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Natal, 24 de Maio de 2012 | Atualizado às 23:17

De fugas e de provérbios

Publicação: 05 de Setembro de 2010 às 00:00
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Carmen Vasconcelos [ poetisa ]

Estava lendo "A Grande Travessia" (A Bridge for Passing), da americana Pearl S. Buck, escritora que, até então, eu não conhecia. Mas já sei, ela escreveu setenta livros, muitos dos quais se tornaram filmes e, de quebra, ganhou o Nobel de literatura em 1938. Foi também uma lutadora pelos direitos das crianças sem pais e criou nos Estados Unidos uma Fundação para ajudar a encontrar pais adotivos para crianças asiáticas órfãs. Ela mesma adotou umas seis. A mulher era uma pérola mesmo. Ah, a Ásia? Pearl viveu infância e adolescência na China e em seus livros sempre se encontram, recorrentes, a cultura e vida da Ásia.

"A Grande Travessia" é autobiográfico e trata de uma viagem que Pearl fez ao Japão, para as filmagens de um de seus livros. Escrito em 1961, tem uma linguagem moderna e vigorosa, uma delícia de livro.

Logo no começo, Pearl cita um antigo provérbio chinês que diz que, das trinta e seis maneiras de fugir, a melhor é correr. A ela, diz, nunca lhe ocorreu perguntar quais seriam as outras trinta e cinco, talvez porque a resposta mais óbvia fosse que as tais trinta e cinco seriam desnecessárias, porque a pessoa sempre poderia correr.

A mim, talvez não me ocorresse perguntar, mas eu sei de muitas outras maneiras de fugir, além de correr. Aliás, dependendo da natureza da fuga, correr pode ser o pior jeito de fugir. Para os mineiros chilenos, protegidos, porém confinados sob toneladas de terra por um desmoronamento, a única maneira de fugir é esperar. E quanto a nosotros, quantas vezes também descobrimos a espera como a melhor maneira de fugir...

Dos lugares para se ir, se há trinta e seis ou mais, quando se pensa em fuga, eu não sei. Quando penso em fugir, penso sempre em fugir para mim mesma, ficar ao abrigo de mim. Embora eu tenha muito prazer em ficar com minha filha, meu marido, minha família e amigos, acho também que uma das melhores companhias para mim sou eu mesma. Onde ninguém me vê... Às vezes, nem eu. E acho esse pensar uma benção, porque, não fosse assim, como eu faria para fugir de mim? Seria um custo alto.

Digo como diz o poema "Conselho" de Fernando Pessoa: "Cerca de grandes muros quem te sonhas... E que ninguém, que veja e fite, possa saber mais que um jardim de quem tu és..." 

Não quero dizer que seja fácil fugir para mim mesma. Às vezes pode ser bem incômodo. Talvez desagradável, eu só e comigo, dar de cara com certas vilanias. Não tenho a quem atribuir culpas, e às vezes as culpas são imensas pontes. Pois, pois, às vezes tenho de atravessar grandes pontes. Mas em mim é onde melhor eu posso "deixar as flores que vêm do chão crescer e deixar as ervas naturais medrar".

Por isso, de quando em vez, preciso fugir para mim mesma com uma urgência de predador avistando uma presa. E aí, corro. Mas também, de quando em vez, preciso tomar distância do mundo, de uma maneira lenta e silenciosa, como se, mesmo ida, eu pareça estar presente. Well, entre correr e ficar, restam ainda trinta e quatro das maneiras proverbiais de fugir. E há, ainda, as outras... 

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