), além da palestra de Crispiniano Neto, presidente da Fundação José Augusto que falou durante uma hora sobre a política estadual de cultura do RN.
Auditório razoavelmente cheio e ocupado por secretários de cultura de diferentes municípios como o de Pendência e de Santa Cruz, artistas de todas as áreas e produtores culturais, o tema central girou nas palavras "Cultura, Diversidade, Cidadania e Desenvolvimento" e foi além. Depois da abertura com apresentação da Domínio Cia de Dança, aconteceu a palestra de Fabiana Peixoto e Lia Calabre, representantes do Ministério da Cultura, falando sobre a importância das diretrizes enviadas pelo Rio Grande do Norte.
Logo após a fala delas, artistas e representantes das secretarias de cultura dos municípios se colocaram e as queixas tomaram conta do auditório. Dificuldade em gerir as casas de cultura, paralisação da Orquestra Sinfônica, dificuldade de captação de verbas para projetos artísticos e inúmeras lamentações foram somadas a maior crise que vive a cultura hoje que é o cancelamento do auto "A Festa do Menino Deus", prova viva da ausência de uma política cultural sólida e planejada. (que é exatamente o que a Conferência de Cultura tenta estrutura).
No auditório era visível a expressão de desencantamento no semblante e na fala dos artistas. A maioria participava do auto que seria realizada pelo governo e foi cancelada no final da construção do espetáculo. "É muito contraditório tudo isso. A gente está aqui na conferência ouvindo todas as propostas de esperança do governo, enquanto estamos vivendo um dos momentos mais perturbadores da cultura deste estado. Acredito que este seja o momento mais árduo e doloroso da nossa cultura. Machuca estar aqui", disse o ator Ênio Bezerra.
Depois de receber o balde de água fria na cabeça, os atores estavam comentando sobre as perdas vividas depois da notícia do cancelamento. "É complicado demais tomar uma dimensão de tudo o que perdemos com isso", completou.
Prejuízo no bolso dos artistasSegundo a coordenadora de produção do evento, Ivonete Albano, as perdas foram de todos os lados e citou o exemplo do técnico de som e projeção do espetáculo que comprou um aparelho para ser utilizado especialmente no evento "mais caro que um carro". "São muitos prejuízos de uma só vez", completou a coordenadora.
Sávio Araújo, professor de Artes Cênicas do departamento de Artes da UFRN não conseguiu dar aulas direito na manhã de ontem. Todos os seus alunos participavam da Festa que teve fim. "Vi meus alunos envolvidos num trabalho inexistente. Isso é uma falta de estímulo que é difícil ter volta. Isso é a gota d'água. Como falar para os artistas que estão começando agora que temos esperança? Isso é um calote que a governadora está aplicando nos artistas de natal", apontou Sávio.
O VIVER entrou em contato com a assessora da governadora pedindo uma resposta sobre o corte da verba para a realização do espetáculo. Segundo ela, "a Festa do Menino Deus nunca foi lançado. E acabou o dinheiro antes disso. Se não tem dinheiro não tem como fazer", disse a assessoria do governo ao VIVER. Ainda segundo a assessora, a governadora não iria se posicionar diante do cancelamento.
Na visão ainda otimista do presidente da Fundação José Augusto, Crispiniano Neto, o Estado pode construir uma política cultural sólida, "é só questão de tempo e continuidade aos projetos já iniciados", disse ao VIVER antes de iniciar sua palestra. "É preciso união para pressionar o poder público e precisamos lutar por uma política de continuidade, além da melhoria dos repasses financeiros para cultura".